MPF aponta “simulacro de engenharia” na drenagem da engorda de Ponta Negra

Foto: Google/reprodução

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MPF aponta “simulacro de engenharia” na drenagem de Ponta Negra

O Ministério Público Federal (MPF) afirmou que o sistema de drenagem implantado na engorda da praia de Ponta Negra contém “tubulações falsas”, galerias bloqueadas propositalmente e estruturas inoperantes que colocam a área sob risco de desastre estrutural e sanitário. As conclusões aparecem em ação civil pública protocolada contra o Município de Natal.

Segundo o documento, perícias técnicas identificaram falhas consideradas graves no funcionamento da drenagem pluvial construída após a ampliação da faixa de areia da praia. O MPF sustenta que o sistema não consegue captar e direcionar adequadamente as águas pluviais, além de apresentar sinais de lançamento clandestino de esgoto.

A ação foi baseada em estudos técnicos da Fundação Norte-Rio-Grandense de Pesquisa e Cultura (Funpec) e em perícia realizada pelo próprio Ministério Público Federal.

Perícia encontrou galerias bloqueadas e tubulações inoperantes

Entre os pontos mais graves identificados estão galerias obstruídas deliberadamente com concreto e rochas, além de tubulações instaladas sem função operacional efetiva. O MPF afirma que parte da estrutura funciona apenas como “simulacro de engenharia”, sem capacidade real de dissipar adequadamente o fluxo das águas.

Os relatórios também apontam alterações irregulares na saída dos dispositivos de drenagem e tubos com bordas dobradas contra o fluxo da água, comprometendo ainda mais o escoamento pluvial.

Segundo a ação, os chamados dissipadores construídos pela Prefeitura não foram tecnicamente dimensionados para suportar a força da água e funcionam apenas como caixas de retenção subdimensionadas.

Na avaliação dos procuradores, o município descumpriu a obrigação legal de garantir infraestrutura urbana adequada ao implantar um sistema incapaz de operar corretamente.

MPF vê risco de “desastre estrutural iminente”

A ação afirma que o cenário atual cria condições ideais para ocorrência do chamado “transiente hidráulico”, fenômeno também conhecido como golpe de aríete. Segundo os peritos, a combinação entre ausência de dissipadores eficientes e o desnível topográfico de aproximadamente 40 metros pode provocar rompimento de galerias e caixas de concreto.

Os estudos técnicos citados pelo MPF alertam que esse processo pode acelerar erosões severas, comprometer a estabilidade da faixa de areia recém-ampliada e ameaçar frequentadores da praia.

Além disso, a perícia aponta possibilidade de perda antecipada da areia da engorda e agravamento da erosão na base do Morro do Careca. Segundo os relatórios, o escoamento inadequado já teria provocado danos físicos, incluindo derrubada de cercas de proteção da duna.

Laudos apontam esgoto, água parada e infestação de roedores

O MPF também descreve situação sanitária considerada crítica na área da drenagem. Segundo os laudos anexados à ação, dissipadores acumulam águas estagnadas com odor e coloração característicos de esgoto.

Os documentos registram ainda proliferação de vetores de doenças, incluindo insetos e roedores, além do risco de contaminação da areia e da água do mar durante o período chuvoso.

De acordo com os procuradores, a formação de lagoas contaminadas transforma parte da orla em ambiente propício à disseminação de doenças e amplia os riscos ambientais e sanitários para moradores, turistas e comerciantes da região.

MPF quer obras emergenciais e indenização de R$ 500 milhões

Na ação, o MPF pede que a Justiça obrigue o Município de Natal a executar medidas emergenciais de limpeza, manutenção e desobstrução semanal das bocas de lobo e dissipadores.

Também foram solicitados:

O Ministério Público Federal ainda pede indenização mínima de R$ 500 milhões por danos morais coletivos e a reconstrução integral do sistema de drenagem.

Engorda expõe conflito entre obra acelerada e limite técnico

O caso da drenagem de Ponta Negra evidencia um problema recorrente em grandes obras urbanas executadas sob forte pressão política e econômica: a velocidade da entrega frequentemente supera a consolidação técnica das estruturas necessárias para sustentar o projeto no longo prazo.

A engorda foi apresentada como solução para erosão costeira e fortalecimento turístico da principal praia urbana de Natal. O problema é que a ampliação artificial da faixa de areia alterou profundamente a dinâmica hidráulica da região, exigindo sistemas de drenagem altamente precisos para suportar o novo comportamento das águas pluviais.

Segundo a ação do MPF, parte dessa engenharia simplesmente não foi concluída adequadamente. O resultado é um cenário em que estruturas criadas para proteger a praia agora aparecem associadas ao risco de acelerar erosão, gerar contaminação sanitária e provocar colapsos estruturais.

Disputa deixa de ser técnica e se transforma em crise institucional

A ação judicial amplia o conflito em torno da engorda porque desloca a discussão do campo puramente urbanístico para o terreno da responsabilidade institucional.

Ao falar em “simulacro de engenharia”, galerias propositalmente bloqueadas e tubulações falsas, o MPF sugere que os problemas identificados não decorrem apenas de desgaste natural ou falhas imprevisíveis, mas de decisões técnicas e administrativas tomadas durante a própria execução da obra.

Isso transforma a crise da drenagem em algo maior do que um problema operacional. O debate agora envolve possível responsabilidade pública sobre uma intervenção bilionária que deveria proteger a orla, mas que passou a operar sob suspeita de aprofundar exatamente os riscos que prometia resolver.

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