echado há mais de três décadas, o antigo Cine Panorama, no bairro das Rocas, em Natal, deve voltar a funcionar ainda no segundo semestre de 2026. O espaço passa atualmente por obras de restauração e deverá se transformar no primeiro cinema público da capital potiguar.
O prédio, localizado na Rua São João de Deus, foi um dos cinemas de rua mais populares de Natal durante as décadas de 1960, 1970 e 1980. Com o desaparecimento gradual desse modelo de exibição cinematográfica na cidade, o espaço acabou fechado nos anos 1990 e posteriormente foi ocupado por um templo religioso antes de ser definitivamente desativado nos anos 2000.
Obras incluem acessibilidade e modernização estrutural
O processo de recuperação começou oficialmente em fevereiro de 2025, após o Governo do Rio Grande do Norte publicar decreto de utilidade pública para desapropriação do imóvel. A aquisição custou R$ 935 mil e foi financiada com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB).
Segundo a equipe técnica responsável pela obra, parte da estrutura interna já se encontra em estágio avançado de recuperação. Áreas administrativas receberam novo piso, revestimento cerâmico e acabamento de paredes, enquanto a plateia principal passou por intervenções estruturais.
O projeto também prevê instalação de elevador, adaptação para acessibilidade, modernização da rede elétrica, climatização, sonorização e sistema de combate a incêndio.
Além disso, cerca de 350 poltronas do antigo cinema deverão ser restauradas e adaptadas às normas atuais de acessibilidade.
Cidade perdeu todos os cinemas de rua
A história do Cine Panorama ajuda a explicar uma transformação urbana e cultural que atingiu praticamente todas as grandes cidades brasileiras nas últimas décadas.
Natal já teve diversos cinemas de rua espalhados pela capital. Mas, com o avanço dos shopping centers, mudanças no mercado audiovisual e novas formas de consumo de entretenimento, esses espaços desapareceram gradualmente da paisagem urbana.
Hoje, todas as salas de cinema em funcionamento na capital potiguar estão concentradas dentro de centros comerciais privados.
Isso alterou não apenas o modelo econômico do cinema, mas também sua relação com a cidade.
Os antigos cinemas de rua funcionavam como espaços de convivência comunitária, circulação cultural e ocupação urbana dos bairros. O desaparecimento desses equipamentos contribuiu para o esvaziamento cultural de determinadas regiões e para a concentração do acesso ao audiovisual em áreas de consumo privado.
Projeto tenta transformar cinema em equipamento cultural público
A proposta do governo estadual não é apenas restaurar um prédio histórico.
O objetivo é transformar o Cine Panorama em um espaço permanente de exibição cinematográfica, formação de público e fortalecimento do audiovisual potiguar.
Após a conclusão das obras, o governo pretende lançar edital de gestão compartilhada para definir a administração e a programação cultural do espaço.
A ministra da Cultura, Margareth Menezes, que visitou as obras ao lado da governadora Fátima Bezerra, afirmou que o projeto possui não apenas valor artístico e econômico, mas também forte relevância histórica para Natal.
Reabertura simboliza disputa pelo direito à cultura
A recuperação do Cine Panorama também expõe uma discussão maior sobre acesso cultural nas cidades brasileiras.
Em um cenário onde equipamentos culturais frequentemente dependem da lógica comercial dos shopping centers ou da concentração de investimentos privados, a criação de um cinema público representa tentativa de devolver parte da produção cultural ao espaço urbano coletivo.
Isso possui impacto direto sobre democratização do acesso ao cinema, fortalecimento da produção audiovisual local e revitalização simbólica de áreas historicamente esquecidas pelo desenvolvimento urbano.
Mais do que recuperar um prédio antigo, o projeto tenta recuperar uma ideia de cidade em que cultura não seja apenas produto de consumo, mas também espaço de convivência pública e memória coletiva.

