O mel produzido por abelhas sem ferrão em Alexandria, no Alto Oeste potiguar, conquistou o segundo lugar no Concurso de Méis do Congresso Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura (Conbrapi) 2026, realizado em Florianópolis, Santa Catarina.
A premiação foi concedida ao meliponicultor Anael Antônio Nunes da Costa, responsável pela produção do Mel de Jandaíra que representou o Rio Grande do Norte na disputa nacional.
Segundo os organizadores, as amostras passaram por avaliação baseada em critérios como autenticidade, pureza e análise sensorial.
Reconhecimento nacional amplia visibilidade do semiárido
Para Anael, o prêmio possui importância especial justamente por dar visibilidade a uma atividade que ainda enfrenta dificuldades de valorização comercial no mercado local.
“O prêmio mostra o quanto podemos chegar longe, quando se tem dedicação e quando gosta do que se faz”, afirmou o produtor.
O reconhecimento revela uma transformação importante da produção apícola no semiárido nordestino.
Durante décadas, parte significativa da economia do interior potiguar foi associada principalmente à seca, limitações climáticas e vulnerabilidade produtiva. Hoje, atividades ligadas à bioeconomia começam a reorganizar essa percepção ao transformar características ambientais do semiárido em diferencial competitivo.
Meliponicultura ganhou valor econômico estratégico
A produção de mel de abelhas sem ferrão deixou de funcionar apenas como atividade artesanal complementar e passou a ocupar espaço crescente dentro da chamada economia sustentável.
A meliponicultura possui características particularmente relevantes para regiões semiáridas porque depende menos de grandes estruturas industriais, pode ser integrada à agricultura familiar e mantém forte relação com preservação ambiental.
Além disso, produtos derivados de abelhas nativas possuem crescente valorização em nichos especializados do mercado alimentício devido às características sensoriais específicas e à associação com produção sustentável.
Isso ajuda a explicar por que concursos nacionais passaram a funcionar não apenas como vitrine simbólica, mas como mecanismo de inserção comercial e abertura de novos mercados para pequenos produtores regionais.
RN também recebeu reconhecimento científico
Além da premiação do mel, o Rio Grande do Norte também recebeu “Menção Honrosa Científica” no congresso pelo estudo “Meliponicultura como eixo propulsor da arborização urbana no semiárido: a experiência do projeto Arboriza Caicó em Caicó-RN”.
O trabalho foi produzido pelo meliponicultor Ycaro Kallyo Rangel Lopes, de Caicó.
A presença potiguar no evento também incluiu o lançamento da cartilha em formato de cordel “Carta do Gargalheira”, produzida pelo meliponicultor Pedro George de Brito, do município de Acari.
Esses elementos revelam algo maior:
a cadeia do mel no RN começa a articular produção econômica, pesquisa científica, preservação ambiental e identidade cultural regional dentro de um mesmo ecossistema produtivo.
Sebrae investe em qualificação da cadeia produtiva
Segundo a reportagem, Anael participou de capacitações promovidas pelo Sebrae/RN voltadas ao fortalecimento da cadeia produtiva do mel e à melhoria da qualidade dos derivados da meliponicultura.
O Sebrae também organizou uma comitiva com 50 produtores potiguares para participação no congresso nacional.
O analista técnico Nilson Dantas afirmou que o reconhecimento reforça a competitividade da produção potiguar.
“Esse reconhecimento mostra que o Rio Grande do Norte possui produtores altamente qualificados e produtos de excelência”, declarou.
Bioeconomia muda lógica do desenvolvimento regional
O caso do mel potiguar revela uma mudança mais profunda nas estratégias de desenvolvimento econômico do semiárido.
Historicamente, políticas públicas para o interior nordestino foram construídas quase sempre em torno da lógica do combate à seca. Agora, setores ligados à bioeconomia começam a inverter parcialmente essa lógica ao transformar biodiversidade, espécies nativas e adaptação climática em ativos econômicos.
Na prática, isso significa sair de uma visão baseada apenas na limitação ambiental para outra centrada em especialização produtiva regional.
Pequenos produtores disputam mercados de alto valor agregado
O crescimento da meliponicultura também mostra como pequenas cadeias produtivas rurais passaram a disputar nichos de mercado mais sofisticados e rentáveis.
Produtos ligados à origem territorial, sustentabilidade ambiental e produção artesanal qualificada possuem hoje maior potencial de valorização comercial do que commodities agrícolas tradicionais em determinados segmentos.
E justamente por depender menos de escala industrial massiva e mais de diferenciação de qualidade, esse modelo permite que pequenos produtores do semiárido consigam acessar mercados nacionais sem necessariamente competir apenas por volume de produção.

