Papa Leão XIV pede perdão histórico pelo papel da Igreja na escravidão

Foto: Getty Images

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O papa Leão XIV realizou nesta segunda-feira uma das declarações mais contundentes já feitas pelo Vaticano sobre o passado da Igreja Católica em relação à escravidão. Em sua primeira encíclica, intitulada Magnifica Humanitas, o pontífice reconheceu publicamente que a Igreja demorou séculos para condenar a escravidão e admitiu que antigos papas legitimaram mecanismos de subjugação colonial.

No texto, Leão XIV afirmou:

“Em nome da Igreja, peço sinceramente perdão.”

O papa classificou o episódio como uma “ferida na memória cristã” e declarou ser impossível ignorar o sofrimento imposto a milhões de pessoas escravizadas ao longo da expansão colonial europeia.

Documento reconhece participação institucional da Igreja

A encíclica rompe parcialmente uma tradição histórica de pedidos genéricos de desculpas sem reconhecimento explícito das estruturas institucionais envolvidas.

Leão XIV afirmou que, já no início da era moderna, a Sé Apostólica respondeu a pedidos de soberanos europeus regulando e legitimando formas de subjugação de povos considerados “infiéis”.

O texto faz referência indireta às bulas papais do século XV, especialmente documentos emitidos durante os pontificados de Nicolau V e outros papas que concederam respaldo religioso à expansão colonial portuguesa e espanhola.

Entre elas está a bula Dum Diversas, de 1452, que autorizava o rei de Portugal a “invadir, conquistar e subjugar” povos não cristãos, além de permitir escravidão perpétua.

Posteriormente, essas permissões foram reafirmadas por outros pontífices ao longo dos séculos seguintes.

Igreja demorou séculos para condenar escravidão

A encíclica reconhece também que a condenação oficial da escravidão pela Igreja ocorreu muito tarde em relação à dimensão histórica do tráfico transatlântico.

Segundo Leão XIV, o primeiro papa a condenar explicitamente a escravidão foi Leão XIII, apenas em 1888 — período em que diversos países já haviam abolido formalmente a prática.

O próprio Vaticano admite que instituições ligadas à Igreja chegaram a possuir pessoas escravizadas em diferentes momentos históricos.

Isso desmonta uma narrativa frequentemente utilizada por setores religiosos de que a escravidão teria sido apenas um desvio isolado da história política europeia.

Na prática, estruturas religiosas também participaram da legitimação moral do colonialismo atlântico.

Encíclica conecta escravidão colonial à exploração moderna

O documento, porém, não se limita ao passado.

Leão XIV relaciona diretamente o tráfico transatlântico de escravizados às novas formas de exploração contemporânea impulsionadas pela tecnologia, pela inteligência artificial e pelas cadeias globais de produção.

Segundo o papa, a Igreja precisa reconhecer erros históricos justamente para evitar repetir mecanismos modernos de desumanização.

A encíclica menciona:

O texto alerta que novas tecnologias podem reduzir seres humanos a estatísticas e ampliar formas de violência invisível dentro da economia global contemporânea.

Papa critica lógica econômica da desumanização

Leão XIV afirma que a exploração humana sempre esteve ligada a estruturas econômicas e políticas que transformam pessoas em instrumentos descartáveis de produção, guerra ou lucro.

Essa abordagem desloca o debate da culpa individual para uma crítica mais ampla das engrenagens institucionais que permitiram tanto a escravidão colonial quanto novas formas contemporâneas de exploração.

O papa afirma que:

Isso faz da encíclica não apenas um pedido de perdão histórico, mas também uma crítica ao próprio funcionamento do capitalismo tecnológico contemporâneo.

Documento expõe contradição histórica da Igreja

A declaração também evidencia uma tensão histórica permanente dentro do cristianismo institucional.

Ao longo dos séculos, a Igreja frequentemente apresentou defesa teológica da dignidade humana enquanto simultaneamente coexistia com:

Essa contradição não ocorreu apenas por omissão moral individual.

Ela esteve vinculada à relação estrutural entre religião, poder político e expansão econômica colonial.

O reconhecimento feito por Leão XIV possui impacto justamente porque admite parcialmente essa dimensão institucional do problema.

Pressão histórica por reconhecimento aumentou nas últimas décadas

O gesto do Vaticano também ocorre após décadas de pressão internacional de movimentos negros, historiadores, pesquisadores e católicos africanos e afrodescendentes que exigiam reconhecimento mais explícito da participação histórica da Igreja na escravidão atlântica.

Embora outros papas tenham pedido desculpas anteriormente pelo sofrimento causado durante o tráfico negreiro, nenhum havia reconhecido de maneira tão direta o papel de antigos pontífices na legitimação jurídica e religiosa da escravidão.

Leão XIV também possui ligação pessoal simbólica com o tema.

Segundo genealogistas citados pela reportagem, parte de seus ancestrais americanos incluía tanto pessoas escravizadas quanto proprietários de escravos.

Vaticano tenta reposicionar discurso moral da Igreja

A encíclica surge em um momento em que o Vaticano tenta reposicionar sua autoridade moral diante de um mundo marcado por:

Ao reconhecer erros históricos ligados à escravidão, Leão XIV tenta reforçar uma ideia central:
instituições religiosas não preservam autoridade moral negando seus próprios fracassos históricos.

Pelo contrário.

A legitimidade espiritual passa também pela capacidade de admitir cumplicidades institucionais com sistemas de violência.

E justamente porque o colonialismo escravista ajudou a moldar profundamente a formação econômica, racial e política do mundo moderno, o pedido de perdão feito pelo papa ultrapassa dimensão simbólica religiosa e reabre uma discussão global sobre memória histórica, responsabilidade institucional e as novas formas contemporâneas de exploração humana.

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