Queda nacional de homicídios esconde expansão das facções no Nordeste

Foto: Freepik

Publicidade

Brasil tem menor taxa de homicídios da série histórica, mas facções avançam no Norte e Nordeste

O Brasil registrou em 2024 a menor taxa de homicídios desde o início da série histórica do Atlas da Violência, iniciado em 2014. Segundo os dados divulgados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), foram contabilizados oficialmente 42.590 homicídios no país no ano passado, uma queda de 7,4% em relação ao levantamento anterior.

A taxa nacional caiu para 20,1 homicídios por 100 mil habitantes, consolidando uma redução gradual observada nos últimos anos. Em 2014, o índice era de 30,2 mortes por 100 mil habitantes.

Mas os próprios pesquisadores alertam que a redução nacional esconde uma transformação mais profunda e desigual da violência brasileira.

Porque enquanto parte do país registra desaceleração dos homicídios, Norte e Nordeste convivem com avanço territorial das facções criminosas e crescimento das disputas locais pelo controle do crime organizado.

Nordeste concentra parte dos estados mais violentos

O Atlas mostra que as maiores taxas de homicídios continuam concentradas principalmente no Norte e Nordeste.

Segundo o levantamento, estados como:

Além disso, 17 dos 20 municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes que registraram maiores índices de homicídio estão localizados no Nordeste.

Entre eles aparece Maranguape (CE), apontada como a cidade mais violenta do país entre municípios desse porte populacional.

O contraste regional é forte.

Enquanto as 20 cidades mais populosas com menores índices de violência estão concentradas exclusivamente no Sul e Sudeste, Norte e Nordeste concentram expansão territorial das facções e aumento das disputas armadas.

Crime organizado mudou estratégia no Brasil

Segundo os pesquisadores do Atlas, a violência atual está diretamente ligada ao processo de interiorização e nacionalização das facções criminosas brasileiras.

O pesquisador Daniel Cerqueira, do Ipea, afirma que organizações como:

Isso altera profundamente a lógica da violência.

Antes, grande parte das organizações criminosas atuava prioritariamente:

Agora, facções passaram a expandir presença:

Nordeste virou território estratégico das facções

A expansão do crime organizado no Nordeste possui razões geográficas, econômicas e logísticas.

Segundo os pesquisadores, estados nordestinos passaram a ocupar posição estratégica dentro:

O estudo cita o exemplo da Bahia, onde diferentes grupos criminosos disputam áreas urbanas e cidades do interior.

O pesquisador Daniel Cerqueira afirma que, em alguns locais, o PCC busca principalmente acesso logístico para exportação de drogas, enquanto facções locais disputam controle territorial através da violência armada.

Isso ajuda a explicar por que determinadas regiões registram explosões localizadas de homicídios mesmo em meio à queda nacional geral.

Queda nacional possui múltiplas causas

Os responsáveis pelo Atlas atribuem a redução geral dos homicídios a diferentes fatores combinados.

Entre eles:

Segundo os pesquisadores, o arrefecimento temporário da guerra aberta entre PCC e Comando Vermelho após disputas intensas entre 2016 e 2017 ajudou a reduzir parte dos assassinatos em alguns estados.

Mas isso não significa enfraquecimento do crime organizado.

Pelo contrário.

Em muitos casos, a redução dos homicídios ocorre justamente porque facções consolidadas passaram a exercer controle territorial mais estável sobre determinadas regiões.

Atlas aponta crescimento dos “homicídios ocultos”

O levantamento também identificou crescimento expressivo dos chamados “homicídios ocultos”.

Esses casos envolvem mortes violentas registradas oficialmente sem definição clara da causa final:

Segundo o Atlas, os homicídios ocultos cresceram 88,6% entre 2023 e 2024, saltando de 3.755 para 7.083 casos.

Os pesquisadores afirmam que isso revela problemas graves:

Na prática, parte dos homicídios pode simplesmente desaparecer das estatísticas oficiais.

Violência contra mulheres permanece elevada

O estudo também aponta queda de 27,7% nos homicídios de mulheres ao longo da última década.

Mas os pesquisadores alertam que a redução ocorre principalmente fora do ambiente doméstico.

Dentro das residências, os índices permanecem relativamente estáveis, revelando persistência da violência familiar e de gênero.

Segundo a diretora-executiva do FBSP, Samira Bueno, grande parte das agressões contra mulheres continua ocorrendo dentro do próprio núcleo familiar.

População negra segue concentrando maior parte das vítimas

O Atlas mostra ainda que pessoas negras continuam representando a maioria esmagadora das vítimas de homicídio no Brasil.

Em 2024:

O levantamento também aponta crescimento das notificações de violência contra pessoas LGBTQIA+, embora os pesquisadores ressaltem dificuldades históricas de subnotificação e invisibilidade institucional desses casos.

Violência brasileira entrou em nova fase

O Atlas da Violência revela que o Brasil atravessa uma transformação importante do próprio funcionamento da criminalidade.

O país deixou de enfrentar apenas violência urbana fragmentada e passou a conviver com organizações criminosas altamente estruturadas, territorializadas e nacionalizadas.

Isso produz um cenário paradoxal:
os homicídios caem nacionalmente, mas o poder das facções continua se expandindo em várias regiões estratégicas do país.

E justamente porque o crime organizado passou a disputar:

Sair da versão mobile