O tarifaço anunciado pelo governo de Donald Trump contra produtos brasileiros ainda nem entrou plenamente em vigor, mas os efeitos da deterioração da relação comercial entre Brasil e Estados Unidos já começam a aparecer nos números. No Rio Grande do Norte, as exportações para o mercado norte-americano sofreram uma queda abrupta e contribuíram para que o estado registrasse, em maio, seu primeiro déficit na balança comercial desde 2024.
Os dados divulgados pela Secretaria de Comércio Exterior mostram que o Rio Grande do Norte exportou US$ 37,9 milhões em maio, valor 50,8% inferior ao registrado no mesmo período do ano passado. No mesmo intervalo, as importações cresceram e alcançaram US$ 41,7 milhões, levando o estado a encerrar o mês com déficit de US$ 3,8 milhões.
O movimento mais expressivo ocorreu justamente na relação com os Estados Unidos. As compras americanas de produtos potiguares encolheram 87,2% em comparação com maio de 2025. Em termos absolutos, o mercado norte-americano deixou de adquirir cerca de US$ 26 milhões em mercadorias produzidas no estado.
O que é a Seção 301 e por que ela virou uma ameaça ao Brasil
A origem da nova crise comercial está em um mecanismo pouco conhecido fora dos círculos diplomáticos e empresariais: a Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos.
Criada para permitir que Washington investigue e puna práticas consideradas prejudiciais aos interesses econômicos norte-americanos, a ferramenta autoriza o governo dos EUA a impor tarifas adicionais, restrições comerciais e outras sanções contra países que, segundo a avaliação americana, criem barreiras consideradas injustas ao comércio.
Foi exatamente esse instrumento que sustentou a investigação aberta contra o Brasil. Após a conclusão do processo, autoridades americanas recomendaram a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros e ampliaram a pressão sobre temas que vão desde regras comerciais até políticas públicas brasileiras.
Por que o Nordeste está entre os mais expostos
Embora a medida seja nacional, o Nordeste aparece entre as regiões mais vulneráveis porque diversos setores dependem fortemente do mercado norte-americano. Estudos citados nos documentos apontam risco para segmentos como têxtil, confecções, rochas ornamentais, petroquímica e açúcar.
No caso do Rio Grande do Norte, a preocupação se concentra especialmente no agronegócio exportador. O estado possui forte presença na produção de frutas destinadas ao mercado internacional, especialmente melão e outras culturas voltadas para exportação. O próprio levantamento sobre os possíveis efeitos do tarifaço destaca o RN entre os estados que podem sofrer impactos em cadeias ligadas ao setor agrícola e alimentício.
Os números mostram que a dependência tem custo
Os Estados Unidos permaneceram durante décadas entre os principais compradores de produtos brasileiros. Quando um parceiro comercial desse porte utiliza tarifas como instrumento de pressão política, os efeitos ultrapassam a diplomacia e atingem diretamente empresas, produtores rurais, transportadoras, portos e empregos ligados ao comércio exterior.
O caso potiguar mostra isso de forma concreta. Enquanto as exportações para os EUA despencaram, outros mercados ampliaram participação. O Canadá assumiu a liderança entre os compradores de produtos do estado, seguido por países europeus e africanos.
Essa redistribuição ajuda a reduzir perdas, mas não acontece automaticamente. Relações comerciais levam anos para serem construídas, exigem logística específica, certificações, contratos e adaptação da produção. Uma ruptura abrupta com um mercado consolidado produz custos que não desaparecem apenas porque novos compradores aparecem.
Europa e Ásia surgem como alternativas
Em meio à escalada tarifária, exportadores passaram a observar com mais atenção mercados alternativos. O acordo entre Mercosul e União Europeia voltou ao centro das discussões porque pode abrir acesso facilitado a um bloco econômico de mais de 700 milhões de consumidores.
Além da Europa, países asiáticos e mercados do Oriente Médio aparecem como destinos capazes de absorver parte da produção brasileira. A própria expansão das exportações para a China tem ajudado a compensar parte da retração observada nas vendas para os Estados Unidos.
A disputa vai além das tarifas
A reação do governo brasileiro indica que a disputa está longe de ser apenas comercial. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que pretende buscar diálogo direto com Donald Trump e, paralelamente, ampliar a procura por novos parceiros econômicos caso Washington mantenha as restrições.
Por trás da discussão tarifária existe uma disputa mais ampla sobre influência econômica. O país que controla acesso ao seu mercado consumidor possui capacidade de pressionar governos estrangeiros sem recorrer a medidas militares ou diplomáticas tradicionais. A Seção 301 funciona exatamente como uma das principais ferramentas desse modelo de pressão.
O que acontece se a escalada continuar
O Rio Grande do Norte ainda mantém saldo positivo no acumulado do ano. Entre janeiro e maio, o estado exportou US$ 481,3 milhões e preserva superávit comercial de US$ 277,7 milhões.
O problema é que maio interrompeu uma sequência de resultados positivos e pode representar um sinal de alerta para os próximos meses. Se as barreiras comerciais forem ampliadas e a retração das compras americanas persistir, setores exportadores potiguares poderão enfrentar dificuldades para manter receitas, investimentos e postos de trabalho.
A discussão, portanto, deixou de ser apenas sobre diplomacia entre Brasília e Washington. Os números mostram que ela já chegou à economia real — e o Rio Grande do Norte está entre os primeiros lugares onde seus efeitos começaram a aparecer.

