Documentário dá voz a moradores e reacende debate sobre impactos da engorda de Ponta Negra

Foto: Canindé Soares

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A obra de engorda da Praia de Ponta Negra foi apresentada como uma solução para conter o avanço do mar e ampliar a faixa de areia de um dos principais cartões-postais do Rio Grande do Norte. Meses após a conclusão da intervenção, porém, o debate sobre seus efeitos continua longe do fim. É justamente essa discussão que chega ao centro de um novo documentário produzido por pesquisadores e extensionistas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Intitulado “Maré Cheia: entre rendas, redes e resistência”, o filme será exibido na próxima quarta-feira (10), na Biblioteca Central Zila Mamede, da UFRN. A proposta é reunir diferentes perspectivas sobre as transformações ocorridas na orla de Ponta Negra após a obra de engorda, incluindo depoimentos de moradores da Vila de Ponta Negra, pescadores artesanais, rendeiras, pesquisadores e representantes de órgãos públicos.

Quando a obra termina, o debate começa

Grandes intervenções urbanas costumam ser avaliadas por indicadores técnicos: quantidade de areia movimentada, extensão da área recuperada ou redução dos riscos de erosão. O documentário parte de outro ponto de vista.

A produção busca registrar como as mudanças foram percebidas por quem vive diariamente no território afetado. Em vez de discutir apenas engenharia costeira, o filme explora as alterações na rotina de comunidades tradicionais ligadas à pesca artesanal, ao artesanato e às atividades desenvolvidas na praia.

O foco está nas experiências de quem acompanha a transformação da paisagem não como visitante, mas como parte da própria história do lugar.

Moradores, pesquisadores e órgãos públicos dividem espaço

Entre os entrevistados aparecem nomes ligados a diferentes setores envolvidos no debate sobre o futuro da praia.

Participam do documentário a rendeira da Vila de Ponta Negra Maria Helena, a pescadora artesanal Núbia Peixoto, o geólogo Venerando Amaro, além do procurador da República Camões Boaventura. Também foram ouvidos outros atores sociais que participaram das discussões relacionadas às intervenções na orla.

A proposta não é apresentar uma única interpretação sobre a obra, mas reunir visões que nem sempre aparecem juntas nos debates públicos sobre urbanização, turismo e meio ambiente.

O que mudou em Ponta Negra

A engorda da Praia de Ponta Negra foi concluída no início de 2025 com o objetivo de ampliar a faixa de areia e reduzir os efeitos da erosão costeira, especialmente na região do Morro do Careca.

Segundo informações citadas na reportagem que divulgou o documentário, a Secretaria Municipal de Infraestrutura afirma que aproximadamente 94% da areia depositada ao longo dos 4,6 quilômetros da praia permanece na área após a execução da obra. Parte do material teria sido redistribuída naturalmente entre diferentes trechos da faixa de areia e áreas submersas.

A discussão ganhou novos capítulos após estudos apontarem alterações na configuração da praia e na distribuição dos sedimentos ao longo da orla.

Mais do que areia, o filme discute território

O aspecto mais interessante da produção é que ela desloca a discussão do campo exclusivamente técnico.

A pergunta central não é apenas se a obra funcionou do ponto de vista da engenharia. A questão levantada pelo documentário é como uma intervenção urbana dessa dimensão altera relações sociais, formas tradicionais de trabalho e a percepção que moradores têm do espaço onde vivem.

Esse tipo de abordagem amplia um debate que costuma ficar restrito a laudos, pareceres e disputas administrativas. Ao colocar moradores no centro da narrativa, o filme transforma a praia em algo além de um ativo turístico: ela passa a ser vista como território, memória e meio de subsistência para parte da população local.

Exibição será seguida de debate

Após a apresentação, os organizadores promoverão uma roda de conversa aberta ao público. A ideia é ampliar a discussão sobre os impactos sociais, ambientais e urbanos relacionados às mudanças ocorridas em Ponta Negra.

Mais do que documentar uma obra pública, Maré Cheia registra uma disputa que continua em andamento: quem define o futuro de um dos espaços mais emblemáticos de Natal e quais vozes são consideradas quando esse futuro começa a ser construído.

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