Os sinais estavam lá…

Adolf Hitler recebe os cumprimento de autoridades católicas na Alemanha nazista. Foto: Wikicommons

Quando a Segunda Guerra Mundial terminou e o mundo se deparou com o saldo nefasto do conflito, a busca por culpados foi um processo natural. Porém, mais do que isso, diante dos números absurdos e dos atos inomináveis praticados contra a vida humana, todos procuravam por “supervilões” — isto é, por um tipo diferente de indivíduo: seres supostamente distintos, desumanizados, capazes de cometer tais atrocidades. Contudo, acabaram encontrando o próprio reflexo da humanidade.

A verdade é que, diante da monstruosidade nazista e de todos os fatos gritantes que surgiram durante sua ascensão, o mundo da época decidiu se calar — até que fosse tarde demais. A sociedade civil alemã fechou os olhos para continuar desfrutando do chamado “milagre econômico” hitlerista; as grandes potências fizeram-se de desentendidas, não apenas em razão do antissemitismo que contaminava suas próprias sociedades e instituições políticas, mas também por vislumbrarem oportunidades de negócios com a pujante indústria alemã (movida, em larga medida, pelo trabalho escravo judeu); o Vaticano, sob a justificativa de proteger seus fiéis alemães, não apenas se mostrou surdo ao clamor das vítimas que não pertenciam às suas fileiras (como judeus, ciganos, testemunhas de Jeová, comunistas e homossexuais), mas também se tornou o primeiro Estado do mundo a reconhecer oficialmente o governo de Hitler, ainda em 1933; e a Igreja Protestante alemã, além de fornecer parte significativa dos fundamentos antissemitas posteriormente absorvidos pelo nazismo (presentes nos escritos de Lutero, Calvino, Melanchthon e Zwingli), acolheu e chancelou a chamada “Igreja Nacional do Reich” — uma aberração sem precedentes na história do cristianismo. A soma dessas escolhas, individuais e coletivas, compôs o maior horror da trajetória humana na Terra.

Vala com cadáveres no campo de Bergen-Balsen, em abril de 1945. Foto: akg-images/picture-alliance

A história demonstra que, em todos os casos supracitados, faltaram não apenas posicionamento e tomada de decisão em tempo oportuno, mas também a determinação de enxergar os sinais que anunciavam a tragédia. Não se tratou de uma “cegueira generalizada”, mas de consciências que escolheram não ver. Isso me lembra as palavras de Jesus dirigidas aos fariseus:

“Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas, como agora dizeis: ‘Nós vemos’, o vosso pecado permanece” (João 9:41).

Em nossos dias, temos assistido à preocupante repetição de padrões há muito conhecidos desde a ascensão do nazismo, sem que haja o devido olhar capaz de anteceder ações corretivas. O mundo observa, com preocupante tolerância, Donald Trump desumanizar imigrantes ao chamá-los de “aliens” e “animais”, separar famílias e encarcerar até mesmo crianças em centros de detenção (muitas vezes à margem das garantias fundamentais do devido processo legal), em operações conduzidas por agentes que em muito lembram a Gestapo de Hitler. Da mesma forma, países soberanos continuam sendo bombardeados, invadidos e saqueados em seus recursos naturais, ao custo de milhares de vidas — tal e qual foi feito nos dias da expansão nazista. Tudo isso ocorrendo sob a vontade de um único líder marcado pelo narcisismo político, pelo carisma de massas e por projetos de poder megalomaníacos.

Crianças imigrantes enjauladas no Centro de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (Nogales, Arizona). Foto: Ross D. Franklin

Não, amigos. Qualquer semelhança com o passado está longe de ser mera coincidência. O filósofo e historiador britânico R. G. Collingwood formulou uma observação particularmente esclarecedora nesse sentido:

“O único indício do que o homem é capaz de fazer é aquilo que o homem já fez.”

Estamos testando os limites da memória histórica por meio de uma passividade cada vez mais condescendente. Afinal, como a própria história demonstra, a escolha pela inação também produz consequências. E digo isso não apenas em relação ao presidente norte-americano, mas estendendo a todos os líderes extremistas que reproduzem métodos semelhantes, espalhando pelo mundo discursos de intolerância, exclusão e radicalização.

O resultado não tem sido apenas a polarização crescente que observamos em praticamente todos os campos da vida cotidiana, mas também a ampliação progressiva dos limites daquilo que uma sociedade passa a considerar aceitável. E, quando o intolerável deixa de provocar indignação, a história já nos ensinou (mais de uma vez…) o preço que costuma ser cobrado. O nazismo não nasceu nem foi implantado em um único dia. Tampouco veio carregando uma placa que o identificasse como o mal absoluto que posteriormente provaria ser. Ainda assim, os sinais sempre estiveram lá, em maior ou menor grau, para todos aqueles que escolheram enxergá-los.

Talvez alguns leitores questionem a pertinência da temática até aqui abordada, ainda mais em uma coluna dominical cristã. Porém, é a própria Bíblia que nos alerta e cobra, dizendo:

“Deus não nos deu o espírito de medo, mas de poder, e de amor, e de uma mente sã.” (2.ª Timóteo 1:7)

É esse mesmo Espírito, habitando em nós, que nos conclama a tomar posição e a rejeitar o silêncio que destrói inocentes. Pois a Bíblia não foi composta por profetas mudos diante das injustiças. Muito pelo contrário: tais homens foram levantados por Deus para denunciá-las e conclamar o povo ao despertamento. E isso é especialmente pertinente, uma vez que temos visto a própria religiosidade sendo utilizada para legitimar projetos de poder espúrios e homicidas.

Sendo assim, caso os cristãos não sejam os primeiros a levantar o alerta, em que estaríamos sendo diferentes daqueles que, podendo e devendo agir, escolheram silenciar ao custo de milhões de vidas? Não estaríamos.

A hora em que o joio será separado do trigo já chegou. Não nos acovardemos nem sejamos omissos, pois teremos nas mãos o sangue de muitos se assim procedermos. É necessário que o mal seja apontado e desmascarado em suas obras, e essa responsabilidade cabe àqueles que enxergam. Lembremos das palavras do apóstolo:

“Portanto, aquele que sabe fazer o bem e não o faz comete pecado.” (Tiago 4:17)

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