A polarização política brasileira costuma ser apresentada como um conflito de ideias. Mas uma pesquisa liderada pela Universidade de Oxford sugere que a divisão que domina o debate público talvez seja alimentada por algo ainda mais básico: a incapacidade de compreender corretamente o que o outro lado realmente pensa.
O estudo, realizado com milhares de brasileiros ao longo de cinco etapas entre 2022 e 2023, concluiu que eleitores de Lula e Bolsonaro tendem a imaginar seus adversários como muito mais radicais do que de fato são. E quando essa percepção distorcida é corrigida, a rejeição entre os grupos diminui de forma mensurável.
A descoberta desafia uma narrativa repetida há anos no debate político brasileiro. O senso comum sugere que o país está dividido porque as pessoas discordam cada vez mais sobre questões fundamentais. A pesquisa aponta outra direção. Em muitos casos, a divergência real é menor do que a divergência imaginada. O problema não estaria apenas nas opiniões políticas, mas nas versões exageradas que cada grupo constrói sobre o adversário.
Cada lado imagina um adversário mais radical do que ele realmente é
Durante a pesquisa, os entrevistados foram convidados a estimar as posições defendidas pelo grupo político oposto em temas específicos.
Os resultados revelaram distorções impressionantes.
Bolsonaristas acreditavam que mais de 80% dos eleitores de Lula defendiam a legalização do aborto no primeiro trimestre da gestação. O percentual real encontrado pelos pesquisadores era de aproximadamente 46%. Do outro lado, eleitores petistas imaginavam que apenas cerca de um quarto dos bolsonaristas apoiava políticas de cotas para estudantes de baixa renda nas universidades. O apoio real se aproximava de 80%.
Os números mostram que a rejeição política não é construída apenas por diferenças ideológicas. Ela também nasce de percepções equivocadas sobre quem está do outro lado da disputa. Quanto mais extrema parece a imagem do adversário, mais fácil se torna justificar a antipatia e a hostilidade.
A polarização que mais cresce não é ideológica
A pesquisa trabalha com um conceito conhecido como “polarização afetiva”.
A expressão descreve uma situação em que as pessoas passam a rejeitar indivíduos de outro grupo político não necessariamente por discordarem de suas propostas, mas simplesmente porque pertencem ao grupo rival. Nesse cenário, a política deixa de funcionar como debate de ideias e passa a operar como identidade social. A filiação política assume papel semelhante ao de uma torcida organizada.
Os pesquisadores observam que esse fenômeno se tornou particularmente forte nas últimas décadas. Em muitos casos, cidadãos não apenas discordam dos adversários. Eles deixam de confiar neles, evitam interações sociais e passam a atribuir características negativas ao grupo oposto. A consequência é a erosão gradual da capacidade de convivência política dentro da própria democracia.
A solução encontrada foi surpreendentemente simples
O aspecto mais interessante do estudo não está no diagnóstico, mas no experimento realizado pelos pesquisadores.
Após pedir que os participantes estimassem as posições do grupo adversário, os pesquisadores mostravam os números reais coletados na própria pesquisa. Ou seja, confrontavam os entrevistados com a distância entre aquilo que imaginavam e aquilo que os adversários realmente pensavam.
O resultado foi imediato.
Quando os participantes descobriam que o outro grupo era menos radical do que imaginavam, a rejeição diminuía. Eles não passavam a concordar com os adversários nem mudavam suas próprias posições políticas. Apenas passavam a enxergá-los de maneira menos hostil.
Esse detalhe é fundamental porque demonstra que reduzir a polarização não exige necessariamente convencer alguém a abandonar suas convicções. Em muitos casos, basta corrigir percepções falsas sobre quem pensa diferente.
As redes sociais ajudam a fabricar caricaturas
A pesquisa não atribui a polarização exclusivamente às redes sociais, mas aponta que elas podem intensificar o problema.
Plataformas digitais recompensam conteúdos capazes de provocar reações emocionais fortes. Isso favorece a circulação de exemplos extremos, declarações polêmicas e personagens que representam versões caricatas de cada campo político. Com o tempo, essas exceções passam a ser percebidas como se fossem a regra.
O resultado é um ciclo de retroalimentação. Cada grupo passa a consumir principalmente os exemplos mais radicais do adversário e utiliza esses casos para definir a imagem do conjunto inteiro. A consequência é uma percepção distorcida que amplia a sensação de ameaça e reduz a disposição para o diálogo.
A eleição de 2026 pode aprofundar o fenômeno
Os pesquisadores alertam que disputas presidenciais costumam funcionar como aceleradores da polarização afetiva. O motivo é simples. Campanhas eleitorais não disputam apenas votos. Elas disputam emoções, identidades e sentimentos de pertencimento. Quanto mais acirrada a eleição, maior a tentação de transformar adversários em inimigos.
O Brasil caminha para mais uma eleição presidencial marcada pela possibilidade de um confronto entre campos políticos que dominam a cena nacional há quase uma década. Nesse ambiente, a tendência natural é que campanhas, influenciadores, militantes e veículos partidários ampliem diferenças para mobilizar apoiadores. O problema é que esse processo produz ganhos eleitorais de curto prazo e custos democráticos de longo prazo.
O estudo revela um problema maior que Lula e Bolsonaro
A pesquisa de Oxford não é apenas sobre lulistas e bolsonaristas.
Ela revela um mecanismo que ajuda a explicar por que democracias contemporâneas enfrentam níveis elevados de tensão política. A rejeição entre grupos frequentemente cresce mais rápido do que as diferenças reais entre suas posições. O conflito deixa de ser alimentado apenas por ideias e passa a ser alimentado por percepções erradas sobre quem defende essas ideias.
Essa constatação possui uma consequência institucional relevante. Se a polarização é parcialmente construída por caricaturas, então a qualidade da informação passa a desempenhar papel central na saúde democrática. Quanto mais as pessoas conhecem apenas versões distorcidas dos adversários, maior tende a ser a rejeição política. Quanto mais conhecem suas posições reais, menor se torna o espaço para a demonização.
O que a pesquisa realmente descobriu
A principal conclusão do estudo não é que o Brasil está menos dividido do que parece.
O país continua profundamente polarizado.
A descoberta é outra.
Grande parte dessa polarização é alimentada por erros de percepção. Os brasileiros não apenas discordam uns dos outros. Eles frequentemente discordam de versões imaginárias dos seus adversários. E quando essas caricaturas são confrontadas com a realidade, parte da hostilidade desaparece.
Em uma época em que algoritmos premiam indignação e campanhas eleitorais dependem de mobilização emocional, talvez essa seja uma das conclusões mais incômodas da pesquisa: o adversário político que muitos brasileiros odeiam pode não existir exatamente da forma como imaginam.

