A decisão do Conselho Federal de Nutrição (CFN) de ampliar as restrições à divulgação de imagens, exames e resultados de pacientes nas redes sociais provocou uma reação imediata entre nutricionistas de todo o país. O debate, porém, vai muito além das famosas fotos de “antes e depois” que dominam plataformas como Instagram, TikTok e Facebook. O que está em disputa é uma questão mais profunda: quem terá legitimidade para construir autoridade profissional em uma era em que a saúde se transformou também em conteúdo digital.
O novo Código de Ética passou a proibir a divulgação de resultados de pacientes em formatos que incluam fotografias corporais, informações sobre composição corporal, exames laboratoriais e outros indicadores clínicos que possam ser interpretados como demonstração de eficácia profissional. A regra amplia restrições que já existiam desde 2018 e gerou forte resistência entre parte da categoria, que argumenta que a medida limita a capacidade de demonstrar resultados reais do trabalho realizado.
A reação é compreensível. Durante a última década, as redes sociais deixaram de ser apenas espaços de divulgação profissional e se tornaram um dos principais mecanismos de captação de clientes na área da saúde. Em muitos casos, a autoridade de um profissional passou a ser construída menos por artigos científicos, experiência clínica ou produção acadêmica e mais pela capacidade de produzir conteúdo visual capaz de gerar engajamento.
O “antes e depois” virou moeda de credibilidade
A popularização das redes sociais alterou profundamente a forma como profissionais da saúde se apresentam ao público.
Durante décadas, médicos, nutricionistas, psicólogos e fisioterapeutas construíam reputação principalmente por indicação de pacientes, atuação institucional ou reconhecimento acadêmico. A lógica das plataformas digitais mudou esse processo. Hoje, imagens de transformação física frequentemente funcionam como prova social instantânea, criando a percepção de eficácia muito antes que o público tenha acesso à qualidade técnica do profissional.
O problema é que essa lógica possui limitações evidentes.
Uma fotografia não revela contexto clínico, genética, adesão ao tratamento, histórico do paciente nem fatores externos que influenciam o resultado. Ela apresenta apenas o desfecho visual. E é justamente essa simplificação que preocupa o Conselho Federal de Nutrição. Segundo a entidade, esse tipo de conteúdo pode estimular expectativas irreais e contribuir para problemas relacionados à saúde mental, especialmente entre adolescentes e pessoas vulneráveis a transtornos alimentares.
A polêmica não é apenas sobre estética
Embora as imagens corporais estejam no centro do debate, a controvérsia alcança questões mais amplas.
Diversos nutricionistas afirmam que a nova redação também dificulta a divulgação de melhorias clínicas demonstradas por exames laboratoriais. Pela interpretação de parte dos profissionais, a norma pode impedir que sejam apresentados resultados relacionados à redução da glicemia, melhora de marcadores metabólicos ou recuperação de parâmetros de saúde que normalmente seriam utilizados como exemplos educativos do impacto da intervenção nutricional.
Esse ponto é particularmente sensível porque desloca a discussão da estética para a saúde baseada em evidências. Para os críticos da norma, existe diferença entre explorar visualmente transformações corporais para fins promocionais e apresentar indicadores clínicos como ferramenta educacional. O receio é que a proibição ampla acabe limitando conteúdos que poderiam ajudar a população a compreender melhor o papel da nutrição na prevenção e no tratamento de doenças.
O combate à desinformação entrou no centro da disputa
Outro ponto que gerou forte reação foi a manutenção da proibição de críticas públicas à conduta de outros profissionais da área.
A preocupação de parte dos nutricionistas é que a regra produza um efeito colateral inesperado: dificultar o enfrentamento público de informações falsas sobre alimentação, emagrecimento e saúde divulgadas por profissionais ou influenciadores digitais. Em um ambiente onde dietas extremas, promessas milagrosas e conteúdos sem respaldo científico alcançam milhões de visualizações, muitos argumentam que o silêncio pode favorecer justamente quem mais contribui para a desinformação.
O CFN sustenta que o objetivo da norma é preservar a ética profissional e evitar conflitos públicos entre colegas. Os críticos respondem que a realidade digital tornou a desinformação um problema grande demais para ser enfrentado apenas por canais institucionais.
A verdadeira disputa é sobre autoridade
Por trás de cada argumento existe uma transformação mais profunda.
A internet dissolveu antigos filtros de credibilidade. Hoje, um nutricionista com décadas de experiência disputa atenção com influenciadores sem formação técnica, celebridades, coaches e produtores de conteúdo capazes de alcançar audiências gigantescas. Nesse ambiente, a autoridade científica já não se impõe automaticamente.
Ela precisa competir.
É justamente por isso que as redes sociais se tornaram tão estratégicas para profissionais da saúde. Não são apenas ferramentas de divulgação. São mecanismos de sobrevivência em um mercado onde visibilidade frequentemente determina quem será ouvido.
A decisão do CFN tenta responder a esse cenário impondo limites éticos para a construção dessa visibilidade. A resistência surge porque muitos profissionais enxergam nesses limites uma redução de sua capacidade de competir no ambiente digital.
O Conselho tenta frear uma lógica que domina as plataformas
O debate revela uma tensão cada vez mais presente em diversas profissões da saúde.
De um lado está a lógica das plataformas digitais, que recompensa imagens impactantes, resultados rápidos e narrativas simplificadas. Do outro está a lógica científica, que trabalha com individualidade biológica, variáveis múltiplas e resultados que nem sempre cabem em uma postagem de poucos segundos.
O novo código representa uma tentativa de aproximar a comunicação profissional da segunda lógica. A questão é que as redes sociais foram construídas para favorecer a primeira.
É exatamente aí que nasce o conflito.
A discussão está longe do fim
O próprio Conselho Federal de Nutrição abriu espaço para receber manifestações da categoria e admite revisar pontos específicos da norma após avaliar as contribuições recebidas. Ao mesmo tempo, a entidade afirma que o código permanecerá em vigor e que sua revogação não está em discussão.
A controvérsia dificilmente terminará com ajustes pontuais na redação.
O que está sendo discutido não é apenas uma regra profissional. É o equilíbrio entre ética, marketing, liberdade de comunicação e proteção do paciente em um ambiente digital onde a aparência frequentemente vale mais do que a evidência.
A disputa sobre o “antes e depois” é apenas o sintoma visível. O debate real envolve quem terá o poder de definir como a ciência da nutrição será apresentada ao público em uma economia cada vez mais guiada pela lógica dos algoritmos.

