Estudo aponta que mexilhões confundem alimento com plástico e podem levar contaminantes aos humanos

Foto: Ricardo Dangelo

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Uma pesquisa conduzida por cientistas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) acendeu um alerta sobre a presença crescente de microplásticos nos ecossistemas marinhos e seus possíveis impactos sobre a alimentação humana. O estudo concluiu que mexilhões não conseguem distinguir partículas naturais de alimento de fragmentos microscópicos de plástico presentes na água. Como consequência, esses organismos podem acumular contaminantes e transportá-los ao longo da cadeia alimentar até chegar aos consumidores humanos.

O resultado amplia uma preocupação que já vinha sendo observada por pesquisadores em diferentes partes do mundo. Os mexilhões ocupam uma posição estratégica nos ambientes costeiros porque se alimentam filtrando grandes volumes de água. Esse mecanismo, que normalmente permite a captura de microalgas e outras partículas nutritivas, também faz com que os moluscos absorvam elementos indesejados quando o ambiente está contaminado por resíduos plásticos.

Experimento simulou condições encontradas no mar

Para avaliar o comportamento dos animais, os pesquisadores coletaram exemplares da espécie conhecida como mexilhão marrom (Perna perna) na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro. Em laboratório, os organismos foram submetidos a diferentes condições experimentais que simulavam a presença de alimento natural, microplásticos e uma combinação dos dois elementos.

Os resultados mostraram que os mexilhões consumiram as partículas de maneira indiscriminada. Segundo a pesquisa, eles não apresentaram capacidade de diferenciar o que era alimento do que era plástico. Nos tanques que continham a mistura dos dois materiais, menos da metade das microesferas plásticas permaneceu na água após o período de observação, indicando que grande parte delas havia sido filtrada pelos organismos.

Essa constatação é particularmente preocupante porque o comportamento observado não parece ser uma característica restrita ao grupo analisado no experimento. De acordo com os pesquisadores, trata-se de um padrão relacionado ao próprio mecanismo de alimentação da espécie, o que sugere que o fenômeno pode ocorrer em diferentes áreas costeiras onde esses moluscos são encontrados.

O problema vai além do plástico

Embora os microplásticos sejam o foco principal da pesquisa, os cientistas destacam que a preocupação não se limita ao material plástico em si. Essas partículas funcionam como superfícies capazes de concentrar diversos contaminantes presentes no ambiente aquático. Metais pesados, compostos químicos e outros poluentes podem aderir aos fragmentos e ser transportados juntamente com eles.

Isso significa que os mexilhões não acumulam apenas plástico. Eles podem acumular também substâncias associadas a esse plástico. Quando esses organismos entram na alimentação humana, cria-se uma rota potencial de exposição a contaminantes que originalmente estavam dispersos no ambiente marinho.

Cozinhar não elimina todos os riscos

Outro aspecto destacado pelos pesquisadores é que o preparo dos alimentos não resolve necessariamente o problema. Enquanto microrganismos patogênicos e alguns parasitas podem ser eliminados pelo cozimento adequado, o mesmo não ocorre com microplásticos, metais ou contaminantes químicos associados a essas partículas.

Segundo a pesquisa, a exposição também depende da frequência de consumo. Pessoas que consomem frutos do mar ocasionalmente tendem a estar menos expostas do que aquelas que fazem desses alimentos uma parte frequente da dieta. Ainda assim, os pesquisadores ressaltam que o fenômeno merece atenção porque a presença dos microplásticos nos ambientes aquáticos vem aumentando de forma contínua.

Microplásticos já aparecem em diferentes espécies

O estudo sobre mexilhões não surge isoladamente. Nos últimos anos, pesquisas realizadas no Brasil e em outros países passaram a identificar microplásticos em peixes, crustáceos, aves marinhas e diversos organismos aquáticos. A própria Agência Brasil noticiou recentemente a presença dessas partículas em 93% de uma amostra de peixes analisados no litoral do Paraná.

A repetição dessas descobertas sugere que a contaminação por microplásticos deixou de ser um problema localizado e passou a integrar o cotidiano dos ecossistemas aquáticos. À medida que esses resíduos se fragmentam e se espalham pelos rios, mares e oceanos, aumenta também a possibilidade de incorporação à cadeia alimentar.

A poluição plástica volta para quem a produz

Os microplásticos são fragmentos extremamente pequenos originados da degradação de materiais plásticos maiores. Embalagens, garrafas, pneus, tecidos sintéticos e diversos produtos descartados no ambiente sofrem desgaste ao longo do tempo e acabam se transformando em partículas quase invisíveis. Essas partículas permanecem circulando na água, no solo e até no ar.

O estudo da Unirio reforça uma conclusão cada vez mais presente nas pesquisas ambientais: a poluição plástica não permanece restrita aos locais onde é descartada. Ela percorre ecossistemas inteiros, alcança organismos marinhos e retorna aos seres humanos por diferentes caminhos. Os mexilhões analisados pelos pesquisadores funcionam como um lembrete de que os resíduos produzidos pela sociedade não desaparecem quando deixam de estar visíveis. Em muitos casos, eles apenas mudam de forma e encontram novas maneiras de voltar ao nosso cotidiano.

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