Nordeste amplia exportações de carne bovina em 51% e ganha espaço no mercado externo

Foto: Freepik

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O Nordeste registrou um dos maiores avanços do país nas exportações de carne bovina durante o primeiro trimestre de 2026. Entre janeiro e março, os embarques da região cresceram 51,38% em comparação com o mesmo período do ano anterior, alcançando 9,4 mil toneladas exportadas. O resultado colocou o Nordeste muito acima da média nacional, que apresentou expansão de 17% no período, reforçando uma transformação que vem alterando o perfil da pecuária regional nos últimos anos.

O desempenho chama atenção porque ocorre em uma região que historicamente não figurava entre os principais polos exportadores da carne bovina brasileira. Tradicionalmente concentrada em estados do Centro-Oeste e do Sul, a atividade exportadora começa a ganhar novos contornos à medida que produtores nordestinos incorporam tecnologias de manejo, ampliam a produtividade e conquistam habilitações sanitárias que permitem acesso a mercados internacionais mais exigentes.

Mudança vai além do aumento das exportações

O crescimento das vendas externas ocorreu acompanhado pela expansão da própria atividade pecuária na região. Segundo levantamento analisado pelo Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (Etene), área vinculada ao Banco do Nordeste (BNB), o abate de bovinos no Nordeste aumentou 2,96% em relação ao ano anterior. O dado indica que o avanço das exportações não resulta apenas de uma conjuntura favorável do comércio exterior, mas também de mudanças na capacidade produtiva regional.

Entre os fatores apontados para esse desempenho estão a ampliação dos sistemas semi-intensivos e intensivos de criação, o maior uso de tecnologia nas propriedades rurais e a integração da pecuária com regiões produtoras de grãos. Essa combinação tem permitido ganhos de produtividade e redução de custos, tornando a carne produzida no Nordeste mais competitiva tanto no mercado interno quanto nas exportações.

Estados lideram expansão das vendas externas

O avanço regional não ocorreu de forma homogênea. Alguns estados apresentaram crescimento muito acima da média nordestina. Pernambuco registrou expansão de 124% nas exportações de carne bovina, seguido pela Bahia, com aumento de 65%. Ceará e Maranhão também apresentaram resultados expressivos, com crescimento de 42% e 30%, respectivamente.

Segundo o Etene, parte desse desempenho está relacionada à habilitação de frigoríficos para atuação no mercado internacional e à melhoria dos padrões sanitários exigidos pelos países importadores. A ampliação do número de plantas autorizadas a exportar aumentou a capacidade da região de acessar novos mercados e diversificar destinos para sua produção.

Setor vive fase de transição no país

Apesar do crescimento observado nas exportações, o estudo aponta que a cadeia da carne bovina atravessa um momento de transição em escala nacional. Desde 2025, o setor vem enfrentando um movimento de reversão do ciclo pecuário, caracterizado pela retenção de fêmeas para reprodução e pela redução gradual da oferta de animais destinados ao abate. Esse processo tende a pressionar os preços do boi gordo e dos animais de reposição, alterando a dinâmica do mercado nos próximos anos.

Na prática, isso significa que o forte desempenho exportador ocorre em um cenário de mudanças estruturais dentro da própria pecuária brasileira. O aumento da demanda internacional convive com perspectivas de oferta mais restrita, criando desafios para produtores, frigoríficos e exportadores.

Mercado externo ainda impõe obstáculos

O estudo também alerta que o ambiente internacional permanece marcado por incertezas. Conflitos geopolíticos, gargalos logísticos e a adoção de tarifas ou cotas por países importadores continuam representando riscos para a expansão das exportações brasileiras. Por essa razão, especialistas defendem a diversificação de mercados e a agregação de valor aos produtos como estratégias para reduzir a dependência de poucos compradores e aumentar a competitividade da carne brasileira.

A avaliação reforça que o crescimento registrado neste início de ano não garante, por si só, uma trajetória contínua de expansão. A manutenção do desempenho dependerá da capacidade do setor de responder às exigências sanitárias internacionais, ampliar sua presença em novos mercados e adaptar-se às mudanças do ciclo pecuário.

Investimentos ajudam a explicar o avanço regional

Outro fator apontado como decisivo para o fortalecimento da bovinocultura nordestina é o aumento dos investimentos no setor. Dados do Banco do Nordeste mostram que, entre 2020 e março de 2026, foram aplicados quase R$ 26 bilhões na pecuária de corte por meio de recursos do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE). Somente em 2025, os investimentos alcançaram cerca de R$ 6 bilhões, dos quais 61% foram destinados ao Semiárido.

Esses recursos ajudaram a financiar melhorias em infraestrutura, genética, alimentação animal e modernização das propriedades rurais. O resultado é uma pecuária cada vez mais integrada aos mercados nacionais e internacionais, capaz de transformar uma atividade historicamente associada à subsistência em uma cadeia produtiva voltada para exportação.

Nordeste amplia participação em um mercado estratégico

O crescimento de 51% nas exportações de carne bovina revela mais do que um resultado positivo de curto prazo. Ele indica uma mudança gradual na geografia econômica da pecuária brasileira. À medida que frigoríficos ampliam sua capacidade exportadora e produtores incorporam novas tecnologias, o Nordeste passa a disputar espaço em um mercado historicamente dominado por outras regiões do país.

A continuidade desse movimento dependerá da manutenção dos investimentos, da ampliação das condições sanitárias exigidas pelo comércio internacional e da capacidade de enfrentar um ambiente global cada vez mais competitivo. Se essas condições forem mantidas, a região poderá consolidar uma participação mais relevante em uma das cadeias produtivas mais importantes do agronegócio brasileiro.

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