O El Niño voltou. Após meses de monitoramento das temperaturas do Oceano Pacífico, cientistas confirmaram oficialmente o início de um novo episódio do fenômeno climático que influencia padrões de chuva, temperatura e circulação atmosférica em diferentes partes do planeta.
A preocupação dos pesquisadores não está apenas no retorno do evento, mas na possibilidade de que ele alcance níveis classificados como muito fortes nos próximos meses, ampliando seus efeitos sobre economias já pressionadas por inflação, conflitos geopolíticos e instabilidades nas cadeias globais de produção.
Segundo a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), existe uma probabilidade elevada de que o fenômeno ganhe intensidade ao longo de 2026 e avance para a categoria considerada “muito forte”. Caso isso aconteça, ele passará a integrar um grupo restrito de eventos que marcaram a história recente do clima mundial, como os episódios de 1982-83 e 1997-98, frequentemente associados a secas severas, enchentes, perdas agrícolas e prejuízos bilionários.
O fenômeno não cria problemas; ele reorganiza os existentes
O El Niño é provocado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Quando essa faixa do oceano permanece mais quente do que o normal por vários meses consecutivos, a circulação atmosférica global sofre alterações que mudam a distribuição das chuvas e das temperaturas em diversas regiões do planeta. O fenômeno ocorre naturalmente em intervalos que costumam variar entre dois e sete anos.
O que torna a situação atual mais preocupante é que o evento reaparece em um planeta mais quente do que nas décadas anteriores. Embora o El Niño seja um ciclo natural, cientistas alertam que o aquecimento global amplia seus efeitos. Em vez de substituir as mudanças climáticas, o fenômeno atua sobre uma atmosfera que já acumula calor adicional, aumentando a probabilidade de extremos meteorológicos e tornando mais difíceis as previsões sobre intensidade e duração dos impactos.
Brasil deve enfrentar impactos diferentes em cada região
Os efeitos do El Niño não são distribuídos de forma uniforme pelo território brasileiro. Historicamente, a Região Sul registra aumento das chuvas, o que eleva o risco de enchentes, deslizamentos e eventos extremos. Foi justamente durante o último episódio do fenômeno que o Rio Grande do Sul enfrentou uma das maiores tragédias climáticas de sua história recente.
No Norte e em parte do Nordeste, o comportamento costuma ser oposto. A redução das chuvas aumenta o risco de secas, compromete reservatórios, afeta a agricultura e favorece incêndios florestais. Para uma região que já convive com irregularidade hídrica, a diminuição das precipitações pode pressionar sistemas de abastecimento e ampliar perdas na produção rural.
Já nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, os impactos tendem a variar mais, mas geralmente envolvem temperaturas acima da média histórica e alterações nos regimes de chuva. O resultado é uma combinação de desafios para agricultura, energia e gestão de recursos hídricos.
A ameaça não para no clima
A preocupação dos economistas é que o El Niño não afeta apenas o tempo. Ele interfere diretamente na produção de alimentos, na logística global e nos preços internacionais. Um levantamento citado pela revista Veja destaca que eventos anteriores provocaram perdas agrícolas relevantes em diferentes continentes, pressionando mercados de commodities e contribuindo para aumentos de preços.
Nos Estados Unidos, projeções apontam que os preços dos alimentos podem sofrer novas pressões caso secas ou enchentes afetem áreas agrícolas estratégicas. Na Índia, atrasos nas monções geram preocupação porque o país ocupa posição central na produção mundial de arroz, açúcar e oleaginosas. Menor disponibilidade de água pode reduzir a produtividade e gerar reflexos nos mercados internacionais.
O problema não se limita às lavouras. Chuvas excessivas frequentemente prejudicam colheitas, interrompem estradas e dificultam o transporte da produção. Em alguns casos, os impactos atingem setores que o consumidor raramente associa ao clima. Durante episódios anteriores do fenômeno, por exemplo, o Peru chegou a suspender parte da pesca de anchova devido ao aquecimento das águas, afetando cadeias globais de alimentação animal e produção de alimentos.
Energia e transporte também entram na conta
O alcance do El Niño vai além da agricultura. Ondas de calor elevam o consumo de eletricidade, especialmente em razão do uso mais intenso de sistemas de refrigeração. Ao mesmo tempo, tempestades e eventos extremos podem danificar redes de transmissão, interromper fornecimento de energia e exigir investimentos emergenciais em infraestrutura.
O transporte marítimo também pode sofrer consequências. Um exemplo recente ocorreu durante o episódio de 2023 e 2024, quando a seca reduziu drasticamente o nível de água do Canal do Panamá, uma das rotas mais importantes do comércio internacional. A limitação da navegação provocou atrasos, aumentou custos logísticos e gerou reflexos em cadeias produtivas espalhadas por diferentes continentes.
Os prejuízos permanecem mesmo depois do fenômeno
Uma das características menos compreendidas do El Niño é que seus efeitos econômicos costumam durar mais do que o próprio evento climático. Danos à infraestrutura, perdas agrícolas, redução da produtividade e impactos sobre o comércio internacional continuam sendo sentidos durante anos após o encerramento oficial do fenômeno.
Estudos citados na reportagem da Veja estimam que grandes episódios de El Niño podem produzir perdas econômicas globais medidas em trilhões de dólares ao longo de vários anos. Isso acontece porque enchentes destroem ativos, secas reduzem capacidade produtiva e interrupções logísticas alteram o funcionamento de setores inteiros da economia.
O desafio agora é antecipar impactos
A confirmação do retorno do El Niño não significa que todos os cenários mais graves irão necessariamente se concretizar. Os próprios cientistas ressaltam que previsões climáticas trabalham com probabilidades e são constantemente revisadas à medida que novos dados são incorporados aos modelos. Ainda assim, a convergência entre projeções meteorológicas e análises econômicas indica que governos, produtores rurais e empresas terão de acompanhar os próximos meses com atenção.
O ponto central é que o El Niño deixou de ser apenas uma curiosidade meteorológica. Em um mundo marcado por cadeias globais interligadas, qualquer alteração persistente nos regimes de chuva ou temperatura afeta produção de alimentos, preços, infraestrutura e abastecimento. O fenômeno continua nascendo no Pacífico, mas suas consequências já não pertencem apenas às regiões costeiras. Elas percorrem mercados, atravessam fronteiras e chegam ao cotidiano de consumidores que talvez jamais tenham visto o oceano onde tudo começa.

