Desertificação avança além do Seridó e já atinge 62 municípios do RN

Foto: Marcello Casal Júnior

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Durante décadas, quando se falava em desertificação no Rio Grande do Norte, a discussão quase sempre terminava no Seridó. A região tornou-se símbolo do avanço da degradação ambiental no semiárido brasileiro e consolidou a percepção de que o problema possuía limites geográficos relativamente conhecidos.

Um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e da Universidade Federal do Ceará (UFC) mostra que essa percepção estava incompleta. O levantamento identificou cinco novas Áreas em Processo de Desertificação (APDs) no estado e concluiu que o fenômeno já atinge pelo menos 62 municípios potiguares, ocupando aproximadamente 8.359 quilômetros quadrados, o equivalente a cerca de 15% do território estadual.

A descoberta altera a compreensão sobre a dimensão do problema. Até então, o chamado Núcleo do Seridó era tratado como a principal referência de desertificação no estado. A nova pesquisa demonstra que a degradação ambiental se espalhou para outras regiões, alcançando áreas do Oeste e da região central potiguar. Os pesquisadores identificaram as APDs de Pau dos Ferros, Rodolfo Fernandes, Caraúbas, Sertão Central e Seridó Ocidental, além da atualização dos limites da área já reconhecida no Seridó Oriental.

A desertificação não é uma seca prolongada

Um dos equívocos mais comuns sobre o tema é associar desertificação exclusivamente à falta de chuva. O próprio estudo reforça que o fenômeno possui características muito mais amplas. Segundo a definição adotada pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), a desertificação corresponde à degradação ambiental causada pelo uso inadequado dos recursos naturais em áreas áridas, semiáridas e subúmidas secas. O resultado é a perda gradual da capacidade produtiva dos solos e o comprometimento dos sistemas ecológicos que sustentam essas regiões.

Essa distinção é fundamental porque muda o foco da discussão. A seca é um fenômeno climático. A desertificação é um processo territorial. Ela pode ser acelerada por períodos de estiagem, mas depende sobretudo da forma como a ocupação humana utiliza o solo, a vegetação e os recursos hídricos disponíveis.

Os pesquisadores identificaram uma combinação recorrente de fatores: desmatamento, pecuária extensiva, agricultura sem manejo adequado, atividades extrativistas, mineração, erosão dos solos e escassez hídrica associada à recorrência de secas. Quando esses elementos se acumulam durante décadas, a capacidade natural de regeneração do ambiente diminui progressivamente.

O problema começou muito antes da atual geração

Outro aspecto revelador do estudo é a dimensão temporal do fenômeno. A pesquisa utilizou monitoramento por satélite e análises ambientais que apontam sinais persistentes de degradação há pelo menos quatro décadas. Segundo os pesquisadores, existem evidências de deterioração ambiental contínua desde 1984 em diversas áreas analisadas.

Essa informação desmonta a ideia de que a desertificação seria resultado apenas das mudanças climáticas recentes. O processo possui raízes mais profundas. Ele está ligado ao próprio modelo histórico de ocupação do semiárido nordestino, baseado na exploração contínua dos recursos naturais sem que houvesse mecanismos equivalentes de recuperação ambiental.

O pesquisador Sérgio Domiciano de Souza observa que a desertificação é um processo cumulativo e dinâmico. Ela não surge de forma repentina na paisagem. É construída lentamente por sucessivas intervenções humanas que reduzem a cobertura vegetal, degradam os solos e enfraquecem a capacidade dos ecossistemas de responder aos períodos de seca.

O custo econômico costuma aparecer antes do ambiental

Embora o debate seja frequentemente tratado como uma questão ecológica, os impactos atingem diretamente a economia do interior potiguar. Áreas em processo de desertificação tendem a apresentar redução da produtividade agrícola, perda de capacidade de retenção de água, diminuição da fertilidade do solo e aumento da vulnerabilidade das atividades rurais.

Isso significa que a desertificação não ameaça apenas a vegetação nativa. Ela afeta produtores rurais, pecuaristas, comunidades dependentes da agricultura familiar e municípios cuja economia está vinculada ao uso dos recursos naturais. À medida que a terra perde capacidade produtiva, aumenta também a pressão social sobre programas de assistência, abastecimento hídrico e políticas de desenvolvimento regional.

O impacto demográfico pode ser igualmente relevante. Regiões ambientalmente degradadas tendem a oferecer menos oportunidades econômicas, favorecendo processos de migração e esvaziamento populacional.

O fenômeno pode ser combatido, mas o tempo importa

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, os pesquisadores afirmam que as áreas identificadas não devem ser consideradas irreversíveis. A possibilidade de recuperação existe, mas depende da intensidade da degradação acumulada e da rapidez das intervenções. Quanto mais avançado o processo, maior o custo econômico e técnico para restaurar a capacidade produtiva do território.

A pesquisa aponta um conjunto de medidas consideradas prioritárias: recuperação de áreas degradadas, recomposição vegetal, manejo sustentável dos solos, monitoramento permanente das áreas vulneráveis, controle do desmatamento, assistência técnica aos produtores rurais e fortalecimento de tecnologias de convivência com o semiárido.

Essas ações possuem uma característica em comum. Todas exigem planejamento de longo prazo. Nenhuma produz resultados imediatos.

O estudo expõe uma lacuna histórica das políticas públicas

Talvez a principal contribuição da pesquisa esteja justamente na produção de um mapa mais preciso do problema. Durante anos, o Rio Grande do Norte concentrou esforços em uma área tradicionalmente reconhecida como núcleo de desertificação. O novo levantamento demonstra que o fenômeno possui distribuição muito mais ampla e exige uma abordagem territorial mais abrangente.

Os próprios pesquisadores destacam que o mapeamento fornece informações fundamentais para o planejamento ambiental, a gestão sustentável dos recursos naturais e a implementação da Lei Estadual de Combate à Desertificação. Sem saber exatamente onde o problema ocorre, em que intensidade se manifesta e quais fatores o impulsionam, qualquer política pública tende a atuar de forma limitada.

A desertificação é também uma disputa pelo futuro do semiárido

A imagem mais comum da desertificação é a de uma paisagem seca e aparentemente estéril. O estudo da UFRN e da UFC mostra que o fenômeno é mais profundo do que isso. Ele representa a perda gradual da capacidade de um território sustentar atividade econômica, conservar recursos naturais e garantir condições de permanência para as populações que dependem dele.

Por isso, a descoberta de cinco novas áreas em processo de desertificação não deve ser lida apenas como uma informação ambiental. Ela revela que parte do Rio Grande do Norte está consumindo mais rapidamente seus recursos naturais do que consegue regenerá-los. Se nada mudar, a consequência não será apenas ecológica. Será econômica, social e demográfica, afetando diretamente o futuro de regiões inteiras do estado.

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