Brasil ainda convive com 8,4 milhões de analfabetos e expõe fracasso persistente da educação básica

Foto: Freepik

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O Brasil chegou a 2025 com 8,4 milhões de pessoas analfabetas com 15 anos ou mais de idade. O dado, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), representa uma redução em relação às décadas anteriores, mas revela uma contradição que acompanha a educação brasileira há gerações.

Enquanto o país ampliou o acesso à escola, universalizou praticamente o ensino fundamental e expandiu o número de matrículas em todos os níveis educacionais, ainda não conseguiu eliminar uma das formas mais básicas de exclusão social: a incapacidade de ler e escrever.

A taxa nacional de analfabetismo alcançou 4,9% da população com 15 anos ou mais, mantendo a trajetória de queda observada nos últimos anos. O problema, entretanto, muda de dimensão quando os números absolutos entram em cena. O percentual pode parecer pequeno em um país com mais de 200 milhões de habitantes, mas corresponde a uma população superior à de muitos estados brasileiros. São milhões de pessoas que continuam afastadas de oportunidades educacionais, profissionais e de participação plena na vida econômica e política.

O dado também desmonta uma percepção recorrente de que o analfabetismo seria apenas uma herança distante do passado. Embora esteja concentrado principalmente entre os mais velhos, ele continua produzindo efeitos concretos no presente e ajuda a explicar parte das desigualdades que persistem na sociedade brasileira.

O problema envelheceu, mas não desapareceu

A distribuição do analfabetismo por faixa etária revela uma característica importante. Entre os brasileiros com 60 anos ou mais, a taxa chega a 14,9%, percentual quase três vezes superior à média nacional. Entre pessoas com 40 anos ou mais, o índice alcança 8,3%. Já entre aqueles com 25 anos ou mais, permanece em 5,8%. Entre os jovens de 15 a 29 anos, a taxa cai para 2,6%, resultado associado à ampliação do acesso à escolarização nas últimas décadas.

À primeira vista, os números podem sugerir que o problema está naturalmente desaparecendo à medida que novas gerações substituem as anteriores. Essa interpretação, porém, ignora uma questão fundamental. Milhões de brasileiros idosos permanecem vivos, economicamente ativos em muitos casos e dependentes de serviços públicos, sistemas bancários e estruturas burocráticas que exigem habilidades básicas de leitura e escrita.

O analfabetismo, portanto, não é apenas um indicador educacional. É também um fator que influencia autonomia, renda, acesso a direitos e qualidade de vida.

A desigualdade educacional acompanha a desigualdade social

Historicamente, o analfabetismo nunca foi distribuído de forma homogênea pelo território brasileiro. Ele acompanha as mesmas linhas de desigualdade observadas em outras áreas, como renda, acesso à saúde e infraestrutura urbana.

As regiões Norte e Nordeste concentram parte significativa da população analfabeta do país. Isso ocorre porque o problema está menos relacionado à capacidade individual de aprender e mais ligado às condições estruturais que historicamente limitaram o acesso à educação em determinadas regiões.

A alfabetização não depende apenas da existência de escolas. Ela exige permanência dos alunos no sistema educacional, qualidade do ensino, formação adequada de professores e condições socioeconômicas que permitam a continuidade dos estudos.

Quando esses fatores falham, os efeitos atravessam gerações.

O abandono escolar continua alimentando o problema

Outro dado divulgado pelo IBGE ajuda a compreender a origem dessa persistência. Entre jovens de 14 a 29 anos que não concluíram o ensino médio, a principal justificativa para o abandono escolar foi a necessidade de trabalhar, apontada por 43% dos entrevistados. O segundo motivo mais citado foi a falta de interesse pelos estudos, responsável por 25,6% das respostas.

Esses números revelam uma realidade frequentemente ignorada nas discussões sobre educação.

Muitos estudantes não deixam a escola por escolha simples. Eles abandonam os estudos porque a sobrevivência econômica da família se impõe como prioridade. Outros rompem o vínculo com o ambiente escolar porque não conseguem enxergar utilidade prática no modelo educacional oferecido.

Em ambos os casos, o resultado é semelhante: a interrupção da trajetória educacional e a ampliação do risco de exclusão social.

O Rio Grande do Norte também enfrenta esse desafio

A discussão possui impacto direto sobre o Rio Grande do Norte. Embora o estado tenha avançado nos indicadores educacionais ao longo das últimas décadas, ainda convive com dificuldades históricas relacionadas à alfabetização de adultos, à evasão escolar e às desigualdades entre regiões urbanas e rurais.

Municípios do interior frequentemente enfrentam obstáculos adicionais ligados à dispersão populacional, limitações de infraestrutura e menor oferta de oportunidades educacionais especializadas. Em muitas comunidades, o acesso formal à escola chegou tardiamente, produzindo reflexos que ainda aparecem nas estatísticas de alfabetização.

Ao mesmo tempo, o estado enfrenta um desafio adicional. Não basta garantir matrícula. É necessário assegurar aprendizagem efetiva.

A experiência brasileira demonstra que a universalização do acesso escolar não elimina automaticamente déficits educacionais acumulados ao longo da vida.

A alfabetização é mais do que uma política educacional

Existe uma tendência de tratar o analfabetismo exclusivamente como um problema das secretarias de educação. Os números mostram que a questão é mais ampla.

Pessoas que não dominam a leitura e a escrita encontram maiores dificuldades para acessar empregos formais, compreender informações de saúde, utilizar serviços digitais, exercer plenamente a cidadania e acompanhar transformações tecnológicas que se aceleram a cada ano.

Em um país que discute inteligência artificial, digitalização de serviços públicos e economia baseada em conhecimento, a permanência de milhões de analfabetos revela uma contradição estrutural. Parte da população é convidada a participar de uma sociedade cada vez mais tecnológica sem possuir acesso às habilidades mais básicas exigidas por ela.

O desafio não é apenas ensinar; é reparar uma dívida histórica

Os números divulgados pelo IBGE mostram que o Brasil avançou na redução do analfabetismo. Mas também demonstram que o problema permanece longe de ser resolvido. A queda dos índices entre os mais jovens indica que as políticas de expansão educacional produziram resultados. A permanência de 8,4 milhões de analfabetos revela, por outro lado, que ainda existe uma dívida acumulada com gerações que ficaram à margem desse processo.

Por isso, a verdadeira notícia não está apenas na taxa de 4,9%. Ela está no fato de que o país continua convivendo com uma exclusão educacional em escala de milhões de pessoas. Enquanto essa realidade persistir, o debate sobre desenvolvimento econômico, inovação tecnológica e redução das desigualdades continuará esbarrando em uma limitação elementar: a incapacidade de garantir a todos os brasileiros o acesso pleno à leitura e à escrita.

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