O SUS corre atrás do vício em bets enquanto as apostas correm à frente

Imagem: Freepik

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O Ministério da Saúde anunciou a ampliação do atendimento remoto para pessoas com dependência em jogos de apostas. A medida inclui reforço dos serviços por telefone e videochamadas, contratação de empresas especializadas por meio da Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS) e a realização de uma pesquisa nacional para mapear os grupos mais afetados pelo problema.

À primeira vista, trata-se de uma iniciativa voltada à saúde mental. Mas a decisão revela uma contradição maior: enquanto o mercado de apostas expande receitas e publicidade, o Estado amplia sua estrutura para administrar as consequências produzidas por essa expansão.

O fato que expôs o problema

A criação de novos mecanismos de atendimento não ocorre por precaução abstrata. Sistemas públicos costumam reagir a pressões concretas. Quando o Ministério da Saúde decide reforçar um serviço específico, o movimento indica que a demanda já alcançou um patamar capaz de exigir reorganização institucional. O teleatendimento para jogadores compulsivos não surge porque o problema pode existir no futuro. Surge porque o problema já está chegando em volume suficiente para pressionar a rede pública.

A própria estrutura anunciada pelo governo indica essa mudança de escala. O plano prevê ampliação da assistência gratuita para pessoas com dependência relacionada a apostas, além de novos instrumentos de triagem dentro da plataforma Meu SUS Digital. O objetivo não é apenas facilitar o acesso ao tratamento. É absorver uma procura que cresce mais rápido do que os mecanismos tradicionais de atendimento conseguem acompanhar.

Por que a demanda explodiu

Os números apresentados na reportagem ajudam a entender por que o Ministério da Saúde decidiu agir agora. Segundo os dados citados, os atendimentos no SUS relacionados a jogo patológico e mania de jogo aumentaram 104% entre janeiro de 2018 e maio de 2025. O crescimento não representa apenas mais diagnósticos. Ele sugere que a expansão das apostas produziu uma população cada vez maior de indivíduos incapazes de interromper o próprio comportamento de jogo sem ajuda especializada.

A Organização Mundial da Saúde reconhece que os jogos de apostas podem estar associados a ansiedade, depressão, comportamentos compulsivos e risco de suicídio. O aumento dos atendimentos, portanto, não deve ser lido apenas como estatística de saúde. Ele funciona como um indicador indireto dos efeitos produzidos por um mercado que passou a ocupar espaço permanente na rotina dos brasileiros por meio de aplicativos, publicidade esportiva e acesso digital instantâneo.

O padrão observado também desmonta uma interpretação simplista segundo a qual o problema estaria restrito a casos isolados de falta de autocontrole. Quando milhares de pessoas começam a apresentar comportamentos semelhantes, o fenômeno deixa de ser apenas individual. Ele passa a refletir a existência de incentivos econômicos e tecnológicos desenhados para estimular permanência, recorrência e engajamento contínuo.

Quem paga a conta da expansão das apostas

A questão central não é apenas quem lucra com as apostas, mas quem absorve seus custos. Empresas do setor obtêm receita diretamente da atividade de jogo. Já os impactos decorrentes do endividamento, da compulsão e do adoecimento psicológico acabam distribuídos entre famílias, serviços públicos e estruturas de proteção social.

A própria política anunciada pelo governo ilustra essa transferência. Parte dos recursos destinados à iniciativa virá da arrecadação vinculada às bets. Isso significa que o Estado reconhece a necessidade de utilizar recursos gerados pelo próprio setor para financiar mecanismos destinados a enfrentar seus efeitos colaterais.

Essa dinâmica não é inédita. Ela já apareceu em diferentes momentos históricos envolvendo tabaco, álcool e outras atividades associadas a impactos coletivos. O padrão costuma ser semelhante: os ganhos permanecem concentrados nos operadores do mercado, enquanto parte dos custos é socializada por meio dos sistemas públicos de saúde e assistência. O SUS passa, assim, a desempenhar um papel que vai além do tratamento. Ele se transforma em amortecedor dos danos produzidos pela atividade econômica.

Quando o tratamento vira política pública

Outro elemento chama atenção no anúncio do Ministério da Saúde. Além da ampliação do atendimento, o governo pretende investir R$ 6 milhões em uma pesquisa nacional para identificar quais grupos sociais sofrem mais intensamente os efeitos das apostas.

A decisão expõe uma característica recorrente de fenômenos que crescem rapidamente. O mercado avançou antes que o Estado compreendesse plenamente suas consequências. Primeiro vieram as plataformas, os patrocínios esportivos e a popularização dos aplicativos. Só depois surgiu a necessidade de produzir conhecimento sistemático sobre os impactos sociais desse processo.

Essa defasagem cria um efeito institucional relevante. O poder público passa a formular respostas enquanto ainda tenta entender a dimensão exata do problema. A pesquisa anunciada não é apenas uma ferramenta acadêmica. Ela representa uma tentativa de recuperar capacidade de diagnóstico diante de um fenômeno que avançou em velocidade superior à capacidade estatal de monitoramento.

O que acontece se a engrenagem continuar girando

O teleatendimento ampliado pode reduzir barreiras de acesso ao tratamento e oferecer suporte mais rápido para pessoas em sofrimento. Mas ele atua sobre as consequências, não sobre os incentivos que alimentam o crescimento das apostas. Nenhuma plataforma de atendimento consegue alterar, por si só, a lógica econômica que estimula a expansão permanente desse mercado.

Se a trajetória atual continuar, o desafio do SUS tende a deixar de ser apenas ampliar equipes e canais de acolhimento. O sistema poderá enfrentar uma demanda cada vez maior gerada por um setor cuja capacidade de atrair novos usuários continua crescendo. Nesse cenário, a discussão deixa de ser apenas sanitária. Ela passa a envolver regulação econômica, proteção ao consumidor e limites para um modelo de negócios que transforma vulnerabilidade humana em fonte de receita.

A ampliação do teleatendimento anunciada pelo Ministério da Saúde mostra que o país já entrou em uma nova etapa desse debate. A questão não é mais se as apostas produzem efeitos sobre a saúde pública. O próprio SUS está reorganizando sua estrutura porque esses efeitos já chegaram.

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