GGCON cresce, profissionaliza sua estrutura e mantém dívida com os skatistas

Foto: Otaviano Lacet - JOLRN

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A abertura da GGCON 2026 confirmou que o evento atravessa uma fase de amadurecimento organizacional e de expansão de sua relevância dentro da economia criativa do Rio Grande do Norte. A edição deste ano apresentou melhorias perceptíveis na distribuição dos espaços, ampliou áreas destinadas ao comércio geek e reorganizou setores dedicados aos artistas independentes, oferecendo uma experiência mais confortável tanto para visitantes quanto para expositores.

A sensação predominante entre quem circulou pelo Centro de Convenções foi a de que a GGCON deixou de ser apenas um encontro de fãs para assumir características de uma grande plataforma de negócios, consumo cultural e produção criativa. Essa percepção dialoga com os números divulgados pela própria organização, que estima a presença de aproximadamente 50 mil visitantes ao longo dos três dias de programação, além da movimentação de milhões de reais em vendas, serviços e contratos gerados dentro do evento.

Palestra sobre o jogo “The Last Trophy”, ministrada pelo artista digital Saulo Daniel. – Foto: Otaviano Lacet-JOLRN

A economia criativa ganhou mais espaço dentro da convenção

Uma das mudanças mais visíveis desta edição ocorreu justamente no setor dedicado aos criadores independentes. Escritores, ilustradores, quadrinistas, tatuadores, artistas visuais, designers, produtores de conteúdo e desenvolvedores encontraram uma estrutura mais organizada, melhor distribuída e com maior integração ao fluxo principal de circulação do público.

Essa decisão representa mais do que uma melhoria estética. Ela demonstra um entendimento mais refinado sobre a natureza contemporânea da cultura geek. Eventos dessa dimensão deixaram de funcionar apenas como espaços de entretenimento para se consolidarem como ambientes de geração de renda, fortalecimento de marcas pessoais e desenvolvimento de pequenos negócios ligados à economia criativa.

No caso do Rio Grande do Norte, essa dinâmica possui ainda maior relevância. O estado enfrenta limitações históricas na formação de mercados culturais sustentáveis, fazendo com que convenções desse porte se transformem em vitrines fundamentais para autores independentes, ilustradores, estúdios criativos e empreendedores que dificilmente encontrariam espaços equivalentes de exposição durante o restante do ano.

Comércio geek amadurece e se aproxima de um modelo profissional

Outro aspecto que chamou atenção foi a ampliação das áreas comerciais. A GGCON de 2026 apresentou corredores mais amplos, melhor disposição dos estandes e maior diversidade de produtos, reunindo desde lojas especializadas em colecionáveis até marcas autorais e pequenos empreendedores locais.

A convenção parece compreender cada vez melhor que o mercado geek não está restrito ao entretenimento. Ele movimenta consumo, turismo, serviços, alimentação, hospedagem e produção cultural. Em uma cidade como Natal, cuja economia depende fortemente do setor de serviços, eventos capazes de reunir dezenas de milhares de pessoas produzem impactos que extrapolam os limites do pavilhão e alcançam hotéis, restaurantes, aplicativos de transporte e trabalhadores temporários contratados durante a programação.

O crescimento do evento também reforça a posição de Natal dentro do circuito nordestino de grandes convenções voltadas à cultura pop, tecnologia, games e entretenimento, ampliando a capacidade da capital potiguar de atrair visitantes de outros estados e consolidar uma agenda anual de eventos de grande porte.

O roteirista, quadrinista e ilustrador Marcos Guerra apresentando seu trabalho. – Foto: Otaviano Lacet-JOLRN

O skate continua sendo tratado como uma atração periférica

Se a GGCON demonstra avanços em praticamente todos os seus setores, a relação com a comunidade do skateboard permanece marcada por uma contradição que já atravessa várias edições do evento.

Mais uma vez, a área destinada aos skatistas ficou completamente exposta às condições climáticas. Apesar da existência de um amplo espaço coberto dentro do próprio pavilhão central, os praticantes permaneceram do lado de fora, sem proteção adequada contra chuva e sem qualquer estrutura capaz de minimizar a incidência direta do sol ao longo do dia.

A situação não pode ser tratada como um episódio isolado ou como um detalhe operacional. Trata-se de uma reclamação recorrente, observada por participantes e integrantes da cena local em diferentes edições da convenção. O problema adquire maior peso justamente porque a comunidade skateboarder não atua apenas como espectadora do evento.

Os skatistas comparecem em grande número, colaboram na montagem dos obstáculos, ajudam na estruturação técnica da pista, atraem público e frequentemente trazem nomes reconhecidos nacionalmente para participar das atividades. Existe, portanto, uma participação efetiva na construção da experiência oferecida pela GGCON.

Ainda assim, a percepção transmitida é a de que o skate continua sendo incorporado ao evento apenas como elemento complementar da programação, sem receber tratamento equivalente ao destinado a outras áreas consideradas estratégicas.

Skate é cultura urbana, identidade e economia criativa

Existe um ponto que talvez precise ser melhor compreendido pelos organizadores. O skate há muito tempo deixou de ser apenas uma modalidade esportiva.

Ele é também expressão cultural, linguagem visual, mercado consumidor, indústria de vestuário, produção audiovisual, música, design e comportamento urbano. Sua presença dentro de um evento de cultura geek não constitui um elemento estranho ou deslocado, mas uma convergência natural entre universos que compartilham valores ligados à criatividade, identidade, comunidade e produção independente.

O próprio crescimento da cultura geek ao longo das últimas décadas ocorreu por meio da valorização de grupos que durante muito tempo permaneceram à margem dos grandes circuitos de entretenimento. É justamente por isso que a situação dos skatistas causa desconforto entre participantes frequentes da convenção.

Não se trata apenas da ausência de uma cobertura física. O que está em discussão é a mensagem institucional transmitida aos atletas, aos organizadores da pista e às pessoas que, ano após ano, ajudam a consolidar a GGCON como um dos maiores eventos culturais do Nordeste.

GGCON cresce, mas maturidade também significa reconhecer quem ajudou a construir sua identidade

A abertura da edição de 2026 deixa claro que a GGCON alcançou um novo patamar de organização. O evento está mais robusto, mais profissional e mais consciente do papel que desempenha na cadeia produtiva da economia criativa potiguar.

Entretanto, o amadurecimento de uma convenção não pode ser medido apenas pelo aumento do público, pelo número de estandes ou pela presença de convidados nacionais. Ele também se manifesta na capacidade de reconhecer comunidades que participaram da construção de sua trajetória desde os primeiros anos.

A GGCON demonstra ter encontrado um caminho sólido para ampliar sua relevância cultural e econômica. Talvez o próximo passo seja compreender que o skate não precisa apenas de espaço. Precisa de respeito proporcional à contribuição que oferece ao evento, aos visitantes e à própria identidade da convenção.

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