O Brasil foi eliminado da Copa. A torcida, da lucidez.

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Não me incomoda que critiquem a Seleção Brasileira. Futebol sempre foi feito de paixão, cobrança e frustração. O que me tira do sério é a incapacidade de distinguir uma eliminação esportiva de uma traição nacional. Bastou o Brasil sair da Copa para que jogadores deixassem de ser atletas e passassem a ser tratados como culpados públicos, alvos de insultos, humilhações e julgamentos que ultrapassam qualquer limite razoável.

Mais preocupante do que o resultado foi assistir a uma parcela da sociedade incapaz de lidar com a frustração sem transformar alguém em inimigo. O futebol deixou de ser um esporte e virou tribunal emocional, onde contexto, processo e circunstância quase não importam. O que sobra é a necessidade urgente de encontrar culpados, ainda que isso custe a honestidade mínima de reconhecer o que realmente aconteceu em campo.

A maior mentira contada depois da eliminação

A reação se tornou ainda mais desonesta porque nasceu de uma expectativa que a maioria dos brasileiros não demonstrava antes da Copa começar. Levantamento Quaest divulgado na abertura do Mundial apontava que 56% dos brasileiros não acreditavam no hexacampeonato, embora esse índice já tivesse sido de 68% em abril. Ou seja, a Seleção chegou ao torneio cercada mais por desconfiança do que por euforia coletiva.

Mesmo assim, depois da eliminação, parte da imprensa e da torcida passou a falar como se o Brasil tivesse desperdiçado um título praticamente garantido. A narrativa foi reconstruída depois do resultado para transformar frustração em acusação. Isso não é análise esportiva: é conveniência emocional. Porque derrotas rendem mais quando acompanhadas de culpados.

Queriam um milagre em poucas semanas

Carlo Ancelotti assumiu a Seleção praticamente às portas da Copa, sem tempo suficiente para implantar um modelo coletivo, testar alternativas e consolidar entrosamento. Os jogadores chegaram desgastados por temporadas longas na Europa, alguns com limitações físicas e outros vindos de decisões por seus clubes. Exigir uma equipe plenamente ajustada nessas condições é cobrar maturidade de um projeto que mal teve tempo de nascer.

Ainda assim, o Brasil não foi uma seleção entregue ao improviso absoluto. Teve dificuldades, claro, mas também mostrou organização, competitividade e capacidade de reação em jogos duros. Contra a Noruega, por exemplo, as casas de apostas indicavam favoritismo brasileiro, mas sem margem de tranquilidade, com odds mais altas do que em jogos anteriores da Seleção nesta Copa.

Pela primeira vez em anos, o Brasil não desmoronou

O mérito mais ignorado dessa equipe foi emocional. O Brasil sofreu gols, enfrentou adversários fechados, precisou correr atrás de resultados e, mesmo assim, não entrou em colapso psicológico. Contra a Noruega, criou chances reais, insistiu até o fim e viu lances de enorme perigo terminarem por centímetros, incluindo bola na trave.

Essa diferença importa. Em 2014, diante da Alemanha, vimos uma Seleção desabar mentalmente diante do mundo (e jogando em casa…). Em 2026, vimos um time eliminado, mas não destruído. Ser derrotado faz parte do esporte; abandonar a própria competitividade é outra coisa completamente diferente.

O brasileiro não gosta de futebol. Gosta da vitória.

Talvez o problema seja que o brasileiro desaprendeu a torcer. Torcedor acompanha processo, entende amadurecimento, reconhece limites e sabe que títulos não surgem por decreto. O que vemos com frequência, porém, é um consumidor de resultados: alguém que compra expectativa pronta, exige entrega imediata e procura culpados quando o produto não chega como imaginava.

É por isso que tantos projetos são destruídos antes de amadurecer. Troca-se técnico, muda-se elenco, reinicia-se tudo, mas permanece intacta a ansiedade de quem não aceita esperar um trabalho produzir frutos. A torcida cobra como se tivesse ajudado a construir, mas muitas vezes apenas aparece para exigir, vaiar e abandonar quando o time mais precisa de apoio.

Quando a bola para de entrar, começa a caça aos culpados

A cobertura esportiva também alimenta esse ambiente. Em vez de explicar o jogo, muitos programas transformam frustração em espetáculo. Ganha espaço quem grita mais, humilha mais e entrega a frase mais agressiva para circular nas redes.

O episódio envolvendo o apresentador e ex-jogador Neto ilustra bem essa degradação do debate esportivo. Após a eliminação brasileira, ele abandonou a análise técnica para recorrer a ataques pessoais, ironias e desqualificações dirigidas à Seleção e a seus jogadores, em um tom muito mais próximo do linchamento público do que da crítica esportiva. Não se discutiram estratégias, limitações ou circunstâncias da campanha. O espetáculo passou a ser a humilhação. E quando a audiência passa a ser conquistada pela intensidade dos insultos, compreender o futebol deixa de ser prioridade; o importante passa a ser escolher quem será exposto ao ridículo diante das câmeras.

Imagino um país melhor

Gostaria de ver essa mesma indignação diante da fome, da pobreza, das crianças vivendo nas ruas, das escolas sem estrutura, da desigualdade social e da corrupção. Gostaria de ver o país reagindo com a mesma fúria quando direitos básicos são negados todos os dias a milhões de brasileiros. Mas parece mais fácil transformar onze jogadores em inimigos nacionais do que enfrentar problemas que exigem responsabilidade coletiva.

Há algo vergonhoso nessa inversão de prioridades. Somos extremamente duros com atletas que tentaram vencer uma competição, mas frequentemente tolerantes com tragédias sociais permanentes. Talvez por isso o linchamento contra a Seleção diga menos sobre futebol e mais sobre a forma como o país escolhe descarregar suas frustrações.

O verdadeiro vexame aconteceu fora de campo

Não vi jogadores que traíram o Brasil. Vi atletas tentando competir sob circunstâncias difíceis, com pouco tempo de preparação, comando técnico recente, desgaste físico e uma construção coletiva ainda incompleta. Vi uma equipe que, com mais tempo de trabalho, poderia crescer muito mais e talvez disputar a Copa em outro nível.

O verdadeiro vexame não foi a eliminação. Foi transformar cobrança em crueldade, paixão em histeria e frustração em licença para desumanizar pessoas. Copas sempre terão outra edição. A dúvida é se, até lá, parte da torcida brasileira terá recuperado aquilo que abandonou nesta: a capacidade de criticar sem perder a lucidez.

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