A maior divisão do eleitorado brasileiro já não é regional nem econômica. É entre homens e mulheres.

Foto: Freepik

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As eleições presidenciais de 2026 podem consolidar uma mudança que começou discretamente em 2018 e se aprofundou nos anos seguintes. O eleitorado brasileiro deixou de se dividir apenas por renda, religião, escolaridade ou região. O sexo passou a funcionar como um dos principais organizadores das preferências políticas.

Enquanto os homens caminham em direção à direita, as mulheres seguem movimento inverso, aproximando-se de partidos e candidatos identificados com a esquerda. Não se trata apenas de uma curiosidade estatística. Trata-se de uma mudança capaz de redefinir estratégias eleitorais, discursos públicos e prioridades de governo.

Os números ilustram a dimensão desse deslocamento. Entre os homens, Flávio Bolsonaro aparece com 50% das intenções de voto contra 41% de Lula. Entre as mulheres, o quadro praticamente se inverte: Lula lidera por 52% a 37%. A distância é suficientemente ampla para transformar o gênero em variável estratégica das campanhas presidenciais.

O gênero substitui antigos divisores do eleitorado

Durante décadas, campanhas presidenciais brasileiras concentraram seus esforços em conquistar regiões específicas, segmentos de renda ou grupos religiosos. Essa lógica continua existindo, mas perdeu exclusividade. Segundo o cientista político Fábio Vasconcellos, citado na reportagem da Veja, o gênero passou a ocupar posição central na definição do voto, tornando-se uma das principais linhas divisórias da política brasileira.

Essa transformação acompanha mudanças verificadas em diversas democracias ocidentais. Em vários países, homens e mulheres passaram a reagir de maneira distinta diante de temas como segurança pública, políticas sociais, igualdade de gênero, mercado de trabalho e costumes. A consequência é uma reorganização do debate político que atravessa partidos, ideologias e campanhas eleitorais.

Não é apenas ideologia; são experiências sociais diferentes

A explicação para essa divisão vai além da identificação partidária. Homens e mulheres passaram a viver experiências econômicas e sociais diferentes, o que altera naturalmente suas prioridades eleitorais.

As mulheres hoje representam 51,5% da população brasileira e já comandam praticamente metade dos lares do país, percentual muito superior ao registrado pouco mais de uma década atrás. Apesar desse protagonismo econômico e familiar, continuam ocupando apenas 17,7% das cadeiras da Câmara dos Deputados. A combinação entre maior responsabilidade econômica e menor representação política produz incentivos distintos na hora de votar.

Questões como saúde, educação, creches, proteção social, violência doméstica e igualdade salarial tendem a ocupar posição mais elevada na hierarquia de prioridades do eleitorado feminino porque atingem diretamente sua rotina. Já entre os homens, temas ligados à segurança pública, liberdade individual, propriedade e redução do tamanho do Estado costumam exercer maior influência sobre a decisão eleitoral. Não por acaso, campanhas passaram a enfatizar agendas diferentes para públicos diferentes.

Lula e Flávio disputam eleitorados quase opostos

Essa reorganização obrigou os dois principais candidatos a adaptar suas estratégias.

Lula intensificou discursos voltados ao combate ao feminicídio, à ampliação de políticas sociais, à igualdade salarial e ao fortalecimento da rede de cuidados, procurando consolidar uma vantagem que já aparece nas pesquisas entre as mulheres. A estratégia parte da percepção de que esse segmento oferece maior potencial de fidelização eleitoral.

Flávio Bolsonaro enfrenta desafio diferente. Embora mantenha vantagem entre os homens, precisa reduzir sua rejeição feminina para ampliar competitividade nacional. Por isso, passou a realizar encontros específicos com mulheres, aproximou sua esposa da campanha e procura construir uma imagem menos confrontadora do que aquela associada ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

O problema é que campanhas não conseguem apagar facilmente os efeitos acumulados por anos de construção simbólica. Episódios envolvendo declarações consideradas machistas, conflitos públicos com lideranças femininas e manifestações de aliados continuam influenciando a percepção de parte do eleitorado feminino, dificultando essa reaproximação.

O conflito eleitoral reflete uma disputa cultural mais ampla

Reduzir esse fenômeno à disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro seria um erro analítico. A polarização entre homens e mulheres começou antes da campanha atual e responde a mudanças culturais profundas.

A ampliação da participação feminina no mercado de trabalho, o crescimento das mulheres como chefes de família, a expansão do ensino superior e a maior presença em espaços profissionais alteraram expectativas sobre direitos, autonomia e representação política. Ao mesmo tempo, parte do eleitorado masculino passou a enxergar essas mudanças como ameaça ao modelo tradicional de organização social, aproximando-se de discursos conservadores que prometem restaurar referências anteriores de autoridade e identidade.

Essa dinâmica não produz apenas diferenças de opinião. Ela reorganiza coalizões eleitorais inteiras e redefine quais temas passam a ocupar o centro das campanhas presidenciais.

As campanhas passam a disputar identidades, não apenas propostas

O efeito prático desse processo é que programas de governo deixam de ser suficientes para explicar o comportamento do eleitor. Cada vez mais, campanhas procuram construir pertencimento.

Quando um candidato enfatiza segurança pública, armamento ou liberdade econômica, muitas vezes está dialogando com valores predominantes entre segmentos masculinos. Quando destaca políticas de cuidado, igualdade salarial, proteção contra violência ou ampliação de serviços públicos, busca responder às prioridades percebidas entre parcelas expressivas do eleitorado feminino.

A política passa, assim, a funcionar menos como disputa entre projetos administrativos e mais como competição entre diferentes formas de interpretar a sociedade.

O risco para a democracia não está na diferença, mas na segmentação permanente

Toda democracia convive com divergências. O problema surge quando essas divergências deixam de ser econômicas ou programáticas e passam a coincidir com características permanentes da população, como sexo, religião ou identidade cultural.

Quando homens e mulheres passam a consumir informações diferentes, priorizar problemas distintos e confiar em lideranças opostas, a construção de consensos nacionais torna-se mais difícil. O incentivo para campanhas ampliarem essa segmentação também cresce, porque mobilizar identidades costuma produzir ganhos eleitorais mais rápidos do que convencer eleitores por meio de propostas.

O resultado pode ser um sistema político cada vez mais especializado em alimentar divisões permanentes da sociedade.

A eleição de 2026 pode mostrar muito mais do que quem vencerá o Planalto

As pesquisas divulgadas até agora sugerem que a disputa presidencial deixou de ser apenas uma competição entre dois candidatos. Ela pode revelar uma transformação estrutural da política brasileira.

Se a separação entre o voto masculino e o feminino continuar se ampliando, futuras campanhas serão organizadas menos em torno de regiões, renda ou partidos e mais em torno de identidades sociais. Isso altera a forma como governos constroem maioria, como políticas públicas são desenhadas e como o próprio debate democrático se desenvolve.

A questão central, portanto, não é apenas saber quem conquistará mais votos em outubro. É compreender se o Brasil está assistindo ao nascimento de um novo mapa eleitoral, no qual homens e mulheres passam a enxergar o país — e o futuro — a partir de projetos políticos cada vez mais distintos.

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