O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, que passará de 30% para 32% durante um período inicial de 180 dias. À primeira vista, a decisão pode parecer apenas uma alteração técnica na composição do combustível vendido nos postos. Na prática, porém, ela faz parte de uma estratégia mais ampla para reduzir a vulnerabilidade do Brasil às oscilações do mercado internacional de petróleo, diminuir a dependência das importações de gasolina e ampliar a participação dos biocombustíveis na matriz energética nacional.
Segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), a mudança poderá reduzir em aproximadamente R$ 0,03 o preço médio do litro da gasolina ao consumidor e evitar a importação de cerca de 900 milhões de litros de gasolina por ano. A medida foi adotada em um contexto de forte volatilidade internacional, agravada por conflitos geopolíticos que elevaram novamente as incertezas sobre o abastecimento global de combustíveis.
Mais do que uma mudança na bomba, uma estratégia energética
Embora o consumidor perceba apenas uma pequena alteração no preço ou na composição da gasolina, a decisão atende a um objetivo estratégico. O Brasil ainda precisa importar parte da gasolina consumida internamente, sobretudo quando a demanda supera a capacidade de produção das refinarias nacionais.
Ao aumentar a participação do etanol — combustível produzido majoritariamente no próprio país — o governo reduz a necessidade de adquirir gasolina no mercado internacional. Essa substituição diminui a exposição da economia brasileira às oscilações do preço do petróleo e aos riscos provocados por guerras, sanções econômicas ou crises diplomáticas que afetam os grandes produtores mundiais.
Em outras palavras, a medida busca tornar o abastecimento nacional menos dependente de fatores sobre os quais o Brasil possui pouca influência.
Por que o preço pode cair
O governo estima que a nova mistura permitirá uma redução média de cerca de três centavos por litro da gasolina. O impacto parece pequeno, mas decorre de um mecanismo relativamente simples.
Como o etanol costuma apresentar custo inferior ao da gasolina importada em determinados momentos do mercado internacional, aumentar sua participação reduz o custo médio do combustível distribuído aos postos. Além disso, uma menor necessidade de importação reduz despesas com aquisição externa, transporte e exposição às variações do dólar, fatores que costumam pressionar os preços internos.
O efeito, entretanto, não depende apenas da nova composição. Questões como a cotação internacional do petróleo, o câmbio, os tributos e a política comercial das distribuidoras continuam exercendo influência direta sobre o preço final pago pelo consumidor.
Testes indicam que veículos não devem ser afetados
Uma das principais dúvidas levantadas sempre que aumenta a participação do etanol diz respeito ao funcionamento dos veículos.
De acordo com o Ministério de Minas e Energia, estudos técnicos conduzidos pelo Instituto Mauá de Tecnologia avaliaram consumo, desempenho, dirigibilidade, partida a frio e emissões em veículos leves e motocicletas, inclusive modelos movidos exclusivamente a gasolina. Os testes concluíram que a mistura de 32% de etanol não compromete o desempenho nem provoca impactos relevantes no funcionamento dos motores analisados.
Mesmo assim, o governo continuará acompanhando os resultados da medida durante os próximos meses antes de decidir se a proporção poderá ser ampliada futuramente para 35%.
O Brasil aposta cada vez mais nos biocombustíveis
A decisão integra o programa Combustível do Futuro, política pública criada para ampliar a participação de fontes renováveis na matriz energética brasileira.
Além de reduzir a dependência da gasolina importada, a expansão do etanol contribui para diminuir as emissões de gases de efeito estufa, já que o biocombustível apresenta menor intensidade de carbono em comparação aos combustíveis fósseis.
Segundo dados citados pelo setor sucroenergético, desde que a mistura obrigatória passou de 27% para 30%, em 2025, o Brasil economizou bilhões de reais em importações de gasolina. A expectativa é que o novo aumento amplie esse efeito, fortalecendo a produção nacional de biocombustíveis e reduzindo a saída de divisas para aquisição de derivados do petróleo no exterior.
O que muda para o Rio Grande do Norte
Embora o Rio Grande do Norte não figure entre os principais produtores de cana-de-açúcar do país, a medida também interessa aos consumidores potiguares.
Qualquer redução na dependência de gasolina importada tende a contribuir para maior estabilidade do abastecimento nacional, diminuindo parte da pressão provocada por crises internacionais sobre os preços internos. Em um estado onde o transporte rodoviário concentra boa parte da circulação de pessoas e mercadorias, pequenas variações no custo dos combustíveis acabam repercutindo em diferentes setores da economia.
Além disso, um mercado nacional menos exposto às oscilações externas reduz a probabilidade de reajustes abruptos decorrentes exclusivamente de eventos geopolíticos, como guerras ou interrupções nas cadeias globais de fornecimento.
A decisão também revela uma mudança de estratégia
Durante décadas, a política de combustíveis concentrou esforços principalmente na ampliação da produção de petróleo e derivados. O aumento da mistura de etanol mostra que o debate passou a incorporar outra dimensão: a segurança energética.
Em vez de responder apenas às crises quando elas ocorrem, governos procuram construir mecanismos capazes de reduzir previamente a exposição do país às oscilações internacionais. Nesse contexto, o etanol deixa de ser apenas uma alternativa ambientalmente mais limpa e passa a desempenhar papel estratégico para a estabilidade do abastecimento nacional.
A mudança aprovada pelo CNPE ilustra essa transição. Embora o consumidor perceba inicialmente apenas alguns centavos de diferença na bomba, o alcance da medida vai além do preço do combustível. Ela representa uma tentativa de fortalecer a autonomia energética brasileira em um cenário internacional cada vez mais sujeito a conflitos que afetam diretamente o mercado global de petróleo.

