O Sistema Único de Saúde (SUS) começou a substituir gradualmente a insulina NPH pela glargina, medicamento de ação prolongada que, na maioria dos casos, permite apenas uma aplicação diária. A primeira etapa atenderá crianças e adolescentes com diabetes tipo 1 e idosos com diabetes tipo 1 ou 2.
A nova insulina será distribuída gratuitamente nas Unidades Básicas de Saúde de todo o país. Isso inclui o Rio Grande do Norte, que deverá receber os medicamentos e os equipamentos necessários dentro do cronograma nacional de abastecimento.
A mudança não será automática nem poderá ser feita por iniciativa do próprio paciente. A substituição dependerá de prescrição médica e avaliação de uma equipe de saúde, responsável por verificar se a transição é adequada e orientar a aplicação da nova insulina.
Quem terá direito à insulina glargina
Nesta primeira etapa, o Ministério da Saúde definiu dois grupos prioritários:
- crianças e adolescentes de 2 anos a 17 anos com diabetes tipo 1;
- pessoas com 70 anos ou mais diagnosticadas com diabetes tipo 1 ou tipo 2.
A idade de 18 anos é o limite desta fase para crianças e adolescentes. Isso significa que pacientes que já completaram 18 anos não estão incluídos pelo critério destinado ao público infantojuvenil.
Entre os idosos, a oferta alcança tanto quem possui diabetes tipo 1 quanto pacientes com diabetes tipo 2 que utilizam insulina e tenham indicação clínica para a mudança. Ter 70 anos ou mais, contudo, não significa receber automaticamente a glargina: a equipe multiprofissional deverá avaliar cada caso.
O Ministério da Saúde informou que o público poderá ser ampliado depois que a transição dos grupos iniciais estiver consolidada. Ainda não há data definida para que outras faixas etárias sejam incluídas.
Como solicitar o medicamento no RN
O paciente ou seu responsável deverá procurar a Unidade Básica de Saúde mais próxima de sua residência, levando uma receita médica devidamente emitida e carimbada.
Pais, responsáveis e cuidadores de crianças e adolescentes que atendam aos critérios também poderão solicitar a substituição da NPH pela glargina. Na unidade, o paciente será atendido por uma equipe multiprofissional, que analisará o tratamento atual e a possibilidade de transição.
O procedimento esperado é:
- procurar a UBS de referência;
- apresentar a receita médica;
- passar pela avaliação da equipe de saúde;
- receber orientação sobre a substituição, se ela for indicada;
- aprender a utilizar e armazenar corretamente a nova insulina.
Como a distribuição está ocorrendo gradualmente, a presença do medicamento em todas as UBSs do RN pode não ser imediata. O Ministério da Saúde prevê que todos os estados recebam os insumos até o fim de julho, mas cada secretaria ainda precisará realizar a distribuição interna aos municípios e às unidades de saúde.
Aplicação poderá cair para uma vez ao dia
A glargina é uma insulina basal de ação prolongada. Sua função é manter uma liberação mais estável ao longo do dia, ajudando no controle da glicemia entre as refeições e durante a noite.
De acordo com o Ministério da Saúde, o medicamento pode proporcionar maior estabilidade glicêmica e menor risco de episódios de hipoglicemia. A quantidade de aplicações também pode ser reduzida, já que a glargina costuma ser administrada uma vez por dia, enquanto alguns esquemas com outras insulinas podem exigir até três aplicações no mesmo período.
Isso não significa que todos os pacientes passarão a aplicar somente uma injeção diária. Pessoas com diabetes tipo 1 e parte dos pacientes com diabetes tipo 2 podem continuar precisando de insulina regular ou de ação rápida para controlar a elevação da glicose relacionada às refeições.
A glargina substituirá a insulina basal indicada pela equipe, não necessariamente todo o esquema de tratamento. Dosagem, horário e combinação com outros medicamentos deverão ser definidos pelo profissional responsável.
Caneta e agulhas também serão fornecidas
Junto com a insulina, o SUS entregará uma caneta reutilizável com validade de três anos, além das agulhas necessárias para a aplicação.
O paciente e seus familiares deverão receber orientações sobre a colocação do tubete, seleção da dose, técnica de aplicação, conservação do medicamento e descarte das agulhas. O treinamento é especialmente importante porque a troca de insulina exige cuidados para evitar erros de dosagem.
Mais de 254 mil tubetes de glargina já haviam sido enviados a 16 estados até 13 de julho. O Ministério da Saúde também distribuiu 52.350 canetas reutilizáveis e prevê completar o envio aos demais estados até o fim do mês.
O governo federal não divulgou, no anúncio nacional, quantos tubetes ou canetas serão destinados especificamente ao Rio Grande do Norte. Por isso, ainda não é possível informar quantos pacientes potiguares serão atendidos na primeira remessa.
Produção nacional busca evitar desabastecimento
A ampliação da glargina ocorre em meio a uma restrição global na oferta da insulina NPH, que ainda representa aproximadamente 90% da insulina utilizada no SUS. A transição procura impedir que pacientes fiquem sem tratamento diante de possíveis dificuldades de abastecimento.
O fornecimento da glargina foi viabilizado por uma Parceria para o Desenvolvimento Produtivo entre a Fundação Oswaldo Cruz e laboratórios privados. O modelo prevê a transferência de tecnologia e o fortalecimento da produção nacional de medicamentos considerados estratégicos.
Para o Rio Grande do Norte, a incorporação representa uma dupla proteção. Além de oferecer uma alternativa terapêutica mais moderna a crianças, adolescentes e idosos, a produção no país pode reduzir a dependência de fornecedores externos e aumentar a segurança dos estoques destinados ao SUS potiguar.
A medida também poderá diminuir a sobrecarga enfrentada por famílias que compravam a glargina na rede privada para manter esquemas considerados mais adequados pelos médicos. O benefício financeiro, porém, dependerá da disponibilidade regular do produto nas UBSs e da inclusão clínica de cada paciente.
Paciente não deve trocar a insulina sozinho
A substituição da NPH pela glargina não deve ser realizada sem acompanhamento profissional. As duas insulinas possuem perfis de ação diferentes, e a dose utilizada anteriormente pode não ser a mesma após a mudança.
Uma transição inadequada pode causar hipoglicemia, hiperglicemia ou perda do controle do diabetes. Por essa razão, o paciente deve continuar utilizando o tratamento prescrito até receber orientação formal da equipe de saúde.
A chegada de uma insulina mais moderna ao SUS representa um avanço, mas sua eficácia dependerá de algo que não cabe dentro de um tubete: abastecimento contínuo, profissionais treinados e acompanhamento dos pacientes. No RN, o verdadeiro alcance da medida será definido não apenas pelo número de doses enviadas, mas pela capacidade de fazer o medicamento chegar, com segurança, da distribuição federal até a mão de quem precisa.
As informações sobre o cronograma e o acesso ao medicamento foram divulgadas pelo Ministério da Saúde.

