A política não salvará o Brasil

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Há uma crença particularmente confortável na vida pública brasileira: a de que o país será consertado quando finalmente escolhermos as pessoas certas para governá-lo. A cada eleição, milhões de brasileiros são novamente convocados a acreditar que o destino nacional estará concentrado por alguns segundos numa urna eletrônica. Trocam-se candidatos, partidos, slogans e promessas; permanece, porém, uma expectativa quase messiânica sobre a política. Esperamos que o próximo presidente cure comportamentos que continuamos tolerando na sociedade, como se governantes fossem produzidos em ambiente moral distinto daquele em que vivem seus eleitores.

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Isso não significa que eleições sejam irrelevantes, nem que todos os governos sejam equivalentes. Governantes competentes administram melhor que incompetentes; instituições podem restringir abusos; leis alteram incentivos; políticas públicas produzem prosperidade ou desperdício. A democracia permite substituir quem governa sem substituir o regime — conquista que não deve ser diminuída. O equívoco começa quando atribuímos ao voto uma capacidade que ele simplesmente não possui: reformar sozinho a cultura moral da sociedade que produz os candidatos, financia campanhas, ocupa a burocracia, contrata com o poder público, fiscaliza autoridades e, finalmente, escolhe quem exercerá o poder.

Políticos não chegam de outro planeta

A frase atribuída ao historiador Leandro Karnal — “Não existe país com governo corrupto e população honesta” — incomoda justamente porque desloca o foco. É muito mais agradável imaginar uma população virtuosa permanentemente saqueada por uma classe política moralmente alienígena do que admitir alguma continuidade entre os comportamentos praticados dos dois lados do balcão. A corrupção política tem gravidade própria, porque envolve poder e dinheiro públicos, mas seus mecanismos não surgem espontaneamente dentro dos palácios.

O cidadão que suborna para escapar de uma multa não desviou milhões do orçamento; o comerciante que deliberadamente sonega não praticou o mesmo delito de quem frauda uma licitação; alguém que usa uma relação pessoal para furar uma fila não pode ser equiparado juridicamente a uma autoridade que vende uma decisão pública. Confundir essas escalas seria intelectualmente desonesto. O elo entre elas está em outro lugar: na aceitação da ideia de que a regra vale enquanto não houver vantagem pessoal em contorná-la.

Quando essa lógica encontra o poder, muda a escala do dano. O favor entre conhecidos pode transformar-se em clientelismo; a tolerância ao pequeno privilégio encontra expressão institucional no privilégio corporativo; a admiração pelo “esperto” que contorna regras fornece terreno cultural para o agente público que aprende a fazer o mesmo com instrumentos muito mais poderosos. Não é porque toda pequena desonestidade produz um corrupto, mas porque instituições não existem fora das pessoas e dos valores que uma sociedade recompensa, pune ou tolera.

O mito do povo inocente tem uma função

Existe uma utilidade psicológica na tese segundo a qual todos os males brasileiros vêm “dos políticos”. Ela distribui a responsabilidade de maneira extraordinariamente conveniente: nós somos vítimas; eles são culpados. Dessa forma, o brasileiro pode indignar-se com o nepotismo em Brasília enquanto pede uma indicação para conseguir aquilo que deveria disputar em igualdade de condições; condenar privilégios de autoridades enquanto reivindica tratamento excepcional quando a regra o incomoda; protestar contra desvios bilionários e achar perfeitamente aceitável apropriar-se do que não lhe pertence quando a oportunidade parece pequena.

Essa contradição não absolve o político corrupto. Faz exatamente o contrário. Permite compreender por que combatê-lo exige mais do que substituí-lo por outro nome. Se o sistema de recompensas permanecer intacto, se o eleitor continuar premiando quem entrega vantagens particulares, se partidos continuarem encontrando clientelas disponíveis para trocar cidadania por favores e se a sociedade condenar a corrupção apenas quando praticada pelo grupo adversário, a urna poderá trocar os personagens sem desmontar a engrenagem.

A Suécia ensina algo diferente do que imaginamos

É nesse ponto que o livro Um país sem excelências e mordomias, da jornalista Claudia Wallin, oferece uma comparação muito mais incômoda do que a caricatura “Suécia boa, Brasil ruim”. O livro não descreve uma população biologicamente mais virtuosa nem apresenta a Suécia como sociedade sem defeitos. Wallin reconstrói um processo que passou por educação, organização social, reformas institucionais, transparência e formação de uma administração pública submetida a controles. A própria autora recorda que o país foi pobre, enfrentou fome e viu aproximadamente 1,3 milhão de suecos emigrar entre 1851 e 1930.

A diferença decisiva está na relação construída entre sociedade e poder. Wallin descreve uma cultura política na qual governantes são deliberadamente mantidos próximos da condição do cidadão comum. Parlamentares não formam uma nobreza republicana; ministros não precisam parecer monarcas para exercer autoridade; o prestígio do cargo não concede ao ocupante licença moral para transformar dinheiro público em extensão de sua vida privada. A igualdade, nesse caso, não aparece apenas como programa de governo: funciona como expectativa social imposta ao governante.

Na Suécia, o político sabe quem é o patrão

Uma das passagens mais reveladoras do livro não acontece no Parlamento. Ao entrevistar cidadãos em Estocolmo, Wallin registra uma explicação brutalmente simples para a ausência de luxo da classe política. Joakim Holm afirma: “Sou eu que pago os políticos”. Outro entrevistado, Mikael Forslund, completa o raciocínio dizendo que políticos trabalham para os cidadãos que pagam impostos e não constituem uma classe superior merecedora de privilégios.

A diferença cultural contida nessa afirmação é enorme. Onde o político é percebido como servidor, sua autoridade pode ser respeitada sem que sua pessoa seja venerada. Onde o político se converte em líder afetivo de uma comunidade eleitoral, qualquer crítica ao governante pode ser interpretada como ataque à identidade do eleitor. É assim que democracias deixam de discutir decisões públicas e começam a organizar torcidas.

O Brasil conhece muito bem essa deformação. O eleitor passa a defender políticos como defenderia um clube de futebol: relativiza no aliado aquilo que condenaria ferozmente no adversário, procura justificativas para erros do próprio campo e transforma fatos inconvenientes em provocações da torcida rival. Nesse ambiente, a fiscalização perde sua função republicana, porque deixa de existir um padrão moral comum aplicável indistintamente a quem ocupa o poder.

Quando o cidadão vira torcedor, o político ganha poder

O personalismo político prospera precisamente porque transfere para uma pessoa expectativas que deveriam repousar sobre instituições. Presidentes passam a ser tratados como pais, mitos, salvadores, líderes providenciais ou encarnações do povo. O governante deixa de ser funcionário temporário de uma República e torna-se depositário das esperanças, ressentimentos e identidades de parcelas da população.

Essa relação beneficia sobretudo o próprio poder político. Quanto mais emocionalmente dependente de um líder se torna o eleitor, menor sua disposição para fiscalizá-lo com os mesmos critérios usados contra adversários. O voto, que deveria constituir instrumento periódico de contratação e demissão de representantes, transforma-se numa declaração de pertencimento. E a alternância democrática, que deveria ser normal, passa a ser experimentada como vitória existencial ou tragédia pessoal.

Na experiência relatada por Wallin, encontramos a lógica inversa. Uma cientista política entrevistada pela autora explica que os suecos esperam representantes “normais”, sem luxo e sem desperdício do dinheiro público, justamente porque reconhecem de onde aquele dinheiro veio: do contribuinte. A autora também registra a convicção de que a sociedade sueca não toleraria uma expansão de regalias políticas comparável à existente em outros países.

Não basta eleger honestos

Há outra lição ainda mais poderosa no livro: moralidade pública não depende exclusivamente da virtude pessoal de quem governa. A Suécia criou, em 1766, aquela que Wallin apresenta como a primeira lei de transparência do mundo. O princípio estabelecido é extraordinariamente simples: documentos oficiais pertencem ao escrutínio público; o sigilo constitui exceção. Gastos, correspondências oficiais e decisões de autoridades podem ser examinados pelo cidadão e pela imprensa.

Essa arquitetura parte de uma compreensão mais madura da natureza humana. Um bom sistema não pressupõe que todos os governantes serão santos. Ele reduz as oportunidades para que mesmo pessoas moralmente frágeis consigam abusar do poder sem serem descobertas. Transparência, fiscalização, imprensa livre, controles administrativos e punição não substituem caráter; diminuem o prêmio institucional oferecido à falta dele.

É justamente por isso que esperar pelo “político certo” constitui estratégia tão pobre para combater corrupção. Países institucionalmente maduros não são aqueles que descobriram uma fonte inesgotável de homens incorruptíveis. São aqueles que aprenderam a não depender deles.

A corrupção é também um sistema de expectativas

O trecho mais útil de Um país sem excelências e mordomias para compreender o Brasil talvez esteja na discussão acadêmica apresentada por Wallin sobre corrupção. O cientista político Bo Rothstein sustenta que medidas isoladas têm pouca capacidade de alterar uma ordem social contaminada pela expectativa de desonestidade. O problema não está somente em tribunais, políticos, servidores, imprensa ou sociedade civil separadamente; está na interação entre essas instituições e naquilo que cada pessoa espera que as outras façam.

O mecanismo é perverso. Se alguém acredita que todos trapaceiam, comportar-se honestamente pode começar a parecer ingenuidade. Se empresários presumem que contratos dependem de relações pessoais, adaptam-se ao sistema; se cidadãos acreditam que serviços públicos dependem de padrinhos, procuram padrinhos; se políticos descobrem que benefícios particulares compram lealdade eleitoral, oferecem benefícios particulares. Cada participante encontra no comportamento dos demais uma justificativa para o próprio.

Wallin reproduz uma formulação ainda mais contundente: corrupção endêmica não é simplesmente um defeito corrigível por pequeno ajuste técnico, mas uma forma de funcionamento incorporada às regras e expectativas da vida social e política. Essa interpretação destrói a fantasia segundo a qual bastaria eleger uma geração moralmente superior e aguardar a limpeza nacional. Quando o equilíbrio inteiro recompensa determinados comportamentos, trocar apenas seus operadores não basta.

Isso também impede a conclusão oposta

Reconhecer a responsabilidade da sociedade não autoriza dizer que “todo brasileiro é corrupto”, muito menos transformar uma crítica cultural em condenação moral de um povo inteiro. Essa seria apenas outra simplificação. A própria história sueca relatada por Wallin impede semelhante conclusão: o país não nasceu pronto. Até o século XIX estava entre os mais pobres da Europa; suas instituições foram reformadas, movimentos populares funcionaram como escolas de participação democrática, a educação básica tornou-se obrigatória e a confiança pública foi construída ao longo do tempo.

A cultura, portanto, não é destino. Comportamentos sociais podem mudar porque instituições alteram incentivos, educação modifica expectativas e cidadãos aprendem a exigir padrões que anteriormente não exigiam. A sociedade transforma o Estado, mas o Estado também influencia a sociedade. A relação é circular — e exatamente por isso nenhum presidente possui sozinho o poder de interrompê-la.

O voto é poderoso justamente porque não é mágico

Dizer que a política não salvará o Brasil não significa defender indiferença política. Pelo contrário. Quem compreende os limites da política passa a utilizá-la com maior maturidade. Vota sem venerar, apoia sem obedecer, critica sem odiar e troca de candidato sem experimentar uma crise de identidade. Sobretudo, compreende que nenhum título eleitoral transfere ao escolhido a responsabilidade moral que continua pertencendo ao eleitor.

Uma eleição pode retirar um corrupto do cargo. Não consegue impedir que a sociedade eleja outro. Pode derrotar um populista. Não elimina a demanda social por salvadores. Pode substituir um Congresso. Não extingue o clientelismo se milhões de eleitores continuarem entendendo representação política como acesso privilegiado a favores. Pode aprovar leis contra privilégios. Não garante sua permanência se a população se acostumar novamente com eles.

O Brasil não precisa de um salvador

Talvez nosso maior amadurecimento democrático aconteça quando uma eleição presidencial deixar de ser apresentada como batalha final entre a salvação e a destruição do país. Democracias adultas não precisam acreditar que um homem ou uma mulher carregará a nação nas costas durante quatro anos. Precisam de cidadãos capazes de contratar servidores públicos pelo voto, vigiá-los enquanto exercem o mandato e dispensá-los quando deixarem de merecer confiança.

A experiência sueca descrita por Claudia Wallin contém justamente essa inversão. A corrupção tornou-se exceção não porque a população encontrou políticos dotados de uma natureza humana superior, mas porque instituições, fiscalização e valores sociais passaram a tornar certos comportamentos intoleráveis. A autora sintetiza esse arranjo ao descrever uma sociedade que exige respeito, vigia os poderosos e pune desvios, enquanto políticas de gestão controlam o emprego do dinheiro público.

É aí que o argumento retorna ao Brasil. Enquanto esperarmos que Brasília produza uma honestidade que não estamos dispostos a exigir de nós mesmos, continuaremos procurando na urna aquilo que nenhuma urna pode oferecer. O país será melhor quando tiver melhores políticos, sem dúvida. Mas terá melhores políticos de maneira duradoura quando corrupção, privilégio, favorecimento e esperteza deixarem de provocar indignação seletiva e passarem a encontrar rejeição independentemente de quem os pratique.

A política pode construir escolas, organizar serviços, reformar instituições, cobrar impostos, combater crimes, reduzir desigualdades e estabelecer limites ao poder. Pode fazer muito — e justamente por isso deve ser levada a sério. O que ela não pode fazer é viver a cidadania em nosso lugar. A sociedade que terceiriza aos governantes a obrigação de produzir o país que deseja acaba também terceirizando a eles a culpa pelo país que ajudou a produzir.

O Brasil não será salvo quando finalmente escolher um salvador. Terá começado a mudar quando deixar de precisar de um.

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