O 7 de setembro de 1822 marcou a declaração formal da separação entre Brasil e Portugal, mas não iniciou nem encerrou sozinho a construção do novo país. Cinco anos antes, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte haviam participado de uma revolução republicana contra a monarquia portuguesa. Depois do episódio do Ipiranga, baianos, piauienses, cearenses e maranhenses ainda enfrentariam tropas e governos leais a Lisboa.
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O 7 de Setembro foi um marco, não todo o processo
A declaração de Dom Pedro não produziu obediência automática em todas as províncias. Elites políticas, tropas, comerciantes e grupos populares assumiram posições diferentes diante da ruptura, enquanto Portugal ainda mantinha influência econômica e presença militar em regiões estratégicas.
A própria historiografia passou a tratar o período como um conjunto de “várias independências”. O Arquivo Nacional destaca que o Estado imperial não foi construído apenas por Dom Pedro e pelas lideranças estabelecidas no Rio de Janeiro, mas também pelas decisões, alianças e conflitos ocorridos nas províncias.
A Revolução Liberal do Porto, iniciada em Portugal em 1820, acelerou esse processo. As Cortes portuguesas pressionaram pelo retorno de Dom Pedro e tentaram reorganizar as relações com o Brasil, enquanto representantes das províncias discutiam autonomia, Constituição e participação política.
Pernambuco rompeu com a monarquia cinco anos antes
Em 6 de março de 1817, uma revolta derrubou o governo de Pernambuco e implantou uma administração provisória de caráter republicano e constitucional. Durante pouco mais de dois meses, os revolucionários organizaram instituições, buscaram apoio em outras capitanias e romperam com a autoridade da Coroa portuguesa.
A Revolução Pernambucana colocou em circulação um projeto político mais radical do que aquele adotado por Dom Pedro em 1822. Em vez de preservar a monarquia sob comando de um integrante da Casa de Bragança, os insurgentes defendiam uma república e pretendiam construir um governo próprio.
Por isso, o movimento não deve ser apresentado simplesmente como a primeira etapa da Independência comandada posteriormente por Dom Pedro. Eram projetos distintos. Ainda assim, 1817 demonstrou que o domínio português já era contestado no Nordeste e que parte das elites e da população estava disposta a substituí-lo por outra organização política.
Rio Grande do Norte teve governo republicano por 28 dias
A revolução atravessou as fronteiras de Pernambuco e chegou ao território potiguar. Liderados pelo senhor de engenho André de Albuquerque Maranhão, conhecido como Andrezinho de Cunhaú, os revolucionários tomaram o poder e instalaram em Natal um governo republicano em 29 de março de 1817.
André de Albuquerque assumiu a presidência do governo e formou um conselho para administrar a então capitania. Uma proclamação enviada às câmaras locais comunicou a nova ordem e orientou as autoridades sobre o funcionamento da administração separada da Coroa.
Estudo publicado pela Revista Espacialidades, da UFRN, também identifica a participação de oficiais indígenas e tropas das antigas vilas de índios no movimento. O dado amplia uma história frequentemente reduzida a proprietários rurais, religiosos e integrantes das elites locais.
A experiência potiguar terminou em 25 de abril, com a reação das forças monarquistas. André de Albuquerque foi ferido durante a retomada do poder, levado para a Fortaleza dos Reis Magos e morreu em consequência dos ferimentos. O personagem que dá nome à principal praça do Centro Histórico de Natal foi, portanto, o presidente de uma breve república instalada no Rio Grande do Norte cinco anos antes do Ipiranga.
Bahia transformou a separação política em guerra
Quando Dom Pedro declarou a Independência, tropas portuguesas ainda controlavam Salvador. As forças favoráveis à separação organizaram-se principalmente no Recôncavo, onde a vila de Cachoeira se tornou o centro político e militar da resistência.
O conflito reuniu soldados, voluntários, indígenas, negros, libertos e mulheres em uma guerra que ultrapassou a disputa entre governos. Tropas de Pernambuco e Alagoas também reforçaram o Exército Libertador, enquanto os portugueses ficaram progressivamente isolados e com dificuldades para receber suprimentos.
A guerra terminou com a retirada das forças comandadas pelo general português Madeira de Melo e a entrada do Exército Libertador em Salvador, em 2 de julho de 1823. A data, celebrada como a Independência da Bahia, ocorreu quase dez meses depois do grito do Ipiranga. Uma cartilha da Fundação Pedro Calmon reconstrói os combates e a mobilização que levaram à expulsão das tropas portuguesas.
Jenipapo mostrou que a ruptura ainda dependia das armas
No Piauí, a adesão à Independência provocou uma das batalhas mais violentas do período. Em 13 de março de 1823, combatentes piauienses, cearenses e maranhenses, muitos deles vaqueiros e agricultores com armas improvisadas, enfrentaram as tropas portuguesas comandadas pelo major João José da Cunha Fidié.
Os independentistas foram derrotados no campo de batalha e sofreram pelo menos 200 mortes. A resistência, porém, enfraqueceu e atrasou o avanço das tropas de Fidié, que posteriormente se deslocaram para Caxias, no Maranhão. Como resume a Câmara dos Deputados, os brasileiros perderam a batalha, mas não a guerra.
A Batalha do Jenipapo permanece inscrita na bandeira do Piauí e se transformou em símbolo da participação popular na Independência. O confronto desmonta a imagem de uma separação concedida pacificamente por um príncipe: em outras partes do território, a ruptura custou sangue e foi disputada por homens sem treinamento militar ou armamento equivalente ao das forças portuguesas.
Maranhão só aderiu ao novo Império em julho de 1823
O Maranhão manteve ligações comerciais e políticas particularmente fortes com Portugal. Mesmo após setembro de 1822, São Luís continuou sob um governo ligado a Lisboa, enquanto forças favoráveis ao novo Império avançavam pelo interior com combatentes do Ceará e do Piauí.
A situação mudou com as derrotas portuguesas em terra e a chegada da esquadra comandada pelo almirante britânico Lord Cochrane. Em 28 de julho de 1823, a Câmara Geral de São Luís proclamou a adesão da província ao Império do Brasil. O Arquivo Nacional registra que as disputas políticas continuaram mesmo depois da proclamação.
Três dias mais tarde, as forças de Fidié foram derrotadas em Caxias, encerrando o principal foco de resistência portuguesa no interior maranhense. O território do novo país continuava, portanto, em definição quando o primeiro aniversário do 7 de Setembro já se aproximava.
A história regional não substitui um mito por outro
Dizer que a Independência “começou” no Nordeste antes de 1822 exige precisão. Se o termo se refere à declaração formal que criou o Império do Brasil, o marco permanece sendo o 7 de setembro. Se abrange os projetos políticos, revoltas e conflitos que corroeram o domínio português e tornaram possível a ruptura, o processo começou antes e passou necessariamente pelo Nordeste.
A Revolução de 1817 não foi uma antecipação perfeita do Império de Dom Pedro: defendia outro governo, outra estrutura de poder e uma república. Da mesma forma, as batalhas travadas entre 1822 e 1823 não foram simples consequências periféricas do Ipiranga, mas confrontos dos quais dependeram a extensão territorial e a autoridade do novo Estado.
O Nordeste não precisa tomar de São Paulo o lugar simbólico de nascimento da Independência. Sua contribuição histórica é mais profunda: mostrar que o Brasil não surgiu de um único gesto, realizado por um único personagem, mas de projetos concorrentes, mobilizações populares, acordos políticos e guerras regionais que os quadros oficiais durante muito tempo deixaram fora da moldura.

