O Rio Grande do Norte registrou 848 desaparecimentos em 2025, alta de 11,6% sobre o ano anterior — avanço mais de três vezes superior aos 3,6% verificados no Brasil. Ao mesmo tempo, aproximadamente 500 restos mortais permanecem sem identificação na Polícia Científica estadual. Entre essas duas estatísticas está a coleta de DNA de familiares, capaz de devolver nomes a pessoas encontradas vivas ou mortas sem identidade confirmada.
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Alta potiguar supera três vezes a média nacional
O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública contabilizou 758 desaparecimentos no RN em 2024 e 848 em 2025. A taxa estadual passou de 22 para 24,5 ocorrências por 100 mil habitantes.
O índice foi o quinto maior do Nordeste, atrás de Sergipe, Pernambuco, Ceará e Bahia. Em números absolutos, o RN ocupou a sexta posição regional, superado por Bahia, Pernambuco, Ceará, Maranhão e Paraíba.
O levantamento registrou ainda 524 pessoas localizadas no estado em 2025, contra 392 no ano anterior. Isso não significa, porém, que 524 dos 848 casos tenham sido solucionados. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública não conseguiu verificar se as pessoas foram encontradas vivas ou mortas, quando haviam desaparecido nem se cada localização estava vinculada a uma ocorrência registrada no mesmo ano.
Quinhentos restos mortais ainda esperam um nome
O Laboratório de Genética Forense da Polícia Científica do RN guarda aproximadamente 500 restos mortais sem identificação. De acordo com Fabrício Fernandes, chefe da unidade, em torno de 200 famílias já forneceram amostras genéticas por terem parentes desaparecidos.
O confronto não fica restrito ao Rio Grande do Norte. Os perfis são inseridos em bancos estaduais e na base nacional, permitindo que o DNA de uma família potiguar seja comparado com o de uma pessoa localizada em outro estado.
Até novembro de 2025, o Banco Nacional de Perfis Genéticos possuía 13.424 perfis de restos mortais não identificados. O Anuário atribui parte dessa quantidade à escassez de profissionais, recursos laboratoriais e integração entre os órgãos encarregados da identificação.
Segundo Fabrício Fernandes, a maioria dos casos solucionados a partir dos restos examinados no RN revelou mortes associadas ao envolvimento com facções criminosas. A constatação não autoriza concluir que a maior parte dos 848 desaparecimentos tenha origem criminal: são universos diferentes, e qualquer ligação exige investigação individual.
Como o DNA transforma parentesco em pista
A coleta é realizada com um instrumento semelhante a um cotonete, passado no interior da bochecha. Não há retirada de sangue. O procedimento é gratuito, rápido e indolor, conforme as orientações do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
A preferência é por parentes biológicos de primeiro grau: pai ou mãe; filhos acompanhados do outro genitor; e irmãos do mesmo pai e da mesma mãe. Quando o parentesco é por filhos ou irmãos, a coleta do maior número possível de familiares aumenta a capacidade de comparação.
É necessário apresentar documento de identificação e as informações do boletim de ocorrência, como número, estado e delegacia onde foi registrado. A cópia do boletim é recomendada, mas não obrigatória. Quem já forneceu material genético não precisa repetir o procedimento.
Não existe prazo máximo para doar, mesmo quando o desaparecimento ocorreu há muitos anos. Da mesma forma, não se deve esperar 24 horas para registrar o boletim de ocorrência. A Lei nº 13.812/2019 determina que a busca seja tratada pelo poder público como prioridade urgente e que a notificação seja registrada imediatamente.
Onde doar DNA no Rio Grande do Norte
A força-tarefa nacional foi realizada entre 24 e 28 de agosto, mas a coleta permanece disponível fora do período da campanha. A relação oficial do Ministério da Justiça indica quatro unidades no RN. A orientação é confirmar o atendimento por telefone antes do deslocamento.
- Natal: Laboratório de Genética Forense, Avenida Interventor Mário Câmara, 3532, Cidade da Esperança. Telefone: (84) 98828-3168.
- Mossoró: Unidade Regional, Rua Vicente Fernandes, s/n, bairro Aeroporto. Telefone: (84) 98137-2429.
- Caicó: Unidade Regional, Rua Severiano Alves da Costa, s/n, bairro Samanaú. Telefone: (84) 98137-2147.
- Pau dos Ferros: Unidade Regional, Rua Uriel Fernandes da Silveira, bairro Manoel Domingos. Telefone: (84) 98152-7490.
A amostra pode ser doada em qualquer ponto, independentemente da cidade ou do estado onde ocorreu o desaparecimento. Se o familiar não puder comparecer, o Ministério da Justiça recomenda contato com a unidade mais próxima para que seja avaliada outra forma de realizar o procedimento.
Nem todo desaparecimento possui a mesma causa
A legislação considera desaparecida toda pessoa cujo paradeiro seja desconhecido, seja qual for a razão. A mesma estatística reúne afastamentos voluntários, conflitos familiares, transtornos mentais, violência doméstica, dependência química, acidentes, exploração sexual, tráfico de pessoas, ações criminosas e mortes cujos corpos ainda não foram encontrados.
Há ainda registros que permanecem abertos porque a família não informa à polícia quando a pessoa retorna por conta própria. A falta de comunicação entre segurança pública, saúde e assistência social também produz o chamado “desaparecimento administrativo”: alguém pode ter sido localizado ou atendido por uma instituição, enquanto continua oficialmente desaparecido em outra base.
Por isso, os 848 registros não representam necessariamente 848 crimes, assim como as 524 localizações não equivalem a uma taxa comprovada de solução. Mas a combinação entre o aumento das ocorrências, os 500 restos mortais sem nome e o número ainda reduzido de famílias cadastradas expõe o tamanho da lacuna: existem corpos à espera de identidade e famílias à espera de resposta. O DNA pode aproximar as duas pontas, desde que os registros circulem e o material genético chegue aos bancos de comparação.

