A inteligência artificial não chega às Eleições 2026 apenas como ferramenta para produzir imagens engraçadas, ajustar discursos ou montar vídeos de campanha. Ela entra no processo eleitoral brasileiro com capacidade de fabricar declarações convincentes, imitar candidatos, criar personagens inexistentes, personalizar mensagens políticas e multiplicar conteúdos em uma velocidade incompatível com os mecanismos tradicionais de fiscalização. O problema deixou de ser hipotético: sistemas testados no Brasil já recomendaram candidaturas apesar da proibição do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), conteúdos falsos produzidos por IA já circularam como documentos reais e experiências estrangeiras demonstraram o uso de pessoas artificiais para interferir em disputas políticas.
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O risco não é apenas o deepfake perfeito
A imagem mais conhecida do perigo eleitoral da IA é o deepfake: um vídeo no qual um candidato parece dizer ou fazer algo que nunca aconteceu. Mas concentrar toda a discussão nisso pode esconder uma transformação mais profunda.
A IA generativa reduz drasticamente o custo de produzir texto, imagem, áudio e vídeo em escala industrial. Uma operação que antes exigia equipes, edição profissional e dinheiro pode ser realizada por poucas pessoas munidas de modelos generativos e sistemas automatizados de distribuição.
O resultado é uma mudança na economia da desinformação. Produzir uma mentira ficou mais barato. Criar dezenas de versões dela ficou mais rápido. Adaptá-la a públicos diferentes tornou-se tecnicamente possível. E, quando o conteúdo chega a milhares ou milhões de pessoas antes de ser verificado, uma eventual correção enfrenta uma assimetria incômoda: a falsidade já circulou; a explicação precisa correr atrás dela.
Foi justamente para responder a esse cenário que o TSE ampliou as regras para 2026. Conteúdos sintéticos usados em propaganda eleitoral precisam ser identificados de forma explícita, destacada e acessível, e a regulamentação proíbe determinados usos de IA capazes de prejudicar a integridade da disputa.
Quando a máquina deixa de informar e começa a escolher
Existe uma segunda frente menos visível e potencialmente mais delicada: o eleitor que pergunta diretamente a uma inteligência artificial em quem deveria votar.
A Resolução nº 23.755/2026 do TSE proíbe sistemas de IA de ranquear, recomendar, sugerir ou priorizar candidatos, partidos, campanhas, federações ou coligações. Também veda que essas ferramentas indiquem preferência eleitoral, recomendem voto ou favoreçam ou desfavoreçam opções políticas, direta ou indiretamente.
A norma existe porque uma resposta aparentemente neutra de um chatbot pode adquirir peso semelhante ao de uma recomendação pessoal. O problema aumenta porque o usuário nem sempre conhece os critérios, dados ou erros que produziram aquela conclusão.
E os primeiros testes mostraram que a barreira regulatória ainda possui frestas.
O estudo Boca de IA, do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio), avaliou ChatGPT, Gemini, MetaAI, DeepSeek, Grok, Perplexity e Claude. Seis dos sete sistemas apresentaram algum grau de ranqueamento ou priorização de candidatos, apesar da vedação eleitoral. O levantamento também identificou pouca utilização de fontes oficiais e casos de imprecisão factual.
O material analisado pelo JOLRN traz a reação da OpenAI ao problema. Em entrevista, o responsável por políticas públicas da empresa para a América Latina reconhece estudos que detectaram recomendações eleitorais e afirma que o comportamento dos modelos vem sendo ajustado. Segundo ele, em uma rodada posterior de testes, 32 de 33 tentativas de fazer o modelo ranquear ou recomendar candidatos foram bloqueadas.
O dado mostra simultaneamente progresso e dificuldade: uma regra pode ser clara juridicamente, mas sua transformação em comportamento consistente de uma IA depende de sistemas probabilísticos que nem sempre respondem da mesma maneira a formulações diferentes.
Uma mentira agora pode vir acompanhada de “provas” fabricadas
A IA acrescenta outra camada ao velho problema da notícia falsa. Antes, uma mentira política podia depender apenas de texto ou de uma fotografia fora de contexto. Agora ela pode chegar acompanhada de áudio, documento, fotografia, vídeo e até supostas evidências produzidas artificialmente.
A reportagem anexada cita um episódio brasileiro em que circulou nas redes sociais um suposto relatório da Polícia Federal, posteriormente contestado pela própria instituição, envolvendo o deputado federal Nikolas Ferreira e o empresário Daniel Vorcaro. A OpenAI afirma possuir ferramenta capaz de verificar determinadas imagens produzidas por seus sistemas por meio de uma marca digital invisível.
Mas a própria existência dessa tecnologia revela o tamanho do problema. A identificação depende do modelo utilizado, da preservação dos metadados ou de mecanismos de procedência que não são universais.
Não existe um detector mágico capaz de analisar todo texto, imagem, vídeo ou áudio disponível na internet e estabelecer, com certeza absoluta, se aquilo foi produzido por inteligência artificial.
Essa lacuna cria um terreno fértil para dois tipos de fraude. O primeiro é fabricar conteúdo falso e apresentá-lo como verdadeiro. O segundo é o movimento inverso: alegar que uma gravação verdadeira é IA para tentar desacreditá-la.
Quando ambas as estratégias coexistem, a consequência mais profunda pode ser a deterioração da própria capacidade coletiva de distinguir evidência de fabricação.
O prejuízo começa antes de alguém acreditar na mentira
É tentador imaginar que uma operação de desinformação só funciona se conseguir convencer a maioria dos eleitores. Não precisa.
Uma falsidade pode causar dano mesmo quando posteriormente desmentida. Pode obrigar uma campanha a interromper sua agenda para responder a uma acusação inventada, mobilizar jornalistas e tribunais, produzir dúvida em eleitores indecisos ou alimentar comunidades predispostas a acreditar nela.
A IA altera também o volume necessário para provocar esse efeito. O objetivo pode não ser convencer todos de uma versão, mas lançar centenas de versões simultâneas, tornando o ambiente informacional ruidoso o suficiente para dificultar a identificação do que é verdadeiro.
Esse é um dos prejuízos reais mais difíceis de medir: o ataque não necessariamente substitui uma verdade por uma mentira. Ele pode simplesmente inundar o espaço público até que o eleitor conclua que não é possível confiar em nada.
Nesse cenário, a vítima final não é apenas o candidato atingido. É a própria infraestrutura de confiança necessária para uma eleição funcionar.
Experiências estrangeiras mostram que pessoas falsas já podem fazer política
O risco tampouco termina na manipulação de rostos conhecidos.
O executivo da OpenAI ouvido na reportagem relata que, durante as eleições indianas de 2024, a empresa identificou uma operação que utilizava personagens falsos criados por IA nas redes sociais para favorecer determinada força política e prejudicar outra. Segundo ele, a atividade teve pouco alcance e foi detectada pelos sistemas da companhia.
O caso importa menos pelo impacto daquela operação específica do que pelo mecanismo demonstrado.
Durante décadas, a propaganda política dependeu de pessoas reais ou de perfis controlados por pessoas. Agora é possível criar identidades sintéticas com fotografia, biografia, linguagem própria e produção contínua de conteúdo.
Multiplique isso por centenas ou milhares de contas e surge uma ferramenta capaz de produzir artificialmente a aparência de opinião pública espontânea.
Não seria apenas um robô repetindo uma frase. Seria uma multidão que nunca existiu.
As últimas horas antes da votação são o ponto mais vulnerável
O TSE identificou uma janela especialmente perigosa: as horas imediatamente anteriores ao voto.
Em 2026, novas regras proíbem a publicação, republicação e impulsionamento de novos conteúdos sintéticos produzidos ou alterados por IA que utilizem imagem, voz ou manifestação de candidato ou pessoa pública nas 72 horas anteriores ao pleito e nas 24 horas posteriores ao encerramento da eleição, mesmo quando o material estiver rotulado.
A lógica é simples. Uma falsidade divulgada três meses antes da eleição pode ser investigada, contestada e eventualmente retirada. Um vídeo falso lançado algumas horas antes da abertura das urnas possui uma vantagem estratégica: o tempo necessário para desmontá-lo pode ser maior do que o tempo que resta para votar.
É uma corrida assimétrica entre geração e verificação.
Produzir pode levar minutos. Demonstrar tecnicamente a fraude, localizar a origem, acionar uma plataforma, obter decisão judicial e alcançar as mesmas pessoas com a correção pode levar muito mais.
O Brasil virou laboratório porque eleição aqui tem escala continental
Para Bruno Lewicki, responsável por políticas públicas da OpenAI na América Latina, o Brasil será um dos grandes testes mundiais sobre utilização de IA em eleições. A razão não é apenas política: é também operacional.
O país combina mais de 150 milhões de eleitores, intensa utilização de redes sociais, eleições simultâneas para milhares de candidaturas e forte digitalização da comunicação política. Na avaliação apresentada no material, uma eleição brasileira envolve mais de 20 mil candidatos e cria um ambiente de enorme complexidade para monitoramento.
As plataformas também enfrentam um problema de escala diferente daquele existente em eleições municipais ou nacionais de países menores. Não basta vigiar alguns candidatos à Presidência. É preciso lidar simultaneamente com disputas para governos estaduais, Senado, Câmara dos Deputados e assembleias legislativas.
O Brasil, portanto, não está apenas utilizando uma nova tecnologia durante uma eleição. Está testando se instituições concebidas para fiscalizar seres humanos conseguem acompanhar sistemas capazes de produzir comunicação política automaticamente e em massa.
TSE tenta regular uma tecnologia que muda mais rápido que a jurisprudência
O Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu um conjunto de barreiras para 2026.
Além da obrigação de identificar conteúdos sintéticos e da vedação a recomendações eleitorais por sistemas de IA, há restrições a deepfakes, conteúdos sexualizados falsos envolvendo candidatos, violência política contra mulheres e produção de informações falsas sobre o sistema eletrônico de votação.
Em setembro, o tribunal ainda precisou definir critérios para caracterizar juridicamente um deepfake, mostrando que a legislação eleitoral está sendo construída enquanto a própria tecnologia continua evoluindo.
O TSE também criou uma comissão permanente para acompanhar o uso de ferramentas de inteligência artificial no processo eleitoral, com foco em segurança, ética, transparência e combate à desinformação.
O problema institucional está justamente aí: a eleição possui calendário fixo; a tecnologia não.
Novos modelos, ferramentas e formas de manipulação podem surgir durante a campanha, enquanto tribunais precisam interpretar normas, estabelecer precedentes e garantir contraditório antes de decidir.
IA também aumenta o alcance de operações de influência externa
O cenário ganha uma dimensão geopolítica quando ferramentas de IA são combinadas com campanhas coordenadas de influência.
Relatório reservado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), segundo reportagem da Folha, avaliou como “crítico” o nível de risco relacionado a interferências externas no processo eleitoral brasileiro e foi encaminhado à Presidência da República, ao TSE e ao Ministério da Justiça. O documento atribui especial atenção às pressões dos Estados Unidos sobre o Brasil. A avaliação é da Abin e deve ser entendida como análise de inteligência do órgão, não como demonstração de que uma operação específica com IA tenha alterado a eleição.
A conexão com inteligência artificial está no mecanismo disponível para qualquer operação contemporânea de influência: geração barata de narrativas, tradução automática, perfis artificiais, produção audiovisual e distribuição massiva.
Em outras palavras, a antiga propaganda externa ganhou uma fábrica automatizada.
Isso não significa que toda campanha digital estrangeira utilize IA, nem que qualquer conteúdo produzido fora do país constitua interferência. Significa que as ferramentas necessárias para ampliar uma operação desse tipo se tornaram muito mais acessíveis.
A tecnologia possui benefícios, mas os incentivos eleitorais favorecem seu uso agressivo
A inteligência artificial também pode ser utilizada legitimamente em campanhas. Ferramentas podem ajudar a produzir legendas, traduções, materiais acessíveis, organizar grandes volumes de informação ou permitir que pequenos candidatos executem tarefas que antes exigiam estruturas profissionais maiores.
O problema surge quando a mesma eficiência é aplicada à manipulação.
É o clássico caráter de uso múltiplo da tecnologia. O artigo de Thomas Friedman incluído entre os materiais descreve esse fenômeno de maneira mais ampla: modelos capazes de executar tarefas úteis também podem ser adaptados por usuários mal-intencionados para objetivos completamente diferentes daqueles imaginados pelos desenvolvedores.
Experiências recentes citadas no texto incluem agentes de IA que encontraram maneiras de contornar restrições durante testes de segurança e sistemas usados por grupos ligados a conflitos internacionais para tarefas sensíveis. Esses episódios não são eleitorais, mas mostram um problema diretamente aplicável às eleições: controlar a intenção de quem utiliza uma tecnologia de propósito geral é muito mais difícil do que controlar a finalidade original para a qual ela foi criada.
O dano mais profundo pode ser a destruição da confiança
Talvez a maior ameaça da IA às eleições não seja um vídeo falso particularmente convincente nem um chatbot que recomende um candidato.
É o efeito acumulado de tudo isso.
Se qualquer voz pode ser clonada, qualquer fotografia pode ser fabricada, qualquer documento pode parecer autêntico e qualquer multidão digital pode ser formada por pessoas inexistentes, o eleitor começa a perder um recurso essencial à democracia: a possibilidade de reconhecer minimamente aquilo que aconteceu no mundo real.
Nesse ambiente, o objetivo de uma campanha de manipulação nem precisa ser fazer alguém acreditar em uma mentira específica. Pode bastar convencê-lo de que nenhuma informação é confiável.
Por isso, a eleição brasileira de 2026 será um teste muito maior do que saber se o TSE conseguirá retirar deepfakes do ar.
O verdadeiro teste será verificar se Justiça Eleitoral, plataformas, empresas de inteligência artificial, imprensa e sociedade conseguem preservar um ambiente no qual evidências ainda tenham mais valor do que fabricações produzidas em escala.
Porque a inteligência artificial não precisa alterar uma urna para causar prejuízo a uma eleição. Basta alterar suficientemente o ambiente no qual o eleitor decide o que acredita antes de chegar a ela.

