8 em cada 10 fiéis rejeitam política nas igrejas, mas líderes ainda insistem

Foto: Google

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A maioria dos brasileiros religiosos não quer transformar igrejas em extensão de campanhas eleitorais. Pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil, realizada pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser) em parceria com a Quaest, aponta que oito em cada dez entrevistados são contrários à discussão política nos espaços religiosos, enquanto nove em cada dez rejeitam que suas lideranças permitam a presença de candidatos nos templos. O contraste está no comportamento de parte dos próprios líderes, que continuam tentando orientar escolhas eleitorais de seus fiéis.

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Pesquisa ouviu 15 mil pessoas em todas as regiões

O levantamento ouviu 15 mil pessoas presencialmente em todas as regiões do país e busca medir como diferentes tradições religiosas influenciam valores, visões de mundo e comportamentos na vida pública. O projeto prevê disponibilização dos dados em plataforma aberta e foi concebido para produzir uma base nacional sobre religião e sociedade brasileira.

A pesquisa revela uma contradição particularmente útil para compreender as eleições de 2026. Embora os frequentadores demonstrem resistência à politização formal dos templos, a influência religiosa sobre o voto não desaparece. Ela pode ocorrer por meio da autoridade do pastor ou sacerdote, das redes sociais, das comunidades de mensagens e da associação entre determinadas candidaturas e valores religiosos.

Essa diferença ajuda a explicar por que rejeitar “política na igreja” não significa necessariamente separar completamente fé e decisão eleitoral.

Pastores orientaram voto nas eleições de 2022

Entre os entrevistados que disseram lembrar da orientação dada por sua liderança religiosa nas eleições presidenciais de 2022, 11% afirmaram ter recebido indicação para votar em Jair Bolsonaro e 5% em Luiz Inácio Lula da Silva. Entre evangélicos, a orientação pró-Bolsonaro chegou a 20%.

Em algumas denominações, o índice foi maior. Entre fiéis de igrejas pentecostais, grupo que no levantamento inclui denominações como Assembleia de Deus, Universal e Quadrangular, 23% disseram ter recebido de seu pastor indicação para votar em Bolsonaro. Na Igreja Universal, especificamente, o percentual apontado pelo material chega a 27%, enquanto 12% relataram recomendação por Lula.

Os números, porém, também mostram que a orientação religiosa não produz obediência eleitoral automática.

No Nordeste, apoio das lideranças não garantiu o voto evangélico

A própria pesquisa oferece um exemplo importante para a compreensão regional. Apesar do apoio público de diferentes lideranças evangélicas a Bolsonaro em 2022, Lula obteve 35% dos votos entre evangélicos no Nordeste no segundo turno, contra 38% de Bolsonaro nesse grupo, segundo os dados citados no material.

A diferença pequena entre os dois percentuais indica que a categoria “voto evangélico” não funciona como um bloco homogêneo. A antropóloga Lívia Reis, coordenadora da pesquisa no Iser, interpreta os resultados como expressão de uma correlação de forças dentro das igrejas, e não como simples comando do líder seguido mecanicamente pelos fiéis.

Para o Rio Grande do Norte, inserido numa região onde o eleitorado evangélico mostrou comportamento diferente de parte das principais lideranças nacionais em 2022, essa constatação possui peso especial. A religião pode influenciar o voto, mas fatores regionais, econômicos, partidários, familiares e sociais continuam concorrendo com essa influência.

O púlpito não é a única ferramenta política

Outro dado ajuda a explicar por que a rejeição à política dentro da igreja não encerra o problema. Segundo a pesquisa, apenas uma em cada cinco pessoas participa de grupos ou comunidades religiosas nas redes sociais. Entre as que participam, porém, 48% percebem atividade política nesses espaços.

Isso desloca parte da disputa eleitoral para fora do templo. A liderança que evita pedir votos diretamente durante o culto ainda pode compartilhar vídeos, mensagens, interpretações religiosas sobre questões públicas ou posições sobre candidatos em ambientes digitais frequentados pelos mesmos fiéis.

Pesquisadores ouvidos na reportagem de origem avaliam que essa influência pode ocorrer de forma indireta, por meio de discursos sobre aborto, drogas, segurança, família, moralidade e até sobre instituições como o Supremo Tribunal Federal. O eleitor não precisa ouvir a frase “vote em fulano” para identificar qual candidatura a liderança considera compatível com esses valores.

Templos têm limites eleitorais definidos pela Justiça

A legislação eleitoral também estabelece uma fronteira objetiva. Para fins de propaganda, templos religiosos são considerados bens de uso comum, ainda que sejam de propriedade privada. A Lei das Eleições inclui expressamente templos nessa categoria.

A jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral reforça essa restrição. Em decisão de março de 2026, o TSE considerou que discurso de caráter eleitoral dentro de templo pode configurar propaganda antecipada quando apresenta candidatura e propostas. Em outro precedente, a Corte reiterou que manifestação de apoio a candidatos em igreja pode ser irregular mesmo sem pedido explícito de votos.

Em agosto deste ano, o próprio TSE voltou a confirmar punição relacionada a propaganda eleitoral em templo religioso e ressaltou que a utilização desse espaço pode conferir posição privilegiada a determinada candidatura, comprometendo a igualdade da disputa.

A regra, contudo, não transforma qualquer manifestação política de um religioso em ilícito eleitoral. O ponto central está no uso do templo e de sua estrutura como ambiente de propaganda ou favorecimento eleitoral, e não na retirada dos direitos políticos de padres, pastores, sacerdotes ou fiéis.

A influência pode sobreviver mesmo quando o eleitor rejeita sua forma explícita

O resultado da pesquisa revela uma separação que tende a ganhar importância nas eleições de 2026. A maioria dos religiosos entrevistados rejeita candidatos dentro das igrejas e demonstra desconforto com a politização ostensiva do espaço religioso. Ao mesmo tempo, parte desses mesmos ambientes continua funcionando como rede de formação de valores, identidade e confiança.

É justamente essa combinação que torna a influência religiosa eleitoral mais difícil de medir. O poder de uma liderança não depende apenas de indicar nominalmente um candidato. Pode estar na capacidade de definir quais temas serão apresentados como moralmente prioritários, quais instituições serão vistas como ameaça ou proteção e quais escolhas políticas passarão a ser interpretadas também como escolhas de consciência.

Os dados do Iser e da Quaest sugerem, portanto, que o eleitor religioso brasileiro está menos disposto a aceitar campanha explícita dentro do templo do que parte do discurso político costuma pressupor. Mas isso não significa que religião tenha deixado de participar da formação do voto. Significa que essa influência ocorre por canais mais variados, e encontra limites cada vez mais claros tanto na vontade dos próprios fiéis quanto na legislação eleitoral.

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