Diagnósticos de autismo crescem, mas ciência ainda busca explicar por quê

Foto: Freepik

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O número de pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) aumentou de maneira intensa nas últimas décadas, mas interpretar esse avanço como uma “epidemia de autismo” simplifica um fenômeno muito mais amplo. Parte do crescimento decorre de mudanças nos critérios diagnósticos, maior conhecimento sobre o espectro e identificação de casos que antes passariam despercebidos. Ao mesmo tempo, a ciência continua investigando componentes genéticos e fatores ambientais capazes de alterar o risco de desenvolvimento do transtorno.

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Diagnósticos aumentaram milhares por cento em cinco décadas

A reportagem da Superinteressante recupera a trajetória histórica do autismo desde os primeiros casos descritos pelo psiquiatra Leo Kanner, na década de 1940, quando crianças com dificuldades acentuadas de interação social, comportamentos repetitivos e interesses muito específicos começaram a ser agrupadas em uma nova categoria clínica.

O quadro atual é radicalmente diferente. Nos Estados Unidos, dados citados no material indicam que uma em cada 31 crianças de 8 anos recebeu diagnóstico de autismo em levantamento recente do CDC. No Brasil, o Censo de 2022 registrou aproximadamente 2,4 milhões de pessoas autistas, incluindo adultos, enquanto entre crianças de determinadas faixas etárias a prevalência é muito superior à média da população.

A reportagem aponta que a incidência registrada cresceu cerca de cinco vezes em vinte anos e dezenas de vezes em relação às primeiras décadas de acompanhamento epidemiológico. Isso, porém, não significa necessariamente que houve aumento equivalente na quantidade real de pessoas autistas.

Uma das perguntas centrais passa justamente por separar duas coisas diferentes: quanto aumentou o autismo e quanto aumentou nossa capacidade de reconhecê-lo?

Vacinas não explicam o aumento do autismo

Uma das hipóteses que mais se espalharam socialmente também é aquela para a qual existe uma das evidências mais claras em sentido contrário.

A alegação de que vacinas poderiam provocar autismo ganhou projeção a partir de artigo publicado em 1998 pelo médico britânico Andrew Wakefield, que associava a vacina tríplice viral ao transtorno. O trabalho envolvia apenas 12 crianças e posteriormente foi descoberto que continha manipulação de dados e conflitos de interesse. O artigo foi retirado e Wakefield perdeu sua licença médica no Reino Unido.

Desde então, estudos realizados com milhões de crianças não encontraram associação causal entre vacinação e autismo. O próprio material destaca pesquisas comparando grupos vacinados e não vacinados sem identificar aumento de risco decorrente das imunizações.

O episódio Wakefield deixou, entretanto, uma herança duradoura: uma hipótese cientificamente desacreditada continuou circulando muito depois de sua base original ter desmoronado.

Genética possui papel central, mas não existe “o gene do autismo”

O TEA possui forte componente genético, mas isso não significa que exista uma única alteração responsável pelo transtorno.

Pesquisas já identificaram mais de mil variantes genéticas relacionadas ao autismo, segundo o material. Algumas possuem influência maior, outras alteram apenas discretamente a probabilidade de desenvolvimento do transtorno. O resultado pode ser entendido como uma combinação de predisposições diferentes, capazes de produzir manifestações bastante distintas entre indivíduos.

Estudos envolvendo irmãos ajudam a demonstrar esse componente familiar. A reportagem cita pesquisas de neuroimagem com bebês considerados de “alto risco” por terem irmãos mais velhos autistas, nas quais determinadas regiões do cérebro apresentaram padrões diferentes de crescimento ainda no primeiro ano de vida. Parte dessas crianças recebeu posteriormente diagnóstico de TEA.

Isso também ajuda a explicar por que o autismo pode apresentar diferenças enormes de uma pessoa para outra. O mesmo diagnóstico pode envolver desde indivíduos independentes, com dificuldades sociais discretas, até pessoas que necessitam de apoio permanente para atividades básicas.

Fatores ambientais são investigados antes e durante a gestação

Quando pesquisadores falam em “fatores ambientais”, o termo não significa apenas poluição ou produtos químicos. Ele abrange influências não genéticas capazes de atuar durante o desenvolvimento fetal ou nos primeiros períodos da vida.

Entre os fatores analisados aparecem determinadas condições durante a gravidez, exposição a algumas substâncias, infecções maternas, utilização de medicamentos específicos e idade dos pais.

O material cita, por exemplo, associação entre exposição fetal ao ácido valproico, medicamento utilizado contra epilepsia, e maior probabilidade de autismo. Pesquisas também estudaram antidepressivos, pesticidas e outras exposições, embora os resultados apresentem graus muito diferentes de evidência.

Há uma distinção decisiva nesse campo: muitos desses trabalhos são observacionais. Encontrar maior frequência de autismo em determinado grupo não demonstra automaticamente que a exposição analisada tenha causado o transtorno.

A própria predisposição genética da mãe, doenças que levaram ao uso de determinado medicamento ou outros fatores associados podem interferir nos resultados. Por isso, algumas associações inicialmente observadas perdem força quando pesquisas posteriores controlam melhor essas variáveis.

Idade dos pais aparece associada ao risco

Outra variável estudada é a idade materna e paterna.

Pesquisas citadas pela reportagem encontraram aumento estatístico da ocorrência de TEA entre filhos de pais ou mães mais velhos. Uma grande análise envolvendo milhões de crianças identificou risco maior especialmente nas faixas etárias parentais mais altas.

Uma das hipóteses é que mutações genéticas espontâneas possam se acumular nas células reprodutivas com a idade, especialmente no caso paterno.

Ainda assim, aumento de risco não significa determinação. A maioria dos filhos de pais mais velhos não desenvolve autismo, da mesma forma que o diagnóstico ocorre também entre crianças de pais jovens.

Prematuridade também aparece nas pesquisas como fator associado. Uma metanálise citada no material encontrou frequência superior de autismo entre indivíduos nascidos prematuramente em comparação com a população geral.

Parte do crescimento está no próprio diagnóstico

Talvez a engrenagem mais importante para compreender a chamada “era do autismo” esteja na transformação do próprio conceito clínico.

Durante décadas, o diagnóstico foi reservado principalmente a quadros bastante evidentes. Pessoas capazes de estudar, trabalhar, falar normalmente ou manter determinada autonomia podiam atravessar a vida sem serem reconhecidas como autistas.

A incorporação da ideia de espectro mudou esse cenário. O diagnóstico passou a reunir manifestações anteriormente separadas e diferentes níveis de necessidade de suporte.

O DSM, manual diagnóstico utilizado internacionalmente, passou a trabalhar com três níveis de apoio: pessoas que necessitam de suporte, aquelas que precisam de apoio substancial e indivíduos que demandam apoio muito substancial. Essa classificação procura reconhecer que compartilhar um diagnóstico não significa possuir as mesmas capacidades ou necessidades.

Pesquisadores mencionados no material apontam ainda outro efeito: pessoas que décadas atrás receberiam diagnósticos de deficiência intelectual, dificuldades específicas de linguagem ou outras condições passaram a ser corretamente identificadas dentro do espectro.

Assim, uma parcela do aumento estatístico pode representar mudança de classificação, e não necessariamente surgimento de novos casos.

Mulheres e adultos ficaram invisíveis durante décadas

A ampliação do conhecimento também permitiu identificar grupos historicamente subdiagnosticados.

Durante muito tempo, o modelo clínico de autismo foi construído sobretudo a partir da observação de meninos. Mulheres podem manifestar características de maneira diferente e desenvolver estratégias de camuflagem social, aprendendo comportamentos para imitar interações consideradas típicas e esconder dificuldades.

Esse mecanismo pode retardar diagnósticos até a adolescência ou idade adulta.

O mesmo ocorre com pessoas que possuem boa capacidade intelectual, linguagem desenvolvida e vida profissional funcional. Dificuldades com estímulos sensoriais, comunicação social, rotinas ou interpretação de códigos sociais podem ter sido tratadas durante anos como traços de personalidade, ansiedade, timidez ou excentricidade.

Parte da explosão contemporânea dos diagnósticos, portanto, pode representar menos o surgimento de uma condição nova e mais a descoberta tardia de pessoas que sempre estiveram dentro do espectro.

Diagnóstico não pode virar receita automática de tratamento

O crescimento da identificação do TEA cria outro problema: como atender um grupo extremamente heterogêneo sem transformar diagnóstico em protocolo industrial.

O material destaca que a avaliação é essencialmente clínica e exige observação do desenvolvimento, comportamento e histórico da pessoa. Não existe exame sanguíneo ou marcador cerebral isolado capaz de confirmar autismo da mesma forma que um teste laboratorial diagnostica determinadas doenças.

Entre as intervenções utilizadas estão terapia ocupacional, fonoaudiologia, psicoterapia e abordagens comportamentais. A reportagem menciona a Análise do Comportamento Aplicada (ABA) como uma das técnicas com maior produção científica, mas também registra críticas e a necessidade de personalização das terapias.

Esse ponto é especialmente sensível porque transformar o espectro em uma única receita terapêutica contradiz a própria lógica do diagnóstico: pessoas diferentes podem possuir necessidades radicalmente diferentes.

O desafio seguinte é transformar diagnóstico em inclusão

O crescimento dos diagnósticos produz consequências que ultrapassam consultórios. Escolas, universidades, empresas e serviços públicos passam a conviver com uma população autista que antes muitas vezes permanecia invisível.

Segundo a reportagem, cerca de 2% das pessoas diagnosticadas com TEA no Brasil são adultas identificadas apenas nos últimos anos, reflexo de uma geração que cresceu em uma época na qual os critérios eram mais restritos e o conhecimento sobre o espectro era menor.

Reconhecer essas pessoas, porém, resolve apenas uma parte do problema. O diagnóstico precisa ser acompanhado de adaptações proporcionais às necessidades individuais, desde ambientes escolares menos hostis a estímulos até políticas de inclusão profissional.

A evolução científica mudou a pergunta. Durante décadas, o esforço esteve concentrado em descobrir quem era autista. Agora, à medida que o espectro se torna mais visível, outra questão se impõe: o que escolas, famílias, sistemas de saúde e a própria sociedade farão com esse conhecimento?

O aumento dos diagnósticos não possui uma explicação única. Há genética, possíveis influências ambientais, mudanças demográficas, critérios mais amplos e uma capacidade muito maior de reconhecer manifestações anteriormente ignoradas. A chamada “era do autismo” pode ser, em boa medida, também a era em que finalmente começamos a perceber quantas formas diferentes de desenvolvimento humano sempre estiveram ao nosso redor

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