Zuenir Ventura morre aos 95 e deixa o Brasil contado em reportagens

Foto: André Lessa

Publicidade

Zuenir Ventura morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, vítima de pneumonia, segundo a Academia Brasileira de Letras (ABL). Em mais de seis décadas de carreira, o jornalista, escritor e imortal construiu uma obra na qual a reportagem não terminava na notícia: servia para compreender o país, seus conflitos e as forças sociais por trás deles. O corpo será velado nesta quarta-feira na sede da ABL, no Rio de Janeiro, e enterrado no mausoléu da instituição, no Cemitério São João Batista.

📳Clique aqui para seguir o canal do JOL RN no WhatsApp

O jornalista que chegou à reportagem pelo arquivo

Nascido em 1º de junho de 1931, em Além Paraíba, Minas Gerais, Zuenir mudou-se aos 11 anos com a família para Nova Friburgo. Filho de um pintor de paredes e de uma dona de casa, trabalhou ainda jovem e chegou ao Rio de Janeiro aos 20 anos para cursar Letras Neolatinas na então Universidade do Brasil, atual UFRJ.

O jornalismo entrou em sua vida quase por uma porta lateral. Na faculdade, teve professores como Manuel Bandeira, Alceu Amoroso Lima e Cleonice Berardinelli. Por indicação, conseguiu uma vaga como arquivista na Tribuna da Imprensa. Não demoraria a trocar os arquivos pela redação.

A passagem decisiva ocorreu quando Carlos Lacerda procurava alguém para escrever sobre a morte de Albert Camus. Zuenir, admirador do escritor franco-argelino, apresentou-se para a tarefa. Aquele texto ajudou a revelar uma vocação que o acompanharia pelo restante da vida: encontrar personagens, ouvi-los e reconstruir acontecimentos a partir do contato direto com a realidade.

Nas décadas seguintes, passou por algumas das redações que marcaram a imprensa brasileira, entre elas Correio da Manhã, O Cruzeiro, Visão, Veja, IstoÉ e Jornal do Brasil. Foi editor, chefe de reportagem, diretor e professor, mas preservou uma concepção muito particular do ofício: reportagem se fazia principalmente fora da redação.

1968 virou livro porque Zuenir tentou entender o que havia vivido

A obra que projetou definitivamente seu nome para além do jornalismo diário foi 1968: O ano que não terminou, publicada em 1988. O livro reconstruiu um período atravessado pela repressão da ditadura militar, por mudanças culturais e pela mobilização política. Duas décadas depois dos acontecimentos, Zuenir tratou aquele ano não como uma sequência de datas, mas como uma chave para compreender o Brasil que surgira dali.

A narrativa passa pelo assassinato do estudante Edson Luís, pela Passeata dos Cem Mil e pela decretação do AI-5, em dezembro de 1968. A obra alcançou leitores muito além do circuito jornalístico e também inspirou a minissérie Anos Rebeldes, exibida pela TV Globo em 1992.

O próprio Zuenir considerava que 1968 havia escapado da condição de simples data. Décadas depois, continuava vendo naquele período um personagem que insistia em permanecer na vida política e cultural brasileira. Essa percepção ajuda a explicar seu método: os fatos eram matéria-prima, mas a reportagem precisava descobrir o que permanecia depois deles.

Em 2008, ele retornaria ao período em 1968: O que fizemos de nós. Dessa vez, investigou o que sobrevivera dos valores, comportamentos e rupturas daquela geração, passando por feminismo, movimento negro, movimento gay, ambientalismo, drogas e mudanças nos costumes.

Chico Mendes mostrou a dimensão investigativa de sua obra

Outro momento decisivo veio após o assassinato do seringueiro e líder ambientalista Chico Mendes, morto em dezembro de 1988. Em 1989, Zuenir passou cerca de um mês apurando o caso para o Jornal do Brasil. O resultado foi uma série de reportagens que recebeu os prêmios Esso e Vladimir Herzog de Jornalismo.

A investigação não ficou presa às páginas do jornal. O material foi posteriormente ampliado e transformado em Chico Mendes: Crime e castigo, lançado em 2003. O percurso sintetizava uma característica de sua produção: acompanhar o acontecimento, reconstruir as circunstâncias e depois retornar ao caso com o distanciamento necessário para compreender suas consequências.

Essa passagem da notícia para o livro não representava abandono do jornalismo. Era o prolongamento da reportagem. O fato imediato fornecia o ponto de entrada; a investigação procurava as relações sociais, políticas e humanas que explicavam por que aquele fato havia acontecido.

Cidade partida transformou o Rio em diagnóstico social

Esse método atingiu outra de suas formas mais conhecidas em Cidade partida, publicado em 1994. O livro voltou-se para Vigário Geral, na Zona Norte do Rio, onde uma chacina havia deixado 21 mortos no ano anterior. Zuenir visitou repetidamente a comunidade e acompanhou moradores e organizações que atuavam contra a violência.

O resultado ultrapassou a reconstrução da chacina. O livro investigou as barreiras econômicas e sociais que separavam territórios de uma mesma cidade e ajudavam a produzir experiências radicalmente diferentes de cidadania. Cidade partida recebeu o Prêmio Jabuti no próprio ano de sua publicação.

Ali aparece com nitidez uma marca que percorreu boa parte de sua obra. Zuenir usava personagens para tornar estruturas visíveis. A comunidade, o seringueiro, o estudante assassinado ou a geração de 1968 nunca eram apenas personagens isolados. Funcionavam como portas de entrada para processos maiores.

A rua como método e a reportagem como memória

Zuenir costumava defender que nenhuma tecnologia substituía o contato direto entre repórter e fonte. “Nada substitui o olho no olho”, afirmou em entrevista à Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo. Também descreveu o jornalismo como uma espécie de garimpagem: o repórter recolhe a matéria-prima sobre a qual, muitas vezes, historiadores trabalharão depois.

Essa talvez seja uma das chaves para compreender a permanência de seus livros. Zuenir cobriu acontecimentos destinados a envelhecer rapidamente na lógica cotidiana da imprensa, mas procurou neles aquilo que sobrevivia à manchete. 1968 não permaneceu apenas porque registrou um ano. Cidade partida não permaneceu apenas porque retratou uma chacina. A investigação sobre Chico Mendes não permaneceu apenas porque esclareceu circunstâncias de um assassinato.

Os livros continuaram circulando porque tentavam responder à pergunta que vem depois da notícia: o que esse acontecimento revela sobre o país que o produziu?

Ao morrer aos 95 anos, Zuenir Ventura deixa uma obra construída justamente nessa fronteira entre jornalismo, literatura de não ficção e memória social. A notícia era o começo. Sua ambição intelectual estava no passo seguinte: sair da redação, observar, ouvir e voltar com algo que ajudasse o leitor a enxergar um Brasil que, muitas vezes, estava diante dos olhos, mas ainda não havia sido compreendido.

Sair da versão mobile