Vídeos sem relação aparente com a violência anunciada servem de ponto de entrada para a venda de material de abuso sexual infantil. Nos comentários do TikTok, criminosos atraem interessados e os direcionam ao Telegram, onde ocorre a negociação. A prática foi identificada pelo g1, que acompanhou mais de 30 perfis durante semanas.
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Dos comentários à negociação
O g1 encontrou ao menos 35 links publicados no TikTok que levavam à oferta do material, a maioria deles com destino ao Telegram. A reportagem identificou pagamentos por Pix e anúncios de pacotes a partir de R$ 10. Em uma das páginas examinadas, interessados eram incentivados a divulgar o esquema em troca de acesso gratuito — um mecanismo que transformava potenciais compradores em divulgadores.
As publicações continham mensagens em português e espanhol, mas isso não permite determinar onde estão os responsáveis pelas contas. Também não há base para afirmar que todos os perfis observados pertençam ao mesmo grupo criminoso. O que a investigação documenta é um percurso recorrente: a oferta aparece numa rede de vídeos e a negociação prossegue em outro aplicativo.
Denúncias anteriores mostram a persistência dos canais
Em agosto, antes da publicação da investigação do g1, a SaferNet apresentou à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) um levantamento de 14.969 endereços únicos do Telegram denunciados entre 2017 e 2026. Na verificação feita pela entidade, 1.958 ainda estavam ativos. Desses, 1.093 apresentavam indícios de violência sexual contra crianças e adolescentes no título público ou no texto da denúncia.
Há uma distinção necessária: a SaferNet consultou a camada pública dos endereços, sem entrar em grupos privados ou examinar seus arquivos. Portanto, os 1.093 registros não equivalem a 1.093 casos de conteúdo criminoso confirmado, nem podem ser somados aos links encontrados pelo g1 como se fossem a mesma amostra. O levantamento mostra que denúncias sobre a plataforma permanecem ativas ao longo do tempo; cabe às autoridades apurar cada caso.
O que dizem as plataformas
Procurado pelo g1, o TikTok afirmou que remove as publicações e bane as contas envolvidas. O Telegram disse proibir esse material e declarou ter excluído mais de 300 mil grupos e canais relacionados a ele em 2026. São respostas das empresas; os totais informados não permitem saber se os endereços específicos encontrados pela reportagem foram removidos, por quanto tempo ficaram acessíveis ou se voltaram a circular por outras contas.
A passagem entre aplicativos é parte do problema revelado pela apuração. Retirar uma publicação no TikTok pode interromper aquela divulgação, mas a oferta também depende dos espaços em que prosseguem o contato e a venda. O incentivo identificado pelo g1 para que interessados compartilhassem links aumenta a possibilidade de novas divulgações mesmo depois da remoção de uma postagem.
A lei exige prevenção e comunicação às autoridades
Em vigor desde março de 2026, o ECA Digital determina que fornecedores de serviços de tecnologia removam e comuniquem às autoridades conteúdos detectados de aparente exploração ou abuso sexual de crianças e adolescentes. A lei também prevê a conservação dos dados associados às notificações pelo prazo legal, para subsidiar a apuração. A existência de uma oferta criminosa, por si só, não estabelece que determinada empresa descumpriu a norma em um caso específico; isso exige investigação e exame de sua atuação.
Desde agosto, a ANPD monitora as medidas adotadas por plataformas que incluem TikTok e Telegram. No aplicativo de mensagens, essa análise abrange canais e grupos públicos, não conversas privadas. A agência examina os mecanismos das empresas em escala sistêmica; a investigação das pessoas envolvidas na venda cabe às autoridades policiais. A distinção ajuda a explicar por que enfrentar a divulgação pública e apurar as negociações exigem atuações diferentes e coordenadas.
Como denunciar
Quem encontrar uma oferta desse tipo deve denunciar a publicação à plataforma, sem acessar, salvar ou compartilhar o material. A denúncia também pode ser feita pelo canal anônimo da SaferNet ou pelo Disque 100. Havendo uma criança ou adolescente em risco imediato, a orientação do Ministério dos Direitos Humanos é acionar a Polícia Militar pelo 190.





























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