Foi preciso que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) dissesse em voz alta o que deveria ser óbvio: nenhum líder religioso tem procuração divina para escolher o candidato de seus fiéis. Em suas orientações para as eleições de 2026, a entidade afirmou que não indica partidos nem candidatos. Bispos da Amazônia foram ainda mais diretos ao condenar pedidos de voto em nome de Deus. Num país onde há púlpitos tratados como palanques, esse recado bate à porta de uma festa que já passou de todos os limites.
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A chantagem começa quando o pastor decide quem é cristão
O problema vai muito além de um religioso declarar preferência política. Ele aparece quando a autoridade espiritual é usada para constranger quem discorda: o fiel passa a ouvir que determinada escolha eleitoral compromete sua identidade cristã, sua fidelidade a Deus ou até sua salvação. Discordar do pastor vira, por conveniência, discordar do céu. Isso não é orientação de consciência. É pressão sobre ela.
A encenação pode ser discreta. Convida-se um candidato ao culto, abre-se o microfone, faz-se uma oração e, antes que a celebração termine, alguém explica que só aquela pessoa defenderia as famílias ou protegeria a nação. A frase “não quero influenciar o voto de ninguém” não apaga o que veio antes nem o que virá depois. Segundo a jurisprudência reunida pelo Tribunal Superior Eleitoral, manifestações de apoio a candidatos em templos podem configurar propaganda eleitoral irregular mesmo sem pedido explícito de voto. Orar por uma autoridade é uma coisa; transformar a igreja em comitê de campanha é outra.
Quando a “profecia” escolhe candidato, quem fala por Deus?
O abuso também ganhou audiência fora dos templos. Em documentário da BBC News Brasil sobre religião e bolsonarismo, aparecem os casos de Valdirene Moreira, Reginaldo Rolim e Marcelo de Carvalho, cujas mensagens associaram supostas revelações espirituais aos rumos da política nacional. Rolim descreveu uma eleição vencida por Bolsonaro apesar do resultado anunciado em favor de Lula. Carvalho difundiu previsões sombrias sobre o país após a derrota do ex-presidente. A reportagem registrou suas falas e, no caso de Carvalho, também sua resposta às perguntas do jornalista.
É legítimo crer em profecias. O que ninguém é obrigado a aceitar é que uma preferência eleitoral seja apresentada como revelação incontestável, dispensando exame dos fatos e transformando adversários em inimigos de Deus. Quanto mais grave a afirmação feita em nome do sagrado, maior deveria ser a responsabilidade de quem a pronuncia. O título de pastor não torna uma previsão imune à verdade, nem dá ao seu autor o direito de governar a consciência alheia pelo medo.
Os bispos devolveram ao eleitor a pergunta certa
A mensagem eleitoral da CNBB, divulgada em junho, propõe que o eleitor examine a trajetória dos candidatos, seus compromissos e as consequências de suas propostas. Também alerta para corrupção, compra de votos, desinformação e ataques às instituições democráticas. Em setembro, a presidência da conferência reiterou o respeito à Constituição, à soberania nacional e ao voto livre de manipulação e de instrumentalização da fé.
Os bispos do Regional Norte 1, que reúne Amazonas e Roraima, levaram esses critérios à realidade amazônica. Falaram de pobreza, proteção ambiental, direitos dos povos da região e responsabilidade de acompanhar os eleitos depois da votação. O cardeal Leonardo Steiner resumiu o princípio em artigo publicado pela Arquidiocese de Manaus: a Igreja Católica não tem partido, mas tem causas — o Evangelho e os necessitados.
Eis o ponto que incomoda quem se acostumou a vender orientação de voto como se fosse doutrina: defender os pobres, a democracia e a soberania do Brasil não equivale a entregar um santinho ao eleitor. Equivale a exigir que ele observe o que cada candidato faz com o poder. Quem pedir o voto em nome da família precisa responder como suas propostas afetam as famílias reais, inclusive as que passam fome, trabalham em condições indignas ou vivem sob violência. Quem se disser patriota precisa explicar a quem servirão as riquezas do país e como reagirá à pressão de interesses estrangeiros.
A coragem de hoje não apaga a memória de ontem
Reconhecer a firmeza da CNBB agora não exige santificar toda a história da Igreja Católica. Parte do episcopado apoiou o golpe de 1964; religiosos católicos também se tornaram vozes decisivas contra a tortura e a ditadura. Dom Paulo Evaristo Arns e o pastor presbiteriano Jaime Wright trabalharam juntos no projeto Brasil: Nunca Mais. Essa memória impede duas fraudes: fingir que toda a Igreja acertou sempre e tratar os evangélicos, indistintamente, como cúmplices do uso político da fé.
A divisão que importa atravessa as denominações. De um lado estão líderes dispostos a formar consciências livres, inclusive quando isso contraria seus candidatos preferidos. Do outro, os que querem fiéis obedientes o bastante para repetir um voto, mas nunca independentes o bastante para questioná-lo. A autoridade religiosa revela seu caráter justamente quando respeita a liberdade de quem poderia pressionar.
O púlpito não é dono da urna
A manifestação dos bispos não fez desaparecer a manipulação religiosa, tampouco prova que seus opositores tenham ficado em silêncio. Fez algo mais difícil de contornar: expôs a pergunta que todo cabo eleitoral de púlpito preferiria evitar. Se o candidato que ele promove deve ser aceito em nome da fé, por que não poderia ser julgado por sua relação com a verdade, com os pobres, com a democracia e com a soberania brasileira?
A imagem das escamas caindo dos olhos de Paulo, no caminho de Damasco, ajuda a expressar a força desse chamado à lucidez. O eleitor continua livre para votar à direita, à esquerda ou em qualquer outra opção. O que não lhe cabe é entregar a outra pessoa — ainda que ela segure uma Bíblia e fale de cima de um altar — a responsabilidade moral por seu voto. A fé pode iluminar a consciência. Quem tenta substituí-la por uma ordem de votação já trocou o serviço a Deus pelo serviço a uma campanha.






























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