Após 26 anos de negociação, o acordo entre Mercosul e União Europeia entrou em vigor eliminando tarifas para mais de 80% das exportações brasileiras ao bloco europeu já na fase inicial . A medida reduz custos para empresas exportadoras. O acesso ao mercado europeu se amplia de forma imediata.
Esse tipo de abertura comercial, no entanto, beneficia principalmente setores que já operam voltados ao exterior, como indústria e agronegócio de larga escala, que passam a competir com menos barreiras . O ganho não é distribuído igualmente. Ele depende da estrutura produtiva pré-existente.
Esse modelo cria um sistema em que regiões com baixa inserção no comércio internacional, como o Rio Grande do Norte, tendem a capturar menos benefícios diretos no curto prazo, já que o estado possui menor presença nos setores mais favorecidos pelo acordo. O mercado se abre. Nem todos conseguem acessar.
Indústria exportadora concentra ganhos iniciais
Dados do próprio acordo indicam que cerca de 93% dos produtos com tarifa zerada na largada são bens industriais, incluindo máquinas, equipamentos e produtos químicos . A redução de custos ocorre diretamente na exportação. A competitividade aumenta.
Esse perfil favorece regiões com maior densidade industrial voltada ao exterior, especialmente no Sudeste e Sul do país, onde empresas já operam com escala internacional . A estrutura produtiva define quem ganha primeiro. O benefício acompanha quem já exporta.
No RN, onde a indústria tem menor peso e é mais orientada ao mercado interno, o impacto tende a ser indireto e mais lento, já que poucas empresas locais participam desse circuito exportador. O ganho não desaparece. Ele demora a chegar.
Agro exportador cresce, mas fora do eixo local
O acordo também amplia o acesso europeu para produtos agrícolas como carnes, açúcar, café e óleos vegetais, que passam a entrar com menos restrições tarifárias . A demanda externa aumenta. O volume exportado tende a crescer.
Esses setores estão concentrados principalmente no Centro-Oeste e no Sul do país, onde há produção em larga escala voltada à exportação. O ganho segue a geografia da produção. O mercado externo absorve esses polos.
No Rio Grande do Norte, apesar da presença de atividades como fruticultura e produção de sal, a participação no comércio europeu ainda é limitada em comparação com outras regiões, o que reduz o impacto direto do acordo sobre a economia local. O potencial existe. A inserção ainda é parcial.
Importações mais baratas podem beneficiar empresas locais
O acordo também reduz tarifas sobre produtos europeus importados, como máquinas, equipamentos e insumos industriais, que podem ficar mais acessíveis ao longo do tempo . O custo de produção pode cair. A eficiência tende a aumentar.
Para empresas do RN, isso abre a possibilidade de modernização com tecnologia mais barata, mesmo sem exportar diretamente para a Europa. O benefício ocorre pelo lado da produção. O impacto é indireto.
Esse mecanismo cria um sistema em que regiões menos exportadoras podem se beneficiar como consumidoras de tecnologia, desde que tenham capacidade de investimento para incorporar esses insumos. O ganho depende de capital. Não é automático.
Concorrência externa pressiona mercado interno
Ao mesmo tempo, o acordo permite a entrada progressiva de produtos europeus no Brasil com redução de tarifas, o que aumenta a competição no mercado interno . A proteção diminui. A disputa aumenta.
Setores menos competitivos, especialmente aqueles voltados ao consumo interno, tendem a enfrentar maior pressão de produtos europeus com maior valor agregado e padrão tecnológico . A concorrência não é imediata. Ela cresce ao longo dos anos.
No RN, isso afeta pequenas indústrias e produtores locais que não operam com escala ou tecnologia comparável, criando risco de perda de mercado dentro do próprio estado. O impacto não vem pela exportação. Ele vem pela entrada de concorrentes.
Impacto será gradual e desigual
Estimativas indicam que o impacto do acordo no PIB brasileiro deve variar entre 0,3% e 0,5% até 2040, com efeitos concentrados em setores mais ligados ao comércio exterior . O crescimento é moderado. A distribuição é concentrada.
A implementação também ocorre de forma progressiva, com prazos que podem chegar a até 30 anos para eliminação total de tarifas em alguns segmentos . O efeito não é imediato. Ele se constrói ao longo do tempo.
Esse desenho reforça um sistema em que os benefícios são apropriados primeiro por regiões e setores já preparados para competir globalmente, enquanto economias locais como a do RN dependem de transformação estrutural para acessar essas oportunidades. O acordo abre o mercado. O sistema define quem consegue aproveitar.
RN depende de adaptação para não perder espaço
Se mantido, o acordo tende a ampliar a diferença entre regiões exportadoras e estados com menor inserção internacional, a menos que haja investimento em infraestrutura, tecnologia e acesso a mercados externos. O efeito não é automático. Ele exige adaptação.
No caso do Rio Grande do Norte, isso significa que os impactos dependerão menos do tratado em si e mais da capacidade local de reorganizar sua economia para competir fora do país ou resistir à concorrência interna ampliada. O acordo cria oportunidade e pressão ao mesmo tempo. O resultado depende da resposta do estado.

