Vergonha: falta de intérpretes limita acesso de alunos surdos na UFRN

Foto: Freepik

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Estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte iniciaram um abaixo-assinado cobrando a contratação de mais intérpretes de Libras e professores, após redução significativa na oferta desses profissionais dentro da instituição . A mobilização parte de alunos do curso de Letras. A demanda envolve acesso básico às aulas.

De acordo com a própria universidade, cerca de 45% dos tradutores intérpretes estão afastados de suas funções em razão da greve dos servidores técnico-administrativos, o que compromete diretamente o funcionamento de disciplinas em diferentes cursos . A redução não é marginal. Ela afeta quase metade da estrutura.

Esse cenário cria um sistema em que o acesso à educação para estudantes surdos deixa de ser contínuo e passa a depender da disponibilidade pontual de profissionais, transformando um direito garantido em uma condição instável. A aula existe. O acesso não é garantido.

Aulas são canceladas por falta de intérprete

Relatos de estudantes indicam que disciplinas têm sido suspensas quando não há intérprete disponível, impedindo o acompanhamento do conteúdo por alunos surdos . A ausência de um único profissional paralisa a atividade. O sistema não tem redundância.

Em alguns casos, mais de uma aula foi cancelada pela mesma razão, evidenciando que não há substituição imediata quando ocorre ausência ou afastamento de intérpretes . A falta não é compensada. O conteúdo se perde.

Como consequência, o calendário acadêmico deixa de ser uniforme para todos os alunos, criando uma diferença concreta no acesso ao ensino entre estudantes ouvintes e surdos. A aula ocorre para alguns. Para outros, ela não existe.

Acesso a outros cursos fica restrito

Estudantes surdos relatam dificuldade para cursar disciplinas fora da grade de Libras, já que a presença de intérpretes não está garantida em outros cursos da universidade . A limitação não é apenas na sala. Ela atinge a trajetória acadêmica.

Isso impede que esses alunos tenham acesso pleno às possibilidades de formação oferecidas pela instituição, restringindo sua circulação entre diferentes áreas do conhecimento . A escolha de curso fica condicionada. A mobilidade acadêmica diminui.

Esse mecanismo cria um sistema em que a inclusão formal não se traduz em acesso real, já que a ausência de estrutura limita, na prática, as opções disponíveis para estudantes surdos dentro da universidade. O direito existe. A execução falha.

Falta de professores amplia impacto

Além da ausência de intérpretes, estudantes apontam que disciplinas obrigatórias estão sem professores, o que agrava o quadro de interrupção das atividades acadêmicas . A falha não é isolada. Ela ocorre em múltiplas frentes.

O uso recorrente de professores substitutos, com contratos temporários, reduz a continuidade das atividades de ensino e pesquisa, já que esses profissionais não permanecem de forma estável na instituição . A rotatividade afeta a estrutura.

Como consequência, o sistema acadêmico perde capacidade de planejamento e acompanhamento de longo prazo, impactando não apenas aulas, mas também orientação de trabalhos e participação em projetos de pesquisa. O ensino ocorre. A continuidade não se sustenta.

Greve expõe dependência de estrutura limitada

A paralisação dos servidores técnico-administrativos, iniciada em fevereiro, revelou o grau de dependência da universidade em relação a esses profissionais para manter atividades essenciais, incluindo acessibilidade . O funcionamento não é autônomo. Ele depende da base técnica.

A interrupção de parte da força de trabalho mostrou que não há margem suficiente para absorver ausências sem impacto direto nas aulas e no atendimento aos estudantes. O sistema não tem reserva. Ele opera no limite.

Esse modelo cria um cenário em que qualquer paralisação ou afastamento gera efeito imediato no funcionamento acadêmico, especialmente em áreas que já operam com número reduzido de profissionais. A greve não cria o problema. Ela revela a fragilidade.

Universidade estuda ampliar quadro, mas sem prazo

A UFRN informou que possui atualmente 21 intérpretes de Libras, entre concursados e celetistas, e que estuda alternativas legais para ampliar o número de profissionais diante da demanda crescente . A estrutura existe. Ela é insuficiente.

No entanto, não há definição de prazo para contratação ou recomposição do quadro, o que mantém a incerteza sobre quando o atendimento poderá ser normalizado . A solução não é imediata. O problema permanece.

Se mantido, esse modelo tende a consolidar um sistema em que a inclusão de estudantes surdos depende de condições operacionais instáveis, sujeitas a cortes, greves e ausência de profissionais, o que compromete o acesso pleno ao ensino superior. O impacto não está apenas na aula cancelada, mas na limitação estrutural da trajetória acadêmica desses estudantes.

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