Vergonha potiguar: RN tem crescimento de 100% nos feminicídios em 2026

Foto: Freepik

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Feminicídios dobram no RN no início de 2026

O Rio Grande do Norte registrou aumento de 100% nos casos de feminicídio entre janeiro e março de 2026 em comparação com o mesmo período do ano passado. Segundo os dados divulgados, o estado contabilizou dez mulheres assassinadas em razão de violência de gênero no primeiro trimestre deste ano, alcançando o segundo maior crescimento proporcional do país, ao lado de Sergipe e Amazonas.

O avanço ocorre em um cenário nacional de aumento contínuo da violência letal contra mulheres. No Brasil, foram registrados 399 feminicídios no mesmo período, número 7,55% superior ao observado no primeiro trimestre de 2025. No caso potiguar, porém, o crescimento acelerado colocou o estado acima tanto da média regional quanto da média nacional em taxa de incidência.

Segundo os dados apresentados, a taxa de feminicídios no Rio Grande do Norte ficou em 1,15 caso para cada 100 mil habitantes. No Nordeste, o índice foi de 0,69, enquanto a média brasileira permaneceu em 0,75 caso por 100 mil habitantes.

Especialistas apontam agravamento da violência e não apenas aumento das notificações

Para a professora Ilana Lemos de Paiva, do Observatório da População Infantojuvenil em Contextos de Violência (Obijuv), ligado à Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o crescimento dos feminicídios não pode ser explicado apenas pelo aumento das notificações ou pela consolidação da tipificação penal do crime.

Segundo ela, os números refletem agravamento concreto da violência estrutural contra mulheres no estado. A pesquisadora aponta fatores como fortalecimento de discursos misóginos, naturalização do controle sobre a vida das mulheres e permanência de relações marcadas por violência doméstica e desigualdade de poder.

A análise desloca o debate da esfera exclusivamente criminal para um problema estrutural ligado à cultura de violência de gênero, às fragilidades da rede de proteção e à dificuldade histórica de prevenção contínua.

Feminicídio costuma ser etapa final de ciclos prolongados de violência

A professora afirma que o feminicídio raramente ocorre de forma isolada ou repentina. Segundo ela, os assassinatos geralmente aparecem ao final de trajetórias anteriores de violência psicológica, física e patrimonial, muitas vezes intensificadas durante processos de separação ou tentativa de rompimento da relação entre vítima e agressor.

Outro ponto destacado é a dificuldade de acesso rápido às medidas protetivas e aos serviços especializados de acolhimento às mulheres vítimas de violência. A pesquisadora sustenta que a insuficiência de políticas preventivas contínuas contribui diretamente para o agravamento do cenário no estado.

Essa dinâmica faz com que o feminicídio apareça não apenas como crime isolado, mas como consequência extrema de uma cadeia de violências frequentemente identificada antes do assassinato.

Estado tenta ampliar rede de proteção e descentralizar atendimento

A Secretaria de Estado das Mulheres, da Juventude, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos (Semjidh) afirmou que o cenário é considerado preocupante e relacionou o aumento dos feminicídios à persistência da violência doméstica, à misoginia e à dificuldade enfrentada por muitas mulheres para romper ciclos de agressão.

Segundo a pasta, o governo estadual vem ampliando ações voltadas ao fortalecimento da rede de proteção, incluindo descentralização de políticas públicas para municípios do interior, realização de conferências regionais e fortalecimento do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher.

A secretaria também informou que pretende ampliar campanhas educativas, formação de redes municipais de enfrentamento e políticas de autonomia econômica feminina, consideradas estratégicas para redução da dependência financeira de mulheres em situação de violência.

Especialistas defendem prevenção contínua e educação de gênero

Para pesquisadores da área, o enfrentamento ao feminicídio exige medidas que ultrapassem o endurecimento penal e avancem sobre prevenção social e cultural da violência contra mulheres. Entre as ações defendidas estão educação para igualdade de gênero, fortalecimento de serviços especializados, monitoramento mais ágil de medidas protetivas e produção contínua de dados públicos qualificados.

A pesquisadora Ilana Lemos também defende políticas voltadas ao trabalho preventivo com homens e masculinidades violentas, argumentando que o feminicídio não deve ser tratado apenas como problema individual das vítimas, mas como expressão de estruturas sociais que legitimam violência de gênero em diferentes espaços da sociedade.

O crescimento acelerado dos feminicídios no Rio Grande do Norte expõe a dificuldade do poder público em interromper ciclos contínuos de violência doméstica e evidencia como o aumento das mortes ultrapassa a esfera policial, atingindo diretamente áreas ligadas à assistência social, educação, saúde pública e proteção institucional das mulheres.

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