O RN está criando uma geração de motoristas sem aposentadoria

Foto: Freepik

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Os aplicativos viraram refúgio econômico de quem perdeu espaço no mercado formal

O crescimento dos aplicativos de transporte no Rio Grande do Norte deixou de ser fenômeno temporário há muito tempo. O que começou como renda complementar virou principal fonte de sobrevivência para milhares de trabalhadores expulsos do mercado formal ou incapazes de reingressar nele após os 40 anos.

Em Natal e em outras cidades do estado, cresce o número de motoristas acima dos 50 anos trabalhando jornadas extensas sem férias, proteção previdenciária robusta ou estabilidade mínima de renda. Muitos migraram para os aplicativos após demissões, fechamento de empresas, precarização salarial ou dificuldade de recolocação profissional.

A consequência invisível é que o RN pode estar formando uma geração inteira de trabalhadores envelhecendo dentro da informalidade digital.

O aplicativo oferece entrada rápida — e ausência completa de futuro

O modelo é sedutor porque exige baixa burocracia inicial. Com um carro financiado, aluguel de veículo ou automóvel próprio, o trabalhador consegue começar rapidamente. Em contextos de desemprego elevado, isso funciona como solução imediata.

Mas a sustentabilidade de longo prazo é outra história. O motorista assume combustível, manutenção, depreciação do veículo, seguro, acidentes e oscilações constantes do algoritmo. Trabalha muito para manter renda líquida frequentemente instável.

Enquanto isso, o vínculo formal praticamente desaparece. Não existe FGTS, plano de carreira ou aposentadoria estruturada pelo empregador.

A informalidade envelheceu junto com os trabalhadores

O dado mais preocupante talvez seja o envelhecimento desse contingente. Parte dos motoristas entrou nos aplicativos acreditando tratar-se de atividade provisória. Só que os anos passaram e muitos continuam presos ao mesmo modelo sem conseguir retornar ao mercado tradicional.

O problema previdenciário se aproxima rapidamente. Trabalhadores que passam décadas na informalidade ou contribuem irregularmente para o INSS podem chegar à velhice sem proteção suficiente.

Isso transforma os aplicativos não apenas em questão trabalhista, mas em futura bomba social ligada à assistência pública e à previdência.

A economia digital absorveu o desemprego estrutural brasileiro

Os aplicativos cresceram porque resolveram simultaneamente dois problemas. Deram mobilidade barata para consumidores urbanos e criaram ocupação imediata para trabalhadores descartados pelo mercado formal.

O problema é que a plataforma não resolve estruturalmente o desemprego. Ela apenas reorganiza a informalidade dentro de um ambiente digital sofisticado.

O motorista deixa de ter chefe visível, mas continua submetido a metas invisíveis impostas pelo algoritmo. Trabalha mais horas para compensar tarifas menores e aumento de custos operacionais.

O RN pode enfrentar uma crise silenciosa nas próximas décadas

A longo prazo, o estado pode se deparar com milhares de trabalhadores envelhecidos, endividados e sem proteção previdenciária consistente após décadas dirigindo em plataformas digitais.

O aplicativo solucionou emergencialmente uma crise de renda. Mas talvez esteja criando outra ainda maior para o futuro: uma massa de trabalhadores sem aposentadoria sólida depois de anos sustentando a própria sobrevivência dentro da informalidade algorítmica.

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