Os acidentes envolvendo motocicletas continuam sendo o principal fator de pressão sobre a rede pública de saúde do Rio Grande do Norte. Entre 2015 e 2025, motociclistas responderam por 74,9% das internações hospitalares por acidentes de trânsito realizadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no estado. No período, foram registrados 33.344 atendimentos de condutores e passageiros de motos, gerando um custo médio anual de aproximadamente R$ 8 milhões aos cofres públicos.
Os dados mostram que, das 44.503 internações provocadas por acidentes de trânsito contabilizadas na última década, praticamente três em cada quatro envolveram motocicletas. Mais do que um problema de mobilidade urbana, o cenário revela um impacto permanente sobre hospitais públicos, leitos de trauma, equipes médicas e recursos financeiros que poderiam estar destinados ao tratamento de outras doenças.
O levantamento evidencia que o crescimento da frota de motocicletas no estado foi acompanhado por uma demanda igualmente crescente por atendimento hospitalar. Em um sistema de saúde que já convive com limitações estruturais, acidentes evitáveis acabam disputando espaço com pacientes vítimas de infartos, AVCs, câncer e outras enfermidades que também dependem da rede pública.
Hospital Walfredo Gurgel concentra grande parte da demanda
Segundo o secretário estadual de Saúde, Alexandre Motta, os acidentes com motocicletas representam atualmente a maior parcela dos atendimentos relacionados a traumas na rede estadual.
Em entrevista à Band RN, o gestor afirmou que, no Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel — principal unidade de urgência e emergência do estado —, entre 80% e 90% dos acidentes de trânsito atendidos envolvem motociclistas. A situação contribui diretamente para a sobrecarga enfrentada pela unidade, frequentemente operando próxima do limite de sua capacidade.
A consequência vai além dos pacientes vítimas de acidentes. Quando leitos, equipes cirúrgicas e unidades de terapia intensiva permanecem ocupados por casos de trauma, toda a rede de atendimento sofre impactos, aumentando o tempo de espera para outros procedimentos de urgência.
Mudança no perfil dos acidentes
O secretário também chama atenção para uma mudança observada nas últimas décadas. Segundo ele, os acidentes envolvendo automóveis diminuíram em razão da evolução dos sistemas de segurança dos veículos, como airbags, cintos de segurança mais eficientes e melhorias estruturais na indústria automotiva.
Com isso, as motocicletas passaram a concentrar a maior parte dos casos graves atendidos pelos hospitais públicos. Na avaliação da Secretaria Estadual de Saúde, esse fenômeno transformou os acidentes com motos em um dos principais desafios da assistência hospitalar potiguar.
Essa mudança acompanha uma realidade observada em diversas regiões do país. Ao mesmo tempo em que a motocicleta se consolidou como alternativa de transporte de menor custo e ferramenta de trabalho para milhares de pessoas, também aumentou a exposição de condutores a acidentes com potencial elevado de provocar lesões graves.
Velocidade, entregas e imprudência aparecem entre os fatores de risco
De acordo com as informações apresentadas pela Secretaria de Saúde, parte significativa dos acidentes está associada a comportamentos de risco no trânsito.
Entre os fatores mencionados estão o excesso de velocidade, disputas ilegais em vias públicas, manobras conhecidas como “grau” e a pressão enfrentada por motociclistas que trabalham com entregas rápidas e aplicativos de transporte.
Embora cada ocorrência tenha causas específicas, o conjunto dos dados revela que uma parcela expressiva desses acidentes está ligada a situações que poderiam ser reduzidas por meio de fiscalização, educação para o trânsito e melhores condições de trabalho para profissionais que dependem da motocicleta como fonte de renda.
Impacto vai além do custo financeiro
Os cerca de R$ 8 milhões gastos anualmente pelo SUS representam apenas uma parte do impacto provocado pelos acidentes.
Cada internação envolve também afastamentos do trabalho, perda de renda familiar, necessidade de reabilitação física, cirurgias sucessivas e, em muitos casos, sequelas permanentes. Segundo os dados apresentados, a taxa média de mortalidade entre motociclistas hospitalizados foi de 2% durante o período analisado, sendo que 2020 registrou o maior número de mortes hospitalares, com 87 óbitos.
Esses números mostram que o problema não afeta apenas o orçamento público. Ele também produz consequências sociais duradouras para famílias que passam a conviver com incapacidades físicas, perda da capacidade laboral ou morte de seus provedores.
Prevenção custa menos que o tratamento
O levantamento reforça um desafio permanente para o Rio Grande do Norte. A expansão do uso da motocicleta exige que políticas públicas de mobilidade acompanhem essa transformação, combinando fiscalização, educação no trânsito, infraestrutura viária e ações voltadas aos profissionais que utilizam motos diariamente.
Cada acidente evitado representa não apenas economia para o Sistema Único de Saúde, mas também mais leitos disponíveis, menor pressão sobre hospitais como o Walfredo Gurgel e, principalmente, a preservação de vidas.
Em um estado onde a motocicleta se tornou parte essencial da mobilidade e da atividade econômica, reduzir os acidentes deixou de ser apenas uma questão de segurança viária. Tornou-se uma necessidade para garantir a sustentabilidade da rede pública de saúde e melhorar a qualidade do atendimento oferecido à população potiguar.

