Em um momento em que grande parte do consumo cultural é mediada por plataformas digitais e conteúdos produzidos em escala global, um lançamento literário em Natal propõe o movimento inverso: voltar às raízes para preservar aquilo que faz do Rio Grande do Norte um estado culturalmente singular.
Neste sábado (11), o cordelista Gélson Pessoa e o artista visual Erick Lima lançam o livro “A Lenda do Salto da Onça”, obra que resgata uma das narrativas mais tradicionais do imaginário popular potiguar por meio da literatura de cordel e da xilogravura. O evento acontecerá às 9h, na nova sede da Associação Cultural Casa do Cordel, na Cidade Alta.
A publicação reconta a história que explica a origem do apelido atribuído ao município de Santo Antônio, conhecido em todo o estado como “Terra da Onça”. Embora o nome oficial permaneça inalterado, a expressão “Salto da Onça” atravessou gerações e consolidou-se como elemento permanente da identidade local, mostrando como a tradição oral continua exercendo influência sobre a memória coletiva mesmo décadas depois de seu surgimento.
Mais do que um livro, uma estratégia de preservação cultural
A escolha do cordel e da xilogravura não possui apenas valor estético. Ambas as manifestações ocupam posição central na formação da identidade cultural nordestina e funcionam, historicamente, como instrumentos de transmissão de conhecimento, costumes e histórias populares. Ao reuni-las em uma única obra, os autores reforçam uma tradição que sempre ultrapassou o campo artístico para atuar também como mecanismo de preservação da memória social.
Durante muito tempo, o cordel desempenhou papel semelhante ao de um jornal popular no interior nordestino. Antes da popularização do rádio, da televisão e da internet, acontecimentos históricos, romances, acontecimentos políticos e lendas circulavam em versos impressos, permitindo que comunidades preservassem suas narrativas mesmo em regiões onde o acesso à educação formal era limitado. A xilogravura, por sua vez, tornou-se a linguagem visual que passou a identificar esse universo literário, transformando capas de folhetos em verdadeiros símbolos da cultura popular brasileira.
A disputa pela memória também acontece na cultura
O lançamento ocorre em um contexto no qual manifestações culturais regionais enfrentam um desafio permanente: permanecer vivas em uma sociedade cada vez mais conectada a referências produzidas fora de seus próprios territórios. A expansão das plataformas digitais ampliou o acesso à informação, mas também acelerou processos de homogeneização cultural, reduzindo o espaço destinado às narrativas locais.
Nesse cenário, iniciativas como “A Lenda do Salto da Onça” cumprem uma função que vai além da publicação de um livro. Elas ajudam a impedir que histórias transmitidas oralmente durante décadas desapareçam à medida que as novas gerações substituem referências comunitárias por conteúdos produzidos em escala global. Preservar uma lenda regional significa preservar também a forma como uma comunidade compreende sua própria origem, seu território e sua identidade.
O Agreste preserva um patrimônio que pertence a todo o Rio Grande do Norte
Embora a narrativa tenha origem em Santo Antônio, seu alcance ultrapassa os limites do município. A consolidação do apelido “Terra da Onça” demonstra como determinadas histórias deixam de pertencer exclusivamente ao lugar onde nasceram e passam a integrar o patrimônio simbólico de todo o estado. Esse processo explica por que muitas manifestações culturais do interior acabam se tornando referências para a identidade potiguar como um todo.
O Rio Grande do Norte possui dezenas de narrativas populares semelhantes, espalhadas por diferentes regiões e frequentemente preservadas apenas pela tradição oral. Quando essas histórias são registradas em livros, músicas, filmes ou obras visuais, elas deixam de depender exclusivamente da memória das comunidades e passam a integrar o patrimônio documental do estado. O lançamento do novo cordel dialoga justamente com esse movimento de registro e valorização da cultura popular.
Cultura também movimenta economia e fortalece territórios
O lançamento também evidencia um aspecto frequentemente negligenciado nas políticas públicas: a cultura popular produz impactos que ultrapassam o campo simbólico. Eventos como este movimentam artistas, escritores, ilustradores, editoras independentes e espaços culturais, fortalecendo cadeias econômicas ligadas à produção criativa.
No Rio Grande do Norte, iniciativas dessa natureza ajudam a consolidar segmentos como literatura, artes visuais, turismo cultural e economia criativa, áreas que vêm ganhando importância como instrumentos de desenvolvimento regional. Ao transformar tradições locais em produtos culturais, amplia-se não apenas a preservação da memória, mas também a geração de renda para profissionais que vivem da produção artística.
Lançamento reúne artistas do RN e da Paraíba
Além da apresentação do livro, a programação contará com a participação de poetas e artistas de diversas cidades do Rio Grande do Norte e da Paraíba, transformando o lançamento em um encontro dedicado à valorização da cultura popular nordestina. O evento será realizado na nova sede da Associação Cultural Casa do Cordel, localizada na Rua João Pessoa, nº 84, no bairro Cidade Alta, em Natal.
Mais do que celebrar uma lenda regional, o encontro reafirma que a preservação da identidade cultural depende de iniciativas capazes de registrar, divulgar e manter vivas histórias que, durante séculos, foram transmitidas apenas pela memória de seus próprios habitantes. Em um tempo marcado pela velocidade da informação e pela padronização dos conteúdos culturais, transformar essas narrativas em patrimônio acessível talvez seja uma das formas mais eficazes de garantir que o Rio Grande do Norte continue reconhecendo a si mesmo.
Serviço:
- Lançamento: A Lenda do Salto da Onça
- Data: Sábado, 11 de julho de 2026 – 09h
- Local: Nova sede da Associação Cultural Casa do Cordel – Rua João Pessoa, 84 – Cidade Alta
- Mais informações: @casa.docordel

