Em um cenário no qual algoritmos definem cada vez mais o que as pessoas leem, assistem e compartilham, a literatura potiguar propõe um movimento na direção oposta: fortalecer a memória regional por meio da palavra escrita. Nos dias 09 e 10 de julho, a Livraria Manimbu Arte e Cultura, em Natal, recebe a Maratona da Literatura Potiguar, iniciativa que reúne escritores, pesquisadores, leitores e agentes culturais para refletir sobre a produção literária do Rio Grande do Norte e discutir os caminhos da literatura produzida no estado.
A programação acontece durante a semana em que é celebrado o Dia Estadual da Literatura Potiguar e vai além da realização de palestras e mesas temáticas. O encontro propõe uma reflexão sobre o papel da literatura como instrumento de formação cidadã, preservação da memória coletiva e valorização das diferentes vozes que compõem a identidade cultural potiguar.
Literatura também preserva patrimônio cultural
Ao longo da história, livros, cordéis e poemas desempenharam um papel que ultrapassa o entretenimento. Eles registram costumes, documentam modos de vida e preservam narrativas que dificilmente sobreviveriam apenas pela tradição oral. Em um estado cuja formação cultural foi profundamente influenciada pelo sertão, pelo cordel, pela poesia popular e pelas manifestações folclóricas, fortalecer a literatura significa também proteger parte do patrimônio imaterial do Rio Grande do Norte.
Esse aspecto torna iniciativas como a Maratona da Literatura Potiguar especialmente estratégicas. Ao reunir autores de diferentes gerações e estilos, o evento amplia o diálogo entre tradição e produção contemporânea, evitando que a literatura regional permaneça restrita aos ambientes acadêmicos ou às estantes de pesquisadores. A proposta é aproximar leitores da produção local e estimular novas gerações a reconhecerem a riqueza cultural produzida dentro do próprio estado.
Programação reúne diferentes gerações e perspectivas
Durante os dois dias de atividades, o público acompanhará mesas-redondas, rodas de conversa, debates e homenagens envolvendo temas como literatura infantojuvenil, produção LGBTQIA+, literatura indígena, afro-brasileira, narrativas de cangaço e sertão, ficção especulativa, literatura de terror e a relação entre literatura e cinema. A diversidade temática demonstra que a produção potiguar ultrapassa há muito tempo os limites dos gêneros tradicionalmente associados à cultura nordestina.
A abertura contará com uma grande recitação coletiva reunindo nomes como Rosa Régis, João Andrade, Zé Martins, Lúcia Eneida, Adélia Costa, Hélio Gomes, Ivan Pinheiro e Damiana Gomes, além de uma homenagem aos 90 anos da Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANRL). A programação também reserva um momento especial para celebrar o centenário de nascimento do escritor, poeta e folclorista Deífilo Gurgel, referência na preservação da cultura popular potiguar.
Formar leitores continua sendo um desafio para o RN
Embora o Rio Grande do Norte possua uma produção literária reconhecida nacionalmente, ampliar o número de leitores permanece como um dos maiores desafios para o fortalecimento da cultura local. O acesso ao livro, a formação de leitores nas escolas e o incentivo à circulação de autores potiguares ainda enfrentam limitações que dificultam a consolidação de um mercado editorial regional mais robusto.
Nesse contexto, eventos como a Maratona cumprem uma função que vai além da agenda cultural. Eles criam espaços permanentes de encontro entre autores e leitores, fortalecem a circulação de obras produzidas no estado e estimulam a formação de novos públicos. Em vez de apenas divulgar livros, contribuem para consolidar uma cadeia cultural capaz de impulsionar escritores, editoras independentes, livrarias e pesquisadores.
A economia criativa também passa pelos livros
A literatura integra um setor cada vez mais valorizado dentro da economia criativa, segmento que reúne atividades baseadas na produção de conhecimento, arte e propriedade intelectual. Cada livro publicado movimenta uma cadeia formada por escritores, revisores, diagramadores, ilustradores, editoras, gráficas, livrarias e produtores culturais, gerando emprego, renda e circulação de conhecimento.
Para o Rio Grande do Norte, fortalecer esse ecossistema significa ampliar oportunidades para profissionais da cultura e reduzir a dependência de produções vindas de outros centros editoriais. Ao estimular a leitura e valorizar autores locais, eventos literários ajudam a manter viva uma produção cultural que também representa desenvolvimento econômico.
Memória, identidade e futuro caminham juntos
Ao reunir diferentes gerações de escritores, pesquisadores e leitores, a Maratona da Literatura Potiguar reafirma que preservar a memória não significa permanecer preso ao passado. Significa criar condições para que novas narrativas continuem sendo produzidas, sem romper o vínculo com a identidade construída ao longo da história.
Em um tempo marcado pela velocidade das redes sociais e pelo consumo instantâneo de informações, investir na literatura representa também investir na capacidade de reflexão, na preservação da cultura regional e na construção de uma sociedade que reconhece sua própria história. É justamente nesse encontro entre memória e criação que o Rio Grande do Norte encontra uma das formas mais consistentes de fortalecer sua identidade cultural.
Serviço:
Evento: Maratona da Literatura Potiguar
📅 Quando: 09 e 10 de julho de 2026
📍 Onde: Livraria Manimbu Arte e Cultura – Natal-RN
🎟 Entrada: Gratuita
Programação em destaque:
- Recitação coletiva com escritores e poetas potiguares;
- Homenagem aos 90 anos da Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANRL);
- Mesa especial em homenagem ao centenário de Deífilo Gurgel;
- Debates sobre literatura infantojuvenil, literatura LGBTQIA+, literatura indígena e afro-brasileira, narrativas de cangaço e sertão, ficção especulativa, literatura de terror e a relação entre literatura e cinema;
- Discussões sobre formação de leitores, agentes literários e os novos caminhos da produção literária potiguar;
- Aula-espetáculo de poesia popular com Crispiniano Neto, encerrando a programação.

