A segurança pública é uma das principais marcas políticas associadas à chamada “bancada da bala”, mas apareceu em apenas 558 das 2.428 proposições apresentadas por 43 parlamentares ligados ao grupo entre 2023 e 2026, o equivalente a 23%. No Rio Grande do Norte, porém, o comportamento é diferente: 76,5% das proposições atribuídas ao deputado federal General Girão (PL-RN) no levantamento tratam do tema.
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Só 11 dos 43 deputados passaram de 50%
O levantamento da Agência Pública considerou projetos de lei, requerimentos, propostas de emenda à Constituição e outras proposições assinadas pelos parlamentares. Entre os 43 deputados que integraram o grupo no período, apenas 11 dedicaram mais da metade de suas proposições à segurança pública. General Girão está nesse conjunto.
A Câmara dos Deputados confirma que Girão exerce mandato pelo PL do Rio Grande do Norte na legislatura 2023-2027. O percentual de 76,5% calculado pela Pública coloca sua atuação temática em posição bastante diferente da média encontrada para o conjunto da bancada, de 23%.
Isso também impede uma leitura simplista dos números nacionais. O levantamento não demonstra que todos os integrantes do grupo tratam a segurança apenas como discurso eleitoral. Ele revela uma diferença entre a identidade política coletiva associada à bancada e o espaço efetivamente ocupado pelo tema nas proposições de parte de seus integrantes.
Quantidade de propostas não mede sozinha influência no Congresso
O próprio levantamento impõe uma limitação importante: contar proposições permite identificar prioridades temáticas, mas não mede toda a capacidade de um parlamentar de interferir numa política pública. Participação em comissões, relatorias, votações, articulações partidárias e negociação para aprovar ou barrar projetos também fazem parte do poder legislativo e não aparecem necessariamente nessa contagem.
Essa distinção é essencial. Um deputado pode apresentar poucas proposições sobre segurança e ainda desempenhar papel decisivo numa votação da área. Também pode apresentar muitas propostas sem que elas avancem no processo legislativo. Por isso, os 23% medem a distribuição temática das proposições, não a eficácia, a influência nem o resultado concreto da atuação de cada congressista.
O diretor técnico do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar, Neuriberg Dias, ouvido pela Pública, também observa que parlamentares precisam atuar em áreas como orçamento, infraestrutura, saúde, educação, agricultura, trabalho e meio ambiente, além de negociar recursos para suas bases eleitorais. A existência de outras pautas, portanto, não constitui por si só abandono da segurança pública.
Segurança funciona também como identidade política
O interesse do levantamento está justamente na comparação entre essa diversidade legislativa e a maneira como a segurança é empregada na construção da identidade eleitoral de parte desses parlamentares.
Um estudo publicado em 2025 na Revista Cronos, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), analisou deputados federais ligados à segurança eleitos pela primeira vez em 2018 e 2022. A pesquisa identificou presença expressiva de policiais militares entre esses parlamentares e examinou como a origem profissional nas forças de segurança passou a funcionar também como recurso de apresentação eleitoral.
O estudo da Cronos possui recorte próprio e não deve ser confundido com o levantamento da Pública. A pesquisa acadêmica analisou a composição social e a trajetória política de parlamentares estreantes vinculados ao campo da direita, enquanto a reportagem de 2026 contabilizou proposições dos 43 deputados que integraram a denominada bancada no mandato atual.
A conexão entre os dois trabalhos está em outra camada: a segurança pode funcionar simultaneamente como área de atuação legislativa e como elemento de identidade política. As duas coisas não necessariamente aparecem na mesma proporção.
O caso de Girão mostra por que a média não conta toda a história
O desempenho temático de General Girão reforça essa diferença. Enquanto apenas 23% das proposições do conjunto analisado foram classificadas como relacionadas à segurança, 76,5% das atribuídas ao deputado potiguar entraram nessa categoria.
Isso significa que a média da bancada reúne comportamentos legislativos bastante distintos. Alguns integrantes dedicaram parcela majoritária de suas proposições à área; outros, embora politicamente associados à pauta, concentraram a maior parte de sua produção formal em assuntos diferentes.
A própria reportagem fornece um exemplo dessa diferença entre proporção e quantidade absoluta: há parlamentares com percentual menor de dedicação à segurança que apresentaram número absoluto elevado de proposições na área. Em outras palavras, percentual e volume medem coisas diferentes, e nenhum dos dois, isoladamente, determina a influência efetiva de um deputado sobre a política de segurança.
Uma bancada informal pode ter força além dos projetos próprios
A chamada “bancada da bala” não constitui uma bancada formal com filiação ou estrutura regimental própria. Trata-se de uma articulação suprapartidária que aproxima congressistas oriundos ou ligados às forças de segurança e outros parlamentares que convergem em pautas relacionadas ao crime, às polícias, às penas, ao sistema prisional e às armas.
Essa característica ajuda a explicar por que a influência política do grupo não pode ser medida apenas pela autoria de proposições. O levantamento cita, por exemplo, a articulação em torno da derrubada de veto presidencial às restrições à saída temporária de presos, uma votação capaz de reunir parlamentares para além daqueles identificados diretamente com o grupo.
O mecanismo é importante: uma pauta pode funcionar como eixo de coalizão legislativa, mesmo quando não domina numericamente a produção individual dos deputados que a defendem. A força de um tema no Congresso depende tanto de projetos apresentados quanto da capacidade de formar maioria quando determinada matéria chega à votação.
Levantamento não recebeu respostas dos parlamentares
Segundo a Agência Pública, as assessorias dos deputados incluídos no levantamento foram procuradas durante duas semanas para responder sobre a prioridade dada à segurança pública em seus mandatos. Até a publicação da reportagem, nenhuma manifestação havia sido recebida.
A metodologia informada pela Pública consistiu em levantar, nos perfis da Câmara dos Deputados, projetos de lei, requerimentos, PECs e outras proposições assinadas pelos parlamentares e classificá-las entre “segurança pública” e “outros temas”. Em seguida, os registros foram contabilizados e cruzados para produzir os percentuais.
O resultado revela uma bancada menos homogênea do que o rótulo pode sugerir. A segurança ocupa menos de um quarto das proposições do conjunto, mas há parlamentares cuja atuação formal permanece fortemente concentrada no tema. No RN, General Girão é um desses casos. O dado, porém, mede prioridade legislativa nas proposições, e não permite sozinho concluir qual deputado produziu maior efeito sobre a política de segurança.

