SUS passa a oferecer teste genético para câncer de mama hereditário

Foto: Salomonus/Adobe Stock

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O Ministério da Saúde anunciou a incorporação, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), de um exame genético capaz de identificar mutações associadas ao câncer de mama hereditário. A medida amplia o acesso da população brasileira a ferramentas de diagnóstico molecular que até poucos anos atrás permaneciam concentradas principalmente na medicina privada.

O teste utiliza tecnologia de sequenciamento genético para detectar alterações nos genes BRCA1, BRCA2, PALB2, TP53, CHEK2, ATM, PTEN, CDH1 e outros associados ao desenvolvimento hereditário da doença.

Segundo o Ministério da Saúde, o exame poderá ajudar tanto na identificação da origem genética do tumor quanto na definição de estratégias terapêuticas mais individualizadas para cada paciente.

Exame pode ajudar na prevenção e no diagnóstico precoce

De acordo com o oncologista Daniel Musse, membro das sociedades Brasileira, Americana e Europeia de Oncologia Clínica, o teste também possui papel preventivo importante ao permitir a identificação de pessoas com maior risco de desenvolver câncer de mama ou ovário ao longo da vida.

“É uma medida de prevenção e de acompanhamento mais intenso, que ajuda não só a evitar um câncer futuro, mas também a aumentar as chances de detectar tumores em estágios iniciais e potencialmente curáveis”, explica o especialista.

Segundo ele, o exame é especialmente relevante para mulheres diagnosticadas com câncer de mama antes dos 50 anos, pacientes com histórico familiar importante da doença ou casos de tumores bilaterais.

Além do impacto individual, o teste também poderá auxiliar no monitoramento preventivo de familiares com maior predisposição genética.

Medicina genética começa a entrar no sistema público

A incorporação do exame revela uma transformação gradual no próprio modelo de funcionamento da saúde pública brasileira.

Durante décadas, testes genéticos permaneceram associados a procedimentos de alto custo disponíveis majoritariamente para pacientes da rede privada ou planos de saúde premium. A entrada desse tipo de tecnologia no SUS indica o avanço da chamada medicina de precisão dentro do sistema público.

Na prática, isso significa abandonar parcialmente modelos padronizados de tratamento e caminhar para estratégias médicas mais individualizadas, construídas a partir das características genéticas específicas de cada paciente.

Esse movimento altera não apenas o diagnóstico do câncer, mas também a lógica do acompanhamento preventivo.

Ao identificar mutações hereditárias associadas à doença, médicos conseguem monitorar grupos de risco de maneira mais intensa, antecipar exames preventivos e, em alguns casos, até reduzir a probabilidade de surgimento futuro dos tumores.

Câncer de mama continua entre os maiores desafios de saúde pública

Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), o câncer de mama é o segundo tipo mais comum entre mulheres no Brasil e representa cerca de 30% dos casos de câncer feminino no país.

A estimativa é de aproximadamente 78,6 mil novos casos anuais entre 2026 e 2028.

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que, apenas em 2022, cerca de 2,3 milhões de mulheres foram diagnosticadas com câncer de mama no mundo, enquanto aproximadamente 670 mil morreram em decorrência da doença.

O principal fator de risco continua sendo a idade, especialmente após os 50 anos. Mas fatores hormonais, obesidade, sedentarismo, consumo de álcool, exposição à radiação e histórico familiar também influenciam o desenvolvimento da doença.

Acesso ainda dependerá da estrutura do SUS

Embora a incorporação do exame represente avanço importante, o impacto prático da medida ainda dependerá da capacidade do SUS de estruturar laboratórios, equipes especializadas e fluxos de atendimento capazes de absorver a nova demanda.

A medicina genética exige não apenas tecnologia laboratorial sofisticada, mas também profissionais qualificados para interpretação dos resultados, aconselhamento genético e definição das estratégias clínicas posteriores.

Isso significa que o desafio não termina na autorização formal do exame.

Ele começa justamente na capacidade do sistema público transformar inovação tecnológica em acesso real, contínuo e descentralizado para pacientes que dependem exclusivamente do SUS.

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