O preço da cesta básica em Natal acumulou alta de 12,10% entre janeiro e abril de 2026, segundo levantamento divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). O custo médio da alimentação básica na capital potiguar chegou a R$669,39 em abril.
Somente entre março e abril, a alta foi de 2,39%. No acumulado dos últimos 12 meses, o aumento registrado ficou em 1,89%.
Os principais responsáveis pela disparada no quadrimestre foram o tomate, com aumento acumulado de 92,66%, e o feijão carioca, que subiu 23,22% em 2026.
Tomate chegou a subir quase 93%
Além do tomate e do feijão, outros produtos também apresentaram alta entre março e abril em Natal.
Segundo o levantamento, subiram os preços do leite integral (3,66%), carne bovina de primeira (3,61%), banana (2,31%), açúcar cristal (2,13%), óleo de soja (0,34%), farinha de mandioca (0,30%) e pão francês (0,27%).
No caso específico do tomate, houve alta de 4,91% apenas no comparativo mensal e avanço de 9,40% nos últimos 12 meses.
Já o feijão apresentou elevação de 4,47% entre março e abril.
A aposentada Francinete Santos afirmou que o aumento já alterou diretamente a rotina alimentar da família.
“O quilo do tomate está custando R$ 13. É muito caro. Mas vou levar mesmo assim. Tem muita coisa com valor alto, mas a gente não pode deixar de comer”, relatou.
Clima, exportações e combustíveis pressionam preços
Segundo o economista Robespierre do Ó, fatores climáticos, redução de oferta e problemas logísticos explicam parte da pressão sobre os alimentos.
Ele afirma que tomate e feijão foram afetados diretamente por questões climáticas que reduziram disponibilidade dos produtos no mercado.
No caso da carne bovina, o especialista aponta influência do aumento das exportações para a China e da redução de animais disponíveis para abate no mercado interno.
Já o pão francês sofreu impacto das importações de trigo de países como Argentina e Canadá, enquanto a banana foi afetada pelos custos logísticos.
“Temos também o aumento dos combustíveis, puxado pela alta do petróleo causada por conflitos no Oriente Médio, Rússia e Ucrânia, que reflete nos preços do frete”, explicou o economista.
Alimentação já consome quase metade da renda
O avanço da cesta básica revela um efeito econômico mais profundo do que simples inflação pontual dos alimentos.
Segundo o Dieese, um trabalhador de Natal remunerado pelo salário mínimo precisou dedicar 90 horas e 51 minutos de trabalho para comprar a cesta básica em abril.
Considerando o salário mínimo líquido, após desconto previdenciário, a alimentação básica passou a comprometer 44,64% da renda mensal do trabalhador.
Na prática, isso significa que quase metade do rendimento líquido de quem recebe salário mínimo já é consumida apenas para garantir alimentação básica doméstica.
E justamente por atingir itens essenciais, a inflação dos alimentos possui impacto social mais agressivo do que outros tipos de aumento de preços.
Famílias conseguem adiar compra de bens duráveis ou reduzir lazer. Mas alimentação funciona como gasto praticamente inevitável.
Natal tem uma das cestas mais caras do Nordeste
Apesar de não liderar o ranking regional, Natal aparece entre as capitais nordestinas com maior custo da cesta básica.
Segundo o levantamento, a capital potiguar possui atualmente a quarta cesta mais cara do Nordeste, atrás apenas de Fortaleza, Teresina e Recife.
Fortaleza registrou valor médio de R$ 767,67, enquanto Teresina chegou a R$ 695,68.
Inflação alimentar expõe fragilidade do poder de compra
O caso da cesta básica mostra como a inflação alimentar possui dinâmica diferente de outros setores da economia.
Quando alimentos básicos sobem rapidamente, o impacto não se limita à sensação abstrata de inflação. Ele altera diretamente padrões de consumo, reduz qualidade alimentar e reorganiza o orçamento doméstico inteiro.
Famílias passam a substituir produtos, reduzir variedade nutricional e cortar outras despesas essenciais para manter o básico funcionando.
E em estados marcados por renda média menor, informalidade elevada e forte dependência do salário mínimo, qualquer aceleração dos alimentos produz efeito social imediato — porque o aumento da comida atinge justamente o centro da sobrevivência cotidiana.

