As apostas de quota fixa podem ter retirado entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira em 2025. A faixa estimada em estudo do Made, centro de pesquisa da FEA-USP, corresponde a algo entre 0,9% e 1,1% do Produto Interno Bruto. O cálculo amplia a conta: além do prejuízo individual do apostador, considera o consumo que deixa de movimentar comércio, serviços e arrecadação.
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A conta começa no orçamento das famílias
O ponto de partida é uma estimativa anterior do Centro Celso Furtado: em 2025, a diferença entre os valores apostados e o dinheiro devolvido em prêmios teria provocado uma transferência líquida de R$ 62,5 bilhões das famílias para as plataformas.
Os R$ 120 bilhões a R$ 141 bilhões não devem ser somados a esse valor. Eles representam o efeito multiplicado da redução do consumo. Quando uma família deixa de comprar um produto ou contratar um serviço, o estabelecimento perde receita, o fornecedor recebe menos pedidos e outra parcela de renda deixa de circular.
O Made aplicou diferentes propensões de consumo por faixa de renda. Famílias mais pobres costumam gastar uma parcela maior de qualquer renda adicional com alimentação, moradia, vestuário e outras necessidades. Por isso, quanto maior a participação desse grupo nas perdas com apostas, maior tende a ser o impacto sobre a atividade econômica.
Os pesquisadores trabalharam com dois cenários. Um distribui as perdas conforme o perfil de renda dos apostadores. O outro usa como referência a Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2017 e 2018, do IBGE, para estimar como os gastos poderiam estar divididos.
Arrecadação direta não cobre a perda
A retração do consumo também reduz o recolhimento de impostos. O estudo estima uma perda bruta de arrecadação entre R$ 31,1 bilhões e R$ 54,8 bilhões.
As plataformas teriam recolhido diretamente cerca de R$ 9 bilhões. Depois desse abatimento, o efeito líquido sobre as contas públicas permaneceria negativo em R$ 22 bilhões a R$ 46 bilhões.
O intervalo equivale, segundo os pesquisadores, a aproximadamente 10% a 20% do orçamento destinado à saúde na Lei Orçamentária de 2025. A conclusão contraria o argumento de que a tributação das bets, isoladamente, transformaria a expansão do setor em ganho fiscal para o país.
Mesmo a estimativa de 15,5 mil empregos diretos e indiretos ligados às apostas, com geração de até R$ 1 bilhão em renda na economia, altera pouco o resultado final do cálculo.
Como referência de escala, a perda estimada corresponderia a 40% a 50% de todo o crescimento econômico registrado em 2025. Também seria cerca de cinco vezes superior às projeções usadas para medir o efeito do aumento das tarifas dos Estados Unidos sobre o PIB brasileiro.
Dívida pode esconder parte do efeito
Nem todo dinheiro apostado precisa ter saído imediatamente do consumo. Uma parcela pode ter sido financiada por cartão, empréstimos ou outras formas de crédito, adiando a redução das despesas familiares e transformando-a em endividamento.
Para testar esse caminho, os pesquisadores construíram uma hipótese extrema: se toda a transferência líquida de R$ 62,5 bilhões tivesse sido paga com crédito novo, ela representaria aproximadamente 14% do aumento da dívida das famílias em 2025.
O percentual não significa que as bets tenham causado 14% do endividamento registrado no ano. Trata-se de um limite hipotético, calculado para mostrar o tamanho que o fenômeno poderia alcançar caso as apostas fossem integralmente financiadas por crédito.
Transferência também amplia concentração de renda
O estudo calcula ainda que o deslocamento de recursos das famílias para as empresas de apostas pode ter aumentado a concentração de renda no 1% mais rico entre 0,5% e 2,1%.
O resultado muda conforme a hipótese adotada. No cenário conservador, os R$ 62,5 bilhões são apenas retirados da renda dos 99% restantes. No segundo, o mesmo valor também é incorporado à renda do grupo que concentra os lucros das plataformas.
O cálculo parte de uma economia em que o 1% mais rico já recebe cerca de 24% da renda nacional. Assim, mesmo a menor estimativa representa um novo deslocamento de recursos em direção ao topo.
Estimativa exige leitura cuidadosa
O trabalho da USP é um exercício de modelagem, não uma medição direta de cada compra que deixou de acontecer. O valor atribuído às perdas nas apostas vem de outro estudo, enquanto a distribuição por renda foi construída com pesquisas que adotam conceitos e períodos distintos.
A Pesquisa de Orçamentos Familiares usada em um dos cenários, por exemplo, é anterior à expansão das plataformas digitais e reúne todos os tipos de jogos e apostas. Os pesquisadores utilizam apenas a proporção dos gastos entre as faixas de renda, reconhecendo essa limitação.
Por isso, os resultados aparecem como intervalo, e não como número fechado. A pesquisa também não oferece uma divisão por estado, o que impede calcular quanto teria deixado de circular especificamente no Rio Grande do Norte.
No RN, o efeito começa no balcão
Não há base para atribuir uma cifra ao estado. O mecanismo descrito, porém, ocorre onde a renda familiar seria gasta: no supermercado, na farmácia, no pequeno comércio, no bar, no serviço contratado e nas prestações que precisam ser pagas.
Quando essa renda migra para uma aposta, o primeiro recibo que deixa de ser emitido é local. Depois vêm os efeitos sobre fornecedores, empregos e tributos.
A arrecadação das plataformas é a parte visível da conta. O estudo sustenta que o custo espalhado pela redução do consumo, pelo endividamento e pela concentração de renda pode ser muito maior. Avaliar as bets apenas pelos impostos que pagam é observar a entrada no caixa público e ignorar o dinheiro que deixou de circular antes de chegar até ele.

