O tombamento do Cine Rio Grande, um dos raros exemplares de grande porte da arquitetura Art Déco preservados em Natal, foi aprovado por unanimidade pelo Conselho Estadual de Cultura do Rio Grande do Norte. A decisão, tomada em 8 de setembro, supera nessa instância a contestação apresentada pela empresa proprietária, mas ainda não conclui a proteção definitiva do edifício.
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Conselho rejeita contestação da proprietária
Localizado na Avenida Marechal Deodoro da Fonseca, no Tirol, o antigo cinema foi objeto de um parecer da Câmara Técnica do Patrimônio Cultural Material. O documento, relatado pelo conselheiro Manoel Onofre Neto, recomendou o tombamento e rejeitou os argumentos apresentados pela Empresa Rio Grande Ltda., proprietária do imóvel.
A companhia sustentava que as alterações feitas no prédio ao longo das décadas, principalmente nas áreas internas e nas fachadas laterais, haviam descaracterizado a construção. Também argumentava que parte do mobiliário existente pertence à Igreja Internacional da Graça de Deus, atual locatária do espaço.
O Conselho concluiu, porém, que os móveis não possuem valor histórico e não integram o conjunto arquitetônico protegido. Dessa forma, a discussão sobre a propriedade desses objetos não interfere no reconhecimento patrimonial do edifício.
Vistoria de 2025 contrariou alegação de descaracterização
A contestação levou à realização de novas inspeções. Por determinação da Procuradoria-Geral do Estado, a Fundação José Augusto promoveu uma vistoria complementar em 2025 para verificar quanto da estrutura original permanecia preservado.
Os laudos concluíram que as intervenções identificadas são superficiais e reversíveis, sem comprometimento das características essenciais do prédio. Na fachada principal, voltada para a Avenida Deodoro, permanecem preservados os conjuntos de esquadrias e os óculos arquitetônicos alinhados que compõem sua identidade visual.
As mudanças observadas na lateral da Rua Açu foram feitas durante o período em que o espaço funcionou como Cine Rio Verde. Segundo a análise técnica, elas ocupam menos de 10% da perspectiva visual do edifício e não atingem sua integridade estrutural.
Internamente, ainda existem componentes considerados fundamentais para a compreensão histórica da construção: o foyer em declive, as arcadas originais, a antiga sala de exibição, os mezaninos e as escadas. A permanência desses elementos enfraqueceu a tese de que o imóvel teria perdido seu valor patrimonial.
Edifício de 1949 comportava cerca de 1.600 pessoas
Construído em 1949, o Cine Rio Grande marcou uma fase em que as grandes salas de exibição também funcionavam como espaços de encontro e sociabilidade urbana. Em seu auge, tinha capacidade para aproximadamente 1.600 espectadores e figurava entre os principais equipamentos culturais de Natal.
O parecer descreve a construção como um “marco da modernidade potiguar”. Sua volumetria remete à imagem de uma embarcação e reúne elementos das correntes escalonada e streamline, vertentes do Art Déco associadas à velocidade, ao desenvolvimento tecnológico e à estética das primeiras décadas do século XX.
O processo foi aberto em maio de 2022, após solicitação do pesquisador e memorialista Ormuz Barbalho Simonetti à Fundação José Augusto. Ele defendeu que o prédio constitui um dos principais remanescentes do Art Déco na capital potiguar. Entre o pedido inicial, as contestações e as inspeções complementares, transcorreram mais de quatro anos até a votação no Conselho.
Localização também foi usada contra o tombamento
A proprietária alegou ainda que o imóvel não está inserido na área central histórica de Natal. O Conselho respondeu que a proteção de um bem não depende apenas de sua inclusão dentro de um perímetro tradicionalmente reconhecido como centro histórico.
O parecer considerou que o Cine Rio Grande integra uma paisagem urbana de valor cultural, nas proximidades da Catedral Metropolitana e de outros imóveis protegidos ao longo da Avenida Deodoro da Fonseca. O edifício, portanto, foi analisado por sua arquitetura, sua relação com a cidade e sua presença na memória coletiva.
Ao justificar o voto, Manoel Onofre afirmou que o antigo cinema “ultrapassa a barreira do mero interesse privado”. A conclusão traduz o conflito central do processo: embora o imóvel tenha proprietário, sua preservação envolve uma dimensão cultural compartilhada pelos moradores de Natal e do Rio Grande do Norte.
Tombamento ainda depende das etapas finais
O parecer recomenda a preservação integral das fachadas, da volumetria estrutural e dos elementos característicos do Art Déco. Com a aprovação unânime, o processo retornará à Fundação José Augusto para o cumprimento das etapas administrativas restantes.
A decisão do Conselho representa o avanço mais consistente desde a abertura do procedimento, mas não deve ser confundida com a conclusão formal do tombamento. O caso expõe a distância que pode existir entre o reconhecimento do valor cultural de um edifício e sua proteção definitiva: foram necessários quatro anos para superar a contestação técnica, e a tramitação ainda não terminou.









































































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