O Rio Grande do Norte deixou de aproveitar, entre janeiro e agosto de 2026, energia suficiente para abastecer 2,13 milhões de residências durante um ano. Foram ao menos 4,6046 terawatts-hora de geração eólica e solar que poderiam ter entrado no sistema elétrico, mas foram cortados por determinação operacional.
Esse número precisa ser traduzido. Um terawatt-hora equivale a 1 bilhão de quilowatts-hora, unidade que aparece na conta de luz. Os 4,6046 TWh cortados no Estado correspondem, portanto, a 4,6046 bilhões de quilowatts-hora. Não foi pouca energia perdida em algum ponto distante da rede. Foi eletricidade suficiente para manter milhões de geladeiras, lâmpadas, televisores, máquinas e aparelhos funcionando por 12 meses.
A energia não chegou a ser produzida e depois descartada. Os parques tinham vento, sol e capacidade para gerar, mas receberam ordem para reduzir a produção porque o sistema não conseguia receber tudo naquele momento. É como fechar parcialmente uma fábrica mesmo com matéria-prima e equipamentos disponíveis porque não há estrada, armazém ou comprador suficiente para escoar o produto.
O total de 4,6046 TWh resulta da soma dos cortes registrados em seis pontos potiguares da rede: 1,8255 TWh em João Câmara III, 1,3041 TWh em Açu III, 766,4 GWh em João Câmara II, 344 GWh em Açu II, 232,4 GWh em Mossoró II e 132,2 GWh em Mossoró IV. Os dados cobrem o período de janeiro a agosto de 2026.
Critério do cálculo: em cada intervalo de meia hora, foi apurada a diferença positiva entre a energia que o conjunto poderia gerar e aquilo que efetivamente entregou; a diferença em megawatts foi multiplicada por 0,5 hora e somada aos demais registros com restrição declarada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico.
O número ainda é um piso. A análise alcançou seis subestações do RN presentes em um levantamento de 61 pontos da rede. Empreendimentos ligados a instalações que ficaram fora dessa seleção, como Extremoz II, não entraram na conta. O desperdício total no Estado tende a ser maior.
RN perdeu mais que todos os vizinhos do Nordeste
O Rio Grande do Norte não apenas perdeu muita energia. Perdeu uma parcela maior de seu potencial do que qualquer outro estado nordestino no levantamento disponível até 20 de julho. O Estado tinha capacidade média de entregar 4.091 megawatts, mas 951 megawatts médios foram cortados.
Em linguagem direta, de cada 100 unidades de energia renovável que o RN poderia colocar no sistema, 23,2 ficaram de fora. Quase uma em cada quatro. Na energia eólica, a restrição chegou a 23,9%. Na solar, atingiu 19,2%.
A proporção do RN superou a média brasileira de 19,1% e os resultados de todos os demais estados do Nordeste. O Ceará teve 22,3% de limitação; a Bahia, 19,6%; Pernambuco, 17,6%; Piauí, 14,7%; Maranhão, 13,3%; e Paraíba, 12%.
O tamanho do problema também aparece no ranking nacional de agosto. Os três pontos de conexão com mais energia cortada no Brasil estavam no território potiguar. João Câmara III liderou, com 569,4 GWh em apenas um mês. Açu III ficou em segundo lugar, com 357,2 GWh, e João Câmara II em terceiro, com 250 GWh.
João Câmara III acumulou 1,8255 TWh cortado entre janeiro e agosto. Sozinho, esse ponto deixou de entregar energia suficiente para abastecer aproximadamente 845 mil residências por um ano, pelo parâmetro de consumo de 180 kWh mensais.
Somados, João Câmara II e III perderam 2,5919 TWh, suficientes para atender cerca de 1,2 milhão de casas durante 12 meses. Açu II e III acumularam 1,6481 TWh, equivalentes ao consumo anual de aproximadamente 763 mil residências. Mossoró II e IV somaram 364,6 GWh, volume para quase 169 mil casas.

Caju foi o conjunto potiguar com maior corte em agosto
O recorte por conjunto de geração, denominação usada pelo ONS para agrupar usinas submetidas à mesma orientação operacional, mostra quem mais perdeu em agosto. Caju liderou o Rio Grande do Norte com 170 GWh cortados. Desse volume, 68% foram associados a limitações locais da rede.
Monte Verde apareceu em seguida, com 136,7 GWh e 66% de origem local. Santo Agostinho perdeu 128,2 GWh, dos quais 64% locais. Rio do Vento Expansão registrou 112,8 GWh e parcela local de 60%. Juntos, os quatro conjuntos deixaram de entregar 547,7 GWh em um único mês.
O ranking pelos nomes João Câmara, Açu e Mossoró ajuda a localizar os corredores mais afetados, mas ainda não permite dizer quanto cada município perdeu. Um conjunto elétrico pode reunir parques instalados em mais de uma cidade, enquanto o nome da subestação indica o ponto de conexão, não necessariamente o território de todas as turbinas.
Para chegar ao prejuízo municipal, seria necessário cruzar cada usina com seu Código Único de Empreendimentos de Geração, o município onde está instalada, o proprietário e o volume cortado em cada intervalo. A tabela disponível não entrega esse cruzamento pronto.
Os cortes ocorrem por três razões principais. A primeira é a falta de linhas, transformadores ou capacidade para transportar toda a energia. A segunda envolve requisitos de segurança e confiabilidade. A terceira aparece quando existe mais eletricidade disponível do que consumidores capazes de usá-la naquele horário.
Em agosto, o Brasil cortou 5,518 TWh de geração eólica e solar. Desse total, 3,650 TWh foram limitados porque havia excesso de energia no sistema; 1,283 TWh, por critérios de confiabilidade; e 585 GWh, por problemas ou indisponibilidade de equipamentos. As restrições sistêmicas responderam por 71,3% do volume daquele mês.
Energia não aproveitada vale quase R$ 1 bilhão
Os 4,6046 TWh cortados no RN têm valor de referência de R$ 923,9 milhões. A conta usa o Preço de Liquidação das Diferenças, indicador da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica para a energia negociada no mercado de curto prazo.
A referência não é a tarifa cobrada na conta de luz. É o preço do megawatt-hora no mercado de energia. O valor médio do Nordeste foi de R$ 238,87 em janeiro; R$ 380,14 em fevereiro; R$ 250,39 em março; R$ 139,28 em abril; R$ 166,69 em maio; R$ 184,42 em junho; R$ 135,03 em julho; e R$ 125,27 em agosto.
De onde saiu o valor: as médias mensais foram ponderadas pelo número de dias de cada mês, resultando em preço de referência de R$ 200,652963 por MWh. A multiplicação dos 4.604.600 MWh cortados por esse preço chegou a R$ 923.926.633,26.
O resultado não é uma indenização já reconhecida nem o prejuízo contábil exato das empresas. Cada parque pode ter contratos e preços diferentes, e o preço da energia muda ao longo do dia. O cálculo serve para mostrar a dimensão econômica do volume que o Rio Grande do Norte tinha condições de produzir, mas não conseguiu colocar no sistema.
“Isso representa perda de receita, redução da arrecadação, paralisação de investimentos e ameaça direta à cadeia eólica e solar do estado”, afirmou o presidente da Comissão Temática de Energias Renováveis da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Norte, Sérgio Azevedo, em declarações à imprensa do Rio Grande do Norte.
“Ter mais de 23% da energia renovável do RN sendo limitada representa perda de investimentos, redução de receitas para os empreendedores, insegurança para novos investidores e desperdício de uma energia limpa que poderia estar abastecendo consumidores e impulsionando a economia”, declarou o presidente da Associação Potiguar de Energias Renováveis, Williman Oliveira, em declarações à imprensa do Rio Grande do Norte.
Energia pode virar indústria, emprego e renda no RN
O desperdício não termina na eletricidade que deixou de entrar na rede. Cada parque que produz menos recebe menos, reduz a movimentação econômica e aumenta a insegurança de quem avalia instalar novos projetos no Estado.
“De forma recorrente, [o curtailment] afugenta as empresas, que devem ter sido o setor que mais investiu no RN nos últimos 15 anos, tanto que não há, neste momento, construção de parque de geração de energia centralizada aqui”, afirmou o diretor regional do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial no Rio Grande do Norte e do Instituto Senai de Inovação em Energias Renováveis, Rodrigo Mello, em declarações à imprensa do Rio Grande do Norte.
A energia excedente também mostra uma oportunidade. O RN pode deixar de atuar apenas como produtor que tenta enviar eletricidade para outras regiões e passar a atrair empresas capazes de consumir essa energia dentro do próprio Estado.
“O RN precisa deixar de ser apenas exportador de energia e atrair data centers, hidrogênio, indústrias eletrointensivas, mineração com beneficiamento local e outros grandes consumidores”, afirmou Sérgio Azevedo, em declarações à imprensa do Rio Grande do Norte.
A tradução é simples. Data centers precisam de energia durante todo o dia. Indústrias eletrointensivas usam grandes volumes para fabricar produtos. O hidrogênio pode converter eletricidade em combustível armazenável. O beneficiamento mineral permite que a matéria-prima seja transformada no Estado, em vez de sair sem processamento. Essas atividades podem converter vento e sol em investimentos, empregos, arrecadação e serviços.
Outra saída são as baterias. Elas guardam parte da energia produzida nas horas de excesso e a devolvem quando o consumo aumenta. O governo federal programou para 2 e 4 de dezembro de 2026 os leilões de reserva de capacidade destinados ao armazenamento. Os projetos contratados, porém, só deverão começar a operar em 1º de agosto de 2028.
A expansão da transmissão continua necessária para levar a energia até outros centros consumidores. O presidente do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia, Darlan Santos, alertou para o prazo das soluções. “Medidas de expansão da transmissão e leilões de baterias demandam tempo para consolidação e não garantem alívio imediato”, afirmou, em declarações à imprensa do Rio Grande do Norte.
A compensação federal regulamentada pela Portaria Normativa nº 140 alcança somente cortes ocorridos entre 1º de setembro de 2023 e 25 de novembro de 2025. Os cortes de 2026 ficaram fora. Até que o ONS divulgue o fechamento integral do Estado, o dado comprovável é que o RN deixou de aproveitar ao menos 4,6046 TWh até agosto — energia suficiente para abastecer 2,13 milhões de casas, movimentar quase R$ 1 bilhão e alimentar atividades econômicas que ainda precisam ser atraídas para o território potiguar.
Imagem de Capa: Sandro Menezes
Fonte: Agora RN








































































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