O Rio Grande do Norte reapareceu no noticiário nacional como um dos estados com maior proporção de adultos obesos atendidos pelo SUS. Segundo o Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional do Ministério da Saúde, repercutido pela imprensa potiguar, 42% dos adultos acompanhados na rede pública vivem com obesidade, diante de média nacional próxima de 31%, e quase 60% estão acima do peso. O dado exige política pública robusta. O que ele tem produzido, porém, é outra coisa: autorização social para julgar.
Quando a estatística vira munição moral, instala-se um deslocamento perigoso. O debate finge ser sanitário, mas o tratamento é punitivo. O corpo deixa de ser questão clínica e passa a funcionar como senha de valor social. É nesse ponto que a gordofobia deixa de ser comportamento isolado e se transforma em método organizado de exclusão.
O capitalismo estético e a hierarquia dos corpos
A sociedade brasileira opera sob um modelo silencioso de hierarquização corporal. Não se trata apenas de gosto ou padrão de beleza; trata-se de um sistema econômico que associa magreza a disciplina, competência e sucesso, e associa gordura a falha moral. O mercado absorve essa lógica e a transforma em estratégia.
A reportagem da CNN Brasil sobre gordofobia na moda expõe a contradição estrutural: mesmo com o avanço do mercado plus size, a exclusão permanece prática recorrente. Segundo a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), 85,3% das pessoas obesas no Brasil já sofreram discriminação. Não se trata de exceção estatística e sim de cultura consolidada.
O paradoxo é econômico. O mercado plus size movimenta bilhões no país e cresce de forma consistente, segundo dados frequentemente citados pelo setor. Se há demanda robusta, por que a oferta permanece restrita? A resposta não está na matemática; está na mentalidade. Muitas marcas preferem explorar o corpo gordo como narrativa publicitária do que incorporá-lo como cliente central.
A grade como fronteira moral
O teto psicológico do “até o 48” não é neutro. Ele funciona como linha invisível que separa quem pertence daquilo que é considerado excesso. Quando a grade termina antes de contemplar a realidade corporal da população, a marca não está apenas fazendo escolha produtiva: está definindo quem considera público legítimo.
O expediente do “plus size apenas online” é ainda mais revelador. A loja física preserva o padrão dominante; o estoque ampliado é deslocado para o ambiente digital, invisível, distante do contato direto. A diversidade aparece na campanha, mas desaparece no cabide. Não é falha logística: é gestão de imagem.
Há também a sobretaxa disfarçada de custo industrial. Peças maiores, frequentemente, apresentam preços superiores sob justificativa de maior uso de tecido, ignorando a lógica de escala produtiva. O corpo vira acréscimo de preço. A diferença física transforma-se em penalidade econômica.
E quando influenciadoras plus size são contratadas para campanhas pontuais, mas a grade permanece limitada e a modelagem não veste adequadamente, a inclusão revela sua natureza performática. O corpo gordo vira capital simbólico; não vira prioridade operacional.
Isso não é descuido, mas cálculo reputacional pautado na hipocrisia descarada.
Do seguro ao cabide: a técnica como biombo
A denúncia repercutida no setor de seguros sobre negativa de apólice a uma modelo plus size por causa do peso escancara a mesma lógica em outro campo. Invoca-se cálculo atuarial; pratica-se triagem moral. Seguro é instrumento de proteção familiar. Quando o peso se converte em barreira automática, a técnica deixa de ser avaliação individualizada e passa a funcionar como filtro estrutural.
A linha que separa gestão de risco de discriminação é jurídica. O Código de Defesa do Consumidor proíbe práticas abusivas e tratamento desigual injustificado. A Constituição Federal estabelece dignidade da pessoa humana e igualdade material como fundamentos da República. O Supremo Tribunal Federal tem reiterado que discriminações estruturais, ainda que não explicitamente nomeadas na legislação, não podem ser naturalizadas quando geram exclusão concreta.
Se o corpo é usado como critério automático de restrição, a discussão deixa de ser estética ou mercadológica e ingressa no campo da responsabilidade civil.
Infraestrutura também seleciona quem merece cuidado
Entidades da sociedade civil relatam que a ausência de equipamentos adequados — macas, cadeiras, mobiliário compatível — transforma atendimento em constrangimento. A discriminação não precisa de insulto verbal; ela se manifesta quando o espaço não comporta o corpo. O serviço existe formalmente, mas não foi projetado para todos.
Quando a experiência de buscar atendimento é marcada por inadequação repetida, cria-se afastamento progressivo do sistema de saúde. Especialistas alertam que o constrangimento reiterado retarda diagnósticos e agrava quadros clínicos. A ironia é cruel: o preconceito, travestido de preocupação sanitária, termina por intensificar o problema que alega combater.
O Estado reconhece, mas a cultura resiste
Na Câmara dos Deputados, audiências discutem enfrentamento da gordofobia, conforme registrado na programação oficial da Casa, sinalizando que o tema já ultrapassou o campo comportamental e ingressou na arena dos direitos. Em Joinville, a Comissão de Constituição e Justiça aprovou política municipal que associa combate à obesidade e à discriminação por peso, incluindo adaptação de equipamentos públicos.
Essas iniciativas revelam algo fundamental: quando é preciso legislar sobre respeito básico, é porque o desrespeito já se tornou rotina.
No Rio Grande do Norte, onde os índices chamam atenção nacional, a responsabilidade é maior. A estatística não pode virar desculpa para sarcasmo social nem combustível para hostilidade cotidiana. A “preocupação com a saúde” não pode servir como máscara elegante para desprezo.
A epidemia que corrói por dentro
O país está disposto a discutir dieta, mas resiste a discutir dignidade. Está confortável em comentar o corpo alheio, mas desconfortável em rever práticas comerciais, contratos e estruturas físicas que selecionam quem pode circular com normalidade.
A balança mede massa corporal. Ela não mede caráter, competência ou valor humano. Quando a sociedade insiste em transformar medida clínica em julgamento moral, institucionaliza a exclusão como hábito.
O Rio Grande do Norte expõe um número. O Brasil expõe um vício cultural.
Enquanto o mercado lucrar com inclusão simbólica e economizar na inclusão real; enquanto contratos filtrarem corpos sob aparência técnica; enquanto a cultura continuar tratando humilhação como pedagogia social, a gordofobia seguirá operando como política informal de exclusão.
A escolha agora é estrutural: ou se desmonta o capitalismo estético que hierarquiza corpos e se aplica a Constituição com coerência material, ou se continuará tratando índices enquanto se abandona pessoas.
E essa escolha não é sobre peso, mas sim sobre civilização.
Por Otaviano Lacet*










































































