Admito: sou uma grandíssima filha da mãe.
Estava ontem pensando que é uma loucura como nós, mulheres, acessamos o ensino básico há menos de duzentos anos. Em 1879, adquirimos o direito ao ensino superior e já somos maioria. A mãe da minha mãe nasceu em 1932, ano em que conquistamos o poder de voto, e não só se formou em Direito como presidiu a seccional goiana da OAB. Aprendeu a tocar piano e violoncelo, a falar alemão, francês e latim, dirigia e fumava. Só faltou queimar sutiãs.
Minha mãe é de 1958 e só teríamos CPF quatro anos depois. Eu não conheço quem tenha maior radiância que ela. Nunca vi uma pessoa mais autônoma e íntima da realidade: ela põe um sol onde quiser, tem o dom da Criação. Cursou História e Arquitetura, fez escolhas próprias e decide quem entra e quem sai de sua casa, uma imperatriz.
Já eu sou eu, uma filha da mãe; filha de uma filha da mãe. Máximo respeito!
Um fato curioso é que eu imaginava ser tataraneta de Cora Coralina (1889-1985). Por algum tempo, ouvi a história com um detalhe trocado: minha bisavó foi criada por Cora. Eu seria de sua linhagem afetiva, que honra! A poetisa e doceira que colocava poemas na panela e açúcar nas palavras. Errata: minha bisavó foi criada de Cora, trabalhava para ela. Quando atentei pro engano, o estrago estava feito: a patroa da bisa era família no coração.
Laços sanguíneos, adotivos ou não, temos muitas inspirações, que deixaram heranças incalculáveis: uma força colérica que atravessou gerações, ética e cuidado, sensibilidade e amor, muito brio, determinação e altivez. Mais um e derradeiro exemplo: Nísia Floresta, escritora e educadora norte-rio-grandense foi pioneira no direito à educação das mulheres. Sou rica de referências que me enchem de vida.
Ser mulher é, para mim, uma travessia histórica e cultural; uma experiência no sentido do que se experimenta com o corpo e a mente, mas também na definição criativa, laboratorial. Serei, um dia, a mãe de filhas biológicas e/ou simbólicas. Estou posicionada nessa ponte. Por isso, até saio de casa sem brinco, mas nunca sem vontade.
Imagem: Marta Nunes
Victória Rincon é uma talentosa escritora, jurista e poetisa que traz uma riqueza única de experiência e sensibilidade ao mundo das palavras. Com dois livros publicados na área jurídica e uma paixão ardente pela crônica e poesia, ela é uma figura multifacetada que deixa sua marca distintiva em tudo o que faz.




































































