Enquanto o número de internações por queimaduras dobrou no Rio Grande do Norte nos últimos seis meses, a principal estrutura responsável por atender esses pacientes perdeu quase metade de sua capacidade operacional.
O Centro de Tratamento de Queimados (CTQ) do Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel, única unidade especializada do estado para casos graves, funciona atualmente com apenas 12 leitos, contra os 20 disponíveis antes do início da reforma que deveria modernizar o setor. A obra, iniciada em agosto de 2024, avançou pouco e hoje se encontra paralisada.
A contradição é difícil de ignorar. Enquanto a procura pelo serviço aumenta, a estrutura encarregada de absorver essa demanda opera com menos espaço, menos leitos e sob limitações impostas justamente pela obra que deveria fortalecer sua capacidade de atendimento.
Mais pacientes disputando menos leitos
Dados apresentados pela direção do centro apontam que as internações passaram de aproximadamente 80 para 160 casos em apenas seis meses. O crescimento ocorre às vésperas do período junino, época tradicionalmente associada ao aumento de acidentes envolvendo fogueiras, fogos de artifício e líquidos inflamáveis.
O aumento da demanda, por si só, já pressionaria qualquer unidade hospitalar. No entanto, o problema ganha outra dimensão porque a ampliação dos atendimentos ocorre ao mesmo tempo em que a capacidade instalada foi reduzida. O resultado é um sistema obrigado a fazer mais com menos.
O estado inteiro depende de um único centro
O CTQ do Walfredo Gurgel não é apenas uma referência estadual. Ele é a única unidade especializada para grandes queimados em funcionamento no Rio Grande do Norte. Na prática, isso significa que pacientes de todas as regiões dependem de uma única porta de entrada para casos de maior gravidade.
Essa concentração cria um risco permanente. Quando um serviço único perde capacidade, não existe outra estrutura equivalente para absorver a demanda excedente. Um acidente com múltiplas vítimas, por exemplo, pode rapidamente transformar uma situação de pressão operacional em um problema de atendimento para toda a rede.
A reforma que deveria resolver o problema acabou ampliando o gargalo
A intervenção iniciada em agosto de 2024 tinha como objetivo modernizar uma estrutura antiga e corrigir problemas nas instalações elétricas, hidráulicas e sanitárias. O projeto também previa novos espaços de isolamento e melhorias nas áreas destinadas ao tratamento dos pacientes.
Quase dois anos depois, porém, o cenário é outro. Segundo informações apresentadas pela Secretaria Estadual de Saúde Pública, apenas cerca de 1% da obra foi executado. O contrato entrou em impasse, a reforma foi paralisada e não existe prazo definido para a conclusão dos serviços.
O resultado concreto é que a unidade passou a conviver simultaneamente com os problemas antigos e com as limitações provocadas pela obra inacabada.
Os problemas não terminam na construção parada
Inspeções realizadas pela Defensoria Pública encontraram infiltrações, goteiras, forros abertos, problemas estruturais e relatos relacionados à presença de ratos em áreas da unidade. O órgão também apontou dificuldades envolvendo insumos, medicamentos e recursos humanos.
A consequência direta recai sobre a rotina assistencial. Ambulatórios precisaram ser deslocados, setores foram reorganizados de forma provisória e parte das atividades passou a funcionar em espaços adaptados. Para pacientes queimados, que frequentemente apresentam elevado risco de infecção, a qualidade da estrutura física influencia diretamente as condições de tratamento.
Quando não existe plano B
Os números levantados pela Defensoria também apontam aumento das mortes relacionadas a queimaduras nos últimos meses. Mais do que uma estatística isolada, esse dado expõe a vulnerabilidade de um sistema que opera sem redundância.
Em áreas estratégicas da saúde, a existência de estruturas de retaguarda funciona como mecanismo de proteção contra crises. No caso dos grandes queimados no Rio Grande do Norte, essa proteção praticamente não existe. Se o CTQ enfrenta dificuldades, o problema deixa de ser local e passa a atingir todo o estado.
O gargalo que cresce junto com a demanda
A crise do Centro de Tratamento de Queimados não pode ser resumida a uma obra atrasada. A paralisação da reforma apenas tornou mais visível uma fragilidade que já existia: a dependência de uma única unidade para atender todos os casos graves de queimaduras do Rio Grande do Norte.
Enquanto as internações aumentam, os leitos continuam reduzidos. Enquanto a demanda cresce, a reforma permanece sem conclusão. E enquanto o único centro especializado do estado tenta operar nessas condições, milhares de potiguares seguem dependentes de uma estrutura que trabalha cada vez mais próxima do limite.





































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