É preciso abandonar de uma vez por todas a ingenuidade diplomática com que parte do mundo ainda observa Donald Trump. O presidente dos Estados Unidos não está simplesmente defendendo os interesses econômicos de seu país, como repetem seus porta-vozes. Tampouco está apenas negociando com a agressividade de um empresário acostumado a elevar o preço antes de fechar um acordo. O que Trump constrói é uma política externa baseada na coerção: os Estados Unidos definem o que desejam, identificam quem não possui força suficiente para resistir e transformam tarifas, sanções, ameaças militares e pressões políticas em instrumentos de submissão.
No dia 15 de julho de 2026, o governo norte-americano anunciou uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros, alegando práticas comerciais consideradas prejudiciais às empresas dos Estados Unidos. A medida foi resultado de uma investigação conduzida pela Representação Comercial norte-americana, a USTR, envolvendo desde comércio digital e propriedade intelectual até etanol, desmatamento e políticas anticorrupção. A linguagem burocrática tenta conferir aparência técnica a uma decisão profundamente política.
Não se trata, porém, de um episódio isolado. Em 2025, Trump já havia imposto tarifas de 50% a grande parte dos produtos brasileiros, relacionando expressamente a punição comercial ao processo judicial contra Jair Bolsonaro. Naquele momento, a própria Casa Branca acusou as instituições brasileiras de perseguição política e se arrogou o direito de avaliar a legitimidade de processos conduzidos dentro do Brasil. Ou seja: Washington utilizou o peso da maior economia do planeta para tentar influenciar uma questão que pertence exclusivamente à Justiça e à soberania brasileiras.
Que nome devemos dar a isso? Diplomacia? Livre-comércio? Defesa da democracia? Ou simplesmente chantagem de Estado?
A soberania que Washington concede — e pode retirar
Trump não precisa ocupar militarmente o Brasil para tentar governar parte de nossas escolhas. No século XXI, a dominação pode dispensar tanques, fuzileiros e bandeiras estrangeiras hasteadas em prédios públicos. Basta controlar mercados, moedas, sistemas financeiros, plataformas digitais, tecnologias estratégicas e canais de exportação. Basta fazer com que o exercício da soberania se torne economicamente caro demais.
O método é relativamente simples. Primeiro, o governo norte-americano transforma uma preferência própria em princípio universal. Depois, acusa o país escolhido de violar esse princípio. Em seguida, aplica punições comerciais ou financeiras até que o governo estrangeiro aceite negociar aquilo que, em condições normais, jamais deveria estar sobre a mesa. Ao final, qualquer concessão obtida sob ameaça é apresentada como acordo voluntário.
É uma espécie de assalto com recibo.
O Brasil não é uma pequena ilha sem alternativas econômicas, mas tampouco possui força equivalente à dos Estados Unidos. A assimetria é evidente. Washington controla instrumentos financeiros, tecnológicos e diplomáticos capazes de produzir consequências muito além do comércio bilateral. Isso não torna a resistência impossível, mas aumenta brutalmente seu custo.
Trump conhece essa desigualdade e a explora. O que ele chama de negociação frequentemente começa com uma ameaça que somente um dos lados tem condições reais de cumprir. Quando um país poderoso declara que destruirá setores da economia de outro caso não obtenha determinada concessão, não há negociação entre iguais. Há coerção exercida por quem sabe que pode ferir mais do que será ferido.
O Brasil não é exceção; é parte do método
A ofensiva contra o Brasil torna-se ainda mais clara quando observada ao lado do tratamento dispensado a outros países. Trump recusou-se a descartar o uso da força militar ou econômica para assumir o controle da Groenlândia e do Canal do Panamá. Também tratou a anexação do Canadá como possibilidade política e afirmou que os Estados Unidos recuperariam o canal panamenho, embora ele pertença soberanamente ao Panamá.
A Casa Branca chegou a celebrar oficialmente o compromisso de Trump de “retomar” o controle do Canal do Panamá. Não estamos falando, portanto, de uma frase infeliz pronunciada durante um comício. A pretensão expansionista foi incorporada à comunicação institucional do governo norte-americano.
No caso da Groenlândia, a justificativa combina segurança nacional, posição geográfica, rotas marítimas e acesso a minerais estratégicos. No Panamá, o objeto de desejo é uma das passagens comerciais mais importantes do mundo. Na Ucrânia, país devastado pela invasão russa e dependente de apoio externo, Washington firmou um fundo que receberá 50% dos royalties, taxas de licenciamento e pagamentos semelhantes provenientes de novos projetos de recursos naturais. O acordo possui representação paritária e prevê investimentos na reconstrução ucraniana, mas não deixa de demonstrar como a ajuda norte-americana foi vinculada ao acesso econômico aos recursos de um país em situação de extrema vulnerabilidade.
Separadamente, cada iniciativa recebe uma justificativa conveniente. Segurança nacional na Groenlândia. Influência chinesa no Panamá. Reconstrução na Ucrânia. Liberdade de expressão e comércio justo no Brasil. Quando as peças são reunidas, contudo, surge um desenho mais incômodo: recursos naturais, rotas comerciais, mercados consumidores, plataformas tecnológicas e decisões internas de outros países passam a ser tratados como assuntos sobre os quais Washington reivindica algum tipo de poder superior.
A soberania dos outros vale, desde que não contrarie os interesses dos Estados Unidos.
A democracia como embalagem descartável
Durante décadas, os Estados Unidos apresentaram suas intervenções externas como missões destinadas a proteger a liberdade, os direitos humanos e a democracia. A história já demonstrou inúmeras vezes o caráter seletivo desse discurso. Governos autoritários foram tolerados ou apoiados quando serviam aos interesses de Washington, enquanto governos eleitos sofreram pressão, desestabilização ou isolamento quando contrariaram esses mesmos interesses.
Trump apenas retirou parte da embalagem.
Sua política externa não precisa fingir grande preocupação com a autodeterminação dos povos. Ela fala abertamente em território, controle, tarifas e vantagens. O mundo deixa de ser uma comunidade de nações formalmente soberanas e passa a funcionar como um grande negócio imobiliário: países são avaliados por sua localização, seus minerais, seu petróleo, suas rotas marítimas, seu mercado e sua utilidade estratégica.
Nesse sistema, nações fortes negociam. Nações frágeis obedecem. E aquelas que tentam resistir descobrem que a defesa norte-americana da liberdade termina exatamente no ponto em que começa o interesse econômico dos Estados Unidos.
A interferência no caso brasileiro é especialmente grave porque estabelece um precedente intolerável. Se o governo dos Estados Unidos pode punir o Brasil para favorecer um personagem político específico ou constranger decisões de nosso Judiciário, o que restará de nossa autonomia institucional? Amanhã, uma tarifa poderá ser usada para influenciar uma lei ambiental, impedir a tributação de uma plataforma digital, pressionar pela entrega de reservas minerais ou determinar com quais países o Brasil poderá manter relações comerciais.
O problema, portanto, não é gostar ou não de Jair Bolsonaro, Luiz Inácio Lula da Silva ou Alexandre de Moraes. A questão antecede todos eles. Um brasileiro pode combater duramente qualquer governo, tribunal ou autoridade de seu próprio país. O que não pode aceitar é que a Casa Branca adquira o poder de arbitrar nossas disputas internas mediante castigos econômicos.
Quem comemora a interferência estrangeira porque ela favorece seu grupo político não está defendendo o Brasil. Está apenas oferecendo a soberania nacional em troca de uma vantagem circunstancial.
O império que já não pede licença
Não há provas de um plano secreto de Trump para tomar fisicamente as riquezas brasileiras. A crítica séria não precisa fabricar documentos clandestinos nem atribuir ao presidente norte-americano pensamentos que ele nunca verbalizou. Os fatos públicos já são suficientemente graves.
Trump ameaça territórios estrangeiros, reivindica rotas comerciais, associa auxílio ao acesso a recursos naturais, pune países por decisões internas e utiliza a extraordinária desigualdade de poder entre os Estados Unidos e seus parceiros como ferramenta de negociação. Não é necessário adivinhar suas intenções; basta observar seu método.
O objetivo imediato pode variar. Hoje é uma tarifa. Amanhã, uma concessão tecnológica. Depois, o acesso privilegiado a minerais críticos, petróleo, terras raras, dados pessoais, mercados ou infraestrutura. A pretensão permanente é a mesma: assegurar aos Estados Unidos o direito de exigir dos demais aquilo que jamais aceitariam que outro país exigisse deles.
O Brasil precisa responder sem bravatas, mas também sem submissão. Isso exige diversificação comercial, integração sul-americana, fortalecimento dos BRICS, proteção das cadeias estratégicas, autonomia tecnológica e construção de alianças capazes de elevar o custo de qualquer tentativa de coerção. Soberania que depende da benevolência de uma potência estrangeira não é soberania. É permissão temporária.
Donald Trump não inventou o imperialismo norte-americano. Ele apenas o tornou menos envergonhado de si mesmo. Retirou as palavras delicadas, rasgou o papel de presente e mostrou o produto: uma ordem internacional na qual os Estados Unidos se reservam o direito de interferir, punir, tomar e controlar, enquanto exigem que os países atingidos chamem isso de parceria.
O império já não pede licença. E toda nação que ainda deseja permanecer dona do próprio destino precisa aprender, finalmente, a dizer não.








































































