Criminosos conheciam detalhes de um processo judicial, enviaram documentos falsos, simularam uma ligação do Banco Central e quase convenceram a vítima a entregar o acesso à conta bancária. Especialista alerta que o golpe se tornou uma das fraudes digitais mais sofisticadas do país
A frase parecia anunciar o fim de uma longa espera. “A senhora ganhou a ação. Conseguimos reverter o processo e a senhora tem R$ 54 mil para receber.” Depois de meses convivendo com a frustração de ter perdido definitivamente uma ação judicial, a enfermeira Verônica Rangel ouviu exatamente o que qualquer cliente gostaria de escutar. Do outro lado da linha, um homem se apresentou como seu advogado. Falava com segurança, conhecia detalhes do processo e enviou documentos aparentemente oficiais.
Poucos minutos depois, outro homem entrou em contato por videochamada dizendo ser funcionário do Banco Central e informou que precisava confirmar alguns dados para liberar a transferência do dinheiro. Tudo parecia cuidadosamente planejado, mas havia um detalhe que mudaria completamente aquela história. Verônica Rangel lembrava perfeitamente da última conversa que havia tido com seu verdadeiro advogado. O processo havia chegado à última instância, a ação estava definitivamente encerrada. Não existia mais possibilidade de recurso.
“Na mesma hora achei estranho. Meu advogado havia me explicado que a causa tinha terminado e me enviado toda a documentação comprovando que não cabia mais nenhum recurso. Quando aquele homem disse que tinha conseguido reverter tudo, minha primeira reação foi desconfiar”, relembra Verônica. Mesmo desconfiando, ela decidiu continuar a conversa. Não para fornecer informações, porém para entender até onde iria a fraude. Enquanto o falso advogado insistia pelo WhatsApp, perguntando repetidamente se ela precisava de ajuda, o suposto funcionário do Banco Central iniciou uma videochamada.
Curiosamente, ele nunca mostrou o próprio rosto. Pediu que Verônica acessasse sua conta bancária pelo celular. Ela respondeu que o aplicativo do banco estava instalado em outro aparelho e pediu alguns minutos para buscá-lo. Na verdade, aproveitou aquele intervalo para tentar falar com o escritório de advocacia. Pouco depois, recebeu a confirmação que já imaginava. Era um golpe. “A secretária confirmou imediatamente que ninguém do escritório havia feito aquele contato. Naquele momento tive certeza de que minha desconfiança fazia sentido”, conta. Sem saber que a vítima já conhecia toda a verdade, o falso advogado continuava enviando mensagens.
Ele demonstrava preocupação, perguntava se ela havia conseguido concluir o procedimento, oferecia ajuda a todo instante. A insistência, segundo Verônica, foi justamente um dos elementos que mais reforçou sua desconfiança. Depois de confirmar a fraude, ela resolveu encerrar a conversa. Escreveu ao criminoso informando que havia repassado todas as informações à polícia. A reação foi imediata. “No mesmo instante ele me bloqueou. Todas as mensagens desapareceram e ele nunca mais entrou em contato. O suposto funcionário do Banco Central também não voltou a ligar”, afirma.
Um golpe cada vez mais sofisticado
Casos como o vivido por Verônica deixaram de ser episódios isolados e passaram a preocupar instituições como a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Os criminosos pesquisam processos judiciais, identificam clientes, reproduzem a identidade visual de escritórios de advocacia, utilizam documentos falsificados e criam uma narrativa extremamente convincente para convencer as vítimas de que precisam realizar algum procedimento financeiro antes de receber valores supostamente liberados pela Justiça. Para o advogado Ramon Camurugy, o sucesso desse tipo de fraude está menos na tecnologia e mais na manipulação emocional.
“Os criminosos exploram um momento de felicidade e expectativa. A vítima acredita que finalmente recebeu uma boa notícia e, diante da urgência criada pelos golpistas, acaba reduzindo o nível de desconfiança. É uma engenharia social extremamente sofisticada”, alerta Ramon Camurugy. Segundo o advogado, há um ponto que deve servir de alerta para qualquer cidadão. “Nem o Poder Judiciário, nem o Banco Central entram em contato por videochamada para pedir acesso à conta bancária. Também não existe pagamento antecipado para liberar valores reconhecidos judicialmente. Sempre que houver qualquer pedido desse tipo, a orientação é interromper imediatamente a conversa e procurar o advogado pelos canais oficiais”, aconselha Camurugy.
Ele explica que os criminosos utilizam informações verdadeiras para construir uma mentira convincente. “Eles sabem o número do processo, conhecem o nome do advogado e, muitas vezes, têm acesso a informações públicas suficientes para dar aparência de legitimidade à fraude. Por isso, confiar apenas nos documentos enviados ou na forma como a pessoa se apresenta pode ser um erro”, alerta Camurugy.
A principal arma continua sendo a desconfiança
Para o advogado, a atitude de Verônica resume a principal orientação de segurança. “Ela fez exatamente o que todos deveriam fazer: interrompeu a pressão criada pelos golpistas e confirmou a informação diretamente com o escritório de advocacia. Bastaram alguns minutos para evitar um prejuízo que poderia ser muito significativo”, frisa Camurugy. A experiência vivida pela enfermeira deixa uma lição simples, mas poderosa. Às vezes, a diferença entre perder uma grande quantia em dinheiro e escapar de um golpe está em uma única decisão: desconfiar antes de clicar.
Cinco sinais de alerta no golpe do falso advogado
1 – Boa notícia acompanhada de urgência
Os criminosos dizem que a vítima ganhou a ação e precisa agir imediatamente.
2 – Pedido de PIX ou acesso à conta
Tribunais e Banco Central não fazem esse tipo de solicitação.
3 – Contato por WhatsApp ou videochamada
Golpistas utilizam aplicativos para criar falsa sensação de proximidade.
4 – Pressão constante
Mensagens insistentes e ofertas de ajuda fazem parte da estratégia para impedir que a vítima reflita ou confirme a informação.
5 – Antes de qualquer pagamento, confirme
Entre em contato diretamente com o escritório do advogado usando os telefones e canais que você já conhece.
Imagem: Reprodução
Fonte: Assessoria de Comunicação







































































