Nas eleições presidenciais de 2026, um candidato chama a atenção: ele representa mais de 33 milhões de eleitores. Se apoiasse qualquer um dos lados, a disputa estaria ganha. Acontece que sua marca é o silêncio e, até agora, não houve pronunciamento oficial declarando apoio a qualquer uma das chapas.
Fico me perguntando por onde anda esse candidato e o que tem prometido ao povo, porque sua popularidade passou de 11,93% do eleitorado, em 1989, para 21,08%, em 2026. Seu poder de atração parece ter muito a ver com complacência, comodidade e desinteresse.
Ele diz que seu voto não importa: o que é um voto no universo de tantos? E aí, ironicamente, as várias gotas se tornam oceano. Ele diz que todos os políticos são iguais e confere aos seus adeptos o conforto necessário para não fazer nenhum esforço intelectual. Ele é tão diplomático que não discute com ninguém e, no máximo, resmunga que não se mistura com política. Todo mundo entende, porque também está cansado, e perdoa a indiscrição.
Se você ainda não percebeu, estou falando do número de abstenções nas eleições presidenciais.
Hannah Arendt foi uma filósofa alemã que precisou deixar seu país após a ascensão do nazismo. Imagine como essa mulher tinha motivos para desconfiar de governos e autoridades. Na contramão disso, Arendt foi uma pensadora de sensatez rara, que compreendeu de onde vêm os preconceitos contra a política, mas alertou que o risco é “jogar fora a criança junto com a água do banho”. A política ocorre, queiramos ou não, e, se não formos sujeitos das decisões, seremos apenas objetos delas. Não existe a não decisão, muito menos a não consequência.
Estamos repetindo de ano porque não fizemos o dever de casa. A sensação de déjà-vu se intensifica a cada ciclo eleitoral, mas, neste, eu gostaria de ver pelo menos uma mudança: que o fantasma das abstenções sentisse saudade de ter um corpo e parasse de nos assombrar.
Nota: Se você não votou no primeiro turno, pode votar no segundo. Informe-se e compareça.
Imagem: Reprodução
Victória Rincon é uma talentosa escritora, jurista e poetisa que traz uma riqueza única de experiência e sensibilidade ao mundo das palavras. Com dois livros publicados na área jurídica e uma paixão ardente pela crônica e poesia, ela é uma figura multifacetada que deixa sua marca distintiva em tudo o que faz.









































































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