Cyberpunk: Edgerunners — ou Cyberpunk: Mercenários, na tradução — surpreendeu todo mundo com sua primeira temporada espetacular, principalmente quem não botava fé em uma produção baseada em jogo que não teve um lançamento bom.
Um mundo visto por trás de uma lente
Cyberpunk: Edgerunners 2 já começa bem diferente da proposta do anterior, em vez de acompanharmos a biografia de uma das lendas de Night City, ou seja, acompanhar alguém ficando famoso e tendo um destino trágico ao fim.
Desta vez, temos quatro personagens distintos: o nômade D, o mercenário lendário King, a viciada em cibernética Talia e o jovem cameraman Roman. Cada um com seus próprios objetivos individuais, mas, por acaso do destino, aos poucos todos acabam juntos em uma encruzilhada maior. Mas depois me aprofundo mais nesses integrantes carismáticos. Neste primeiro momento, vamos falar da trama, a qual me agradou bastante e até um pouco mais do que a história do David.
De forma bem direta, o que mais me impressionou na história toda desta temporada é a forma como ela é contada e a mensagem final. Na anterior, temos a biografia do David, que termina de forma trágica, mas passa bem a realidade do que é ser uma lenda em Night City; reflete bem o próprio final do V, no qual ele se torna uma lenda.
Além de termos vários pontos de vista diferentes, a mensagem é mais otimista. Claro que, como essa é uma obra baseada em Cyberpunk 2077, ainda ocorrem muitas tragédias e momentos melancólicos, mas aqui o enredo vai além: também conseguindo apresentar momentos de otimismo, redenção e até mesmo esperança.
Essas escolhas geram um desfecho muito mais alegre do que o destino que o protagonista anterior recebeu no primeiro capítulo da serialização. Contudo, nem tudo é perfeito. Durante minha maratona, ficou notável que talvez a série tenha ficado mais extensa do que deveria, pois, dentre os dez episódios, pelo menos uns quatro não possuem um ritmo tão bom, sendo até um pouco chatos.
Isso se deve, pois nem sempre os diálogos funcionam tão bem e às vezes eles dão tempo de tela para uns figurantes que não são nem um pouco interessantes. Sem contar que senti falta de mais momentos de impacto, como no episódio Morte e Fogueira da primeira temporada.
Além de contar uma boa narrativa, o seriado se passa após os eventos da história do V, situando-se em 2078, ou seja, um ano após o final do game. Então, temos muita informação que agrega para o futuro da franquia, tudo apresentado de uma forma que não deixa claro se existe algum final canônico na obra da CD Projekt Red.
Quatro estranhos e uma jornada
Um dos meus maiores problemas com a primeira temporada de Cyberpunk: Mercenários eram algumas mudanças que o grupo principal sofria em suas personalidades após o time skip, além da falta de desenvolvimento do grupo, com David, Lucy, Rebecca e, às vezes, o Manny sendo os poucos que recebiam aprofundamento.
Reassistindo novamente à primeira temporada, por mais que a jornada do David seja muito boa, fica perceptível como o grupo dele não é bem desenvolvido e suas relações são bem superficiais, como o protagonista e Rebecca, não dando para sentir uma amizade verdadeira ali.
Mas, para minha felicidade, na sequência, mesmo tendo praticamente o dobro de personagens, eles conseguem aprofundar todos. Os integrantes D, King, Talia e Roman conseguem chamar atenção desde o começo e suas personalidades são bem apresentadas, mas o principal ponto que me agradou foi a química existente entre eles.
Conforme a narrativa avança e cada vez mais as tramas individuais se juntam em uma só, os momentos nos quais eles estão juntos vão ficando mais cativantes. Por exemplo, acompanhar Roman e D interagindo é sempre divertido, tenso e, na maioria das vezes, dramático. Você consegue se preocupar com essa dupla e com a amizade construída.
O mesmo vale para King e Talia, ou Roman e Talia; sempre que estão juntos, existe uma construção cativante na relação de ambos. Esse foi um dos principais pontos de destaque dessa sequência: a maneira como ela consegue construir naturalmente os personagens e suas relações.
Mas os momentos juntos não são a única coisa que chama atenção: eles, individualmente, já conseguem ser envolventes, pois seus arcos individuais são bem desenvolvidos a ponto de nenhum deles terminar a história da mesma maneira que começou.
Isso fica perceptível, principalmente com o King. A curva que ele apresenta desde o começo até o final é incrível de acompanhar, ainda mais porque ela é basicamente uma adaptação do final “bom” da DLC Phantom Liberty, do Cyberpunk 2077. Preciso ressaltar que mesmo figuras com menos importância na trama também conseguem ter espaço para serem minimamente marcantes, como a amiga nômade de D ou a mãe de Talia.
Night City está tão linda como nunca
Se a narrativa e o elenco principal são excelentes na nova temporada, está na hora de falar um pouco da animação. Já adianto que o Studio Trigger novamente consegue fazer um trabalho primoroso na animação, criando cenas bem detalhadas e psicodélicas.
Um exemplo são os momentos que demonstram a movimentação da Talia. Quando ela utiliza sua cibernética, é possível ver a fluidez com que cada membro reage. Esse nível de detalhe é absurdo, principalmente porque o estúdio costuma subverter formas convencionais de animação, recorrendo a exageros expressivos e figuras com formas desproporcionais.
Mas não são apenas os personagens que estão bem animados: a própria Night City está consideravelmente fidedigna ao material original, a ponto de haver vários fan services espalhados em vários locais que aparecem no jogo, como a fábrica de ração, na qual o protagonista V encontra Maelstrom pela primeira vez, ou referências visuais como D modificando seus atributos em uma árvore de habilidade idêntica à que existe no Cyberpunk 2077.
Um exemplo de como fazer uma adaptação
Contudo, quem prefere um enredo mais próximo ao visto na primeira temporada pode não gostar tanto da falta de momentos de mais impacto ou até mesmo de um ritmo mais lento que tenha menos ação para desenvolver melhor o elenco principal.
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